Sócio da gestora de investimentos Lazulli Partners, braço da LZ Sports, Carlos de Barros passou a limpo os detalhes que envolvem a proposta de compra pela SAF do Fluminense. Ao GLOBO, o investidor, que faz parte do grupo de cotistas tricolores, confirmou que gostaria de ter o presidente Mário Bittencourt como CEO da empresa por “estar no futebol e ser um dos principais dirigentes em atividade”. Ele também falou sobre a questão do endividamento do clube, os compromissos financeiros e a gestão Fla-Flu no Maracanã.
Negocia com o presidente Mário Bittencourt para CEO?
O Mário é um dos principais dirigentes do futebol brasileiro. Gostaríamos de contar com ele. Não tem nada fechado, vamos negociar. Ele pode estar em algumas posições, inclusive CEO. Precisamos de alguém do meio do futebol, que é muito particular, diferente de outras indústrias. Esse tema dos atletas, do mercado, de lidar com comissão técnica, é muito específico. Quem quer que esteja ocupando essa cadeira, se não entregar as metas, terá conversas, feedbacks e, se mesmo assim os resultados não forem alcançados, outras medidas serão adotadas. Isso vale para o Mário ou qualquer outra pessoa que estará sujeito a essa gestão profissionalizada.
O que dá para tirar de positivo das SAFs no Brasil?
A SAF não é uma bala de prata, é apenas um modelo, assim como o modelo associativo, que também pode funcionar muito bem dependendo do clube. No entanto, a SAF permite implementar uma forma de gestão que evita um dos principais problemas que, na minha visão, precisamos enfrentar no dia a dia da administração do futebol, que é o ciclo eleitoral típico dos clubes associativos
E os pontos negativos no cenário nacional?
Muita gente entra achando que entende de futebol, vai fazer do seu jeito, contratar, trocar o time, mexer em tudo da noite para o dia. Mas não é assim. Isso vale também para qualquer outra indústria em que se pretenda investir. Os empresários e investidores por trás dessa proposta conhecem bem cada setor, e o futebol, para mim, é um dos mais complexos. A maioria dos clubes no futebol brasileiro é muito endividada. Historicamente, não geram caixa suficiente para quitar suas dívidas. A receita cresce, mas a dívida também, e o problema é apenas adiado. Já vimos SAFs que não resolveram esse ponto e agora enfrentam um endividamento ainda maior.
Como resolver o endividamento do Fluminense?
O Fluminense hoje tem uma dívida de quase R$ 900 milhões. Se aplicarmos uma taxa de juros de mercado, como a Selic atual, em torno de 15%, estamos falando de mais de R$ 100 milhões por ano apenas em juros. Isso representa mais do que o dobro do patrocínio master do clube. É muito dinheiro sendo destinado exclusivamente ao pagamento da dívida. Isso não significa zerá-la toda, porque existem passivos que não valem a pena ser quitados de imediato. A ideia é deixá-la equacionada e renegociada de forma sustentável.
Como os investidores vão utilizar os recursos iniciais?
Vamos usar parte dos R$ 500 milhões para dívida e para investir também, para aumentar a folha salarial. Contamos com a redução da dívida e queremos potencializar as receitas. É um ciclo virtuoso. Precisamos investir no elenco para ter mais premiação e mais receitas
Qual é o impacto dos investimentos na folha salarial?
Hoje já se gastam 371 milhões por ano, e estamos falando de um potencial de investimento com compromisso anual que chega a R$ 640 milhões. A gente está também assumindo um compromisso de 12 milhões por ano com a associação, que será o maior valor de royalties já pago. Então, a comparação fica entre R$ 371 milhões e R$ 625 milhões. Estamos falando de uma folha de atletas que vai de R$ 19 milhões para R$ 25 milhões já no primeiro ano, e com expectativa de crescimento nos anos seguintes. São R$ 6 milhões a mais. Dá para pagar o salário de quatro Jhon Arias, por exemplo.
Como garantir o compromisso financeiro?
A gente conta com o aumento de receitas para conseguir cumprir esse compromisso. Além do capital, o que aportamos aqui é a nossa gestão. Com isso, conseguimos posicionar o Fluminense entre os três clubes com as maiores folhas salariais. Caso não se gaste esses R$ 625 milhões, não terão nenhum lucro, não terão distribuição de dividendos.
O Maracanã é uma gestão Fla-Flu. Isso poderia mudar com a SAF?
A parceria do Fluminense com o Flamengo no Maracanã está indo muito bem, e vamos continuar com ela. Os clubes têm um contrato de 20 anos com o estádio, e acreditamos muito em seguir valorizando esse que é o principal palco do futebol brasileiro.
Pensa em aproveitar Laranjeiras?
As Laranjeiras continuam com o clube associativo e são um patrimônio histórico do nosso futebol e do país. É um lugar que emociona. Se, em algum momento, conseguirmos realizar alguns jogos lá, mesmo que poucos e com público reduzido, seria algo muito especial. Já temos partidas do futebol feminino e da base nas Laranjeiras, o que é super legal. Imaginar, por exemplo, um jogo do Carioca ali seria incrível. Claro que o estádio precisa de muitas melhorias, mas tenho certeza de que o clube tem projetos para isso.