Por muito tempo, falar em envelhecer bem esteve associado principalmente à tentativa de preservar uma aparência jovem. Aos poucos, porém, a conversa começa a incorporar outras prioridades. Em vez de pensar apenas em como o corpo vai parecer nas próximas décadas, mulheres têm discutido como querem se sentir, se movimentar e viver à medida que os anos passam.
Entenda: Por que o corpo de uma mulher ainda vira assunto tão facilmente?
Além de Georgina Rodríguez: famosas que expuseram a pressão sobre o corpo feminino
Entre famosas brasileiras, essa mudança de perspectiva também aparece. Aos 43 anos, Kelly Key já falou sobre não ter como objetivo recuperar o corpo que tinha aos 20, mas construir uma condição física que favoreça saúde, força e autonomia. Aos 54, Ivete Sangalo mantém os exercícios como parte da rotina e já definiu a atividade física como um “projeto de vida”, relacionando a preparação ao ritmo de uma carreira que exige disposição.
A estética continua fazendo parte dessa relação com o corpo, mas divide espaço com uma preocupação menos visível no espelho. Definição muscular deixa de ser apenas uma questão de aparência; alimentação não se resume à perda de peso; e o exercício passa a ser encarado também como uma forma de preservar capacidade física para os anos seguintes.
Para a médica Júlia Lopes Won Ancken, que atua nas áreas de emagrecimento, hormônios, longevidade e nutrologia, essa preparação não deveria começar apenas quando os efeitos do tempo se tornam mais perceptíveis.
“Quando falamos em longevidade, não estamos falando simplesmente em acrescentar anos à vida. Queremos que esses anos sejam vividos com autonomia, força, mobilidade e saúde. E essa construção acontece muito antes dos 60. O que fazemos aos 30, 40 e 50 anos influencia a maneira como o organismo chegará às décadas seguintes. Por isso, gosto de pensar menos em ‘combater o envelhecimento’ e mais em preparar o corpo para envelhecer bem”, explica.
O músculo além da estética
A busca por um corpo mais definido sempre esteve presente no universo fitness, mas a preservação da massa muscular ganhou outra dimensão quando passou a ser associada também à saúde e à independência. Com o avanço da idade, força e capacidade funcional se tornam importantes para atividades que vão muito além da academia.
Nesse contexto, a balança deixa de ser o único parâmetro para avaliar a condição física. Composição corporal, força e capacidade de realizar movimentos cotidianos entram na equação.
“Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo peso e composições corporais completamente diferentes. Quando pensamos em envelhecimento saudável, precisamos olhar para massa muscular, força, saúde metabólica e capacidade funcional. O músculo não é apenas uma questão estética. Ele participa ativamente do metabolismo e é uma reserva importante para o organismo ao longo da vida”, afirma Júlia.
A mudança também ajuda a entender por que a imagem do corpo forte ganhou espaço no imaginário feminino. Mais do que perseguir uma determinada numeração de roupa, entram em cena objetivos que não aparecem necessariamente nas fotografias: subir escadas, carregar peso, viajar, praticar esportes, trabalhar e manter independência ao longo dos anos.
A promessa de juventude não está apenas nos produtos
O interesse por longevidade veio acompanhado de um mercado dedicado a desacelerar os efeitos do tempo. Suplementos, vitaminas, tratamentos e diferentes protocolos ocupam espaço nas redes sociais e alimentam a busca por estratégias capazes de prolongar a sensação de juventude.
Para Júlia, no entanto, recursos específicos não substituem hábitos básicos nem devem ser adotados de forma indiscriminada.
“Existe uma tendência de procurar algo extraordinário quando, muitas vezes, ainda não organizamos o essencial. Sono de qualidade, atividade física, alimentação adequada, acompanhamento médico e controle dos fatores de risco continuam sendo fundamentais. Suplementação pode ser indicada em situações específicas, assim como tratamentos hormonais têm suas indicações, mas tudo precisa partir de uma avaliação individual. Longevidade não vem de uma cápsula isolada”, alerta.
A ideia de envelhecer bem também passa por abandonar a expectativa de manter, década após década, o mesmo corpo da juventude. As transformações físicas fazem parte do processo e não necessariamente indicam perda de saúde.
“Uma mulher de 50 anos não precisa ter o corpo que tinha aos 20 para estar saudável. Acho importante tirar essa pressão da conversa. O objetivo é construir a melhor condição possível para a fase em que ela está e, principalmente, para aquela que ainda virá. Existem mudanças hormonais e metabólicas ao longo da vida, e cuidar da saúde significa compreender essas mudanças, não lutar permanentemente contra elas”, pontua.
Talvez a mudança esteja justamente aí: a ideia de juventude começa a se afastar da tentativa de apagar os sinais do tempo e se aproximar da possibilidade de continuar fazendo escolhas com liberdade. Aos 50, 60, 70 anos ou mais, envelhecer bem pode significar ter condições físicas para viajar, trabalhar, praticar atividades, se relacionar e manter uma rotina que faça sentido.
“Para mim, longevidade bem-sucedida é quando os anos aumentam sem que a vida precise necessariamente diminuir. Poder trabalhar, viajar, se movimentar, ter independência e continuar fazendo aquilo que dá prazer exige um corpo preparado para acompanhar esses planos. A medicina pode ajudar nesse processo, mas grande parte dessa construção acontece nas escolhas repetidas todos os dias. O futuro do nosso corpo começa no presente”, finaliza Júlia.
Por que ter um corpo forte ganhou espaço na conversa sobre beleza
