Em lados opostos do campo hoje, na estreia da seleção canarinho na Copa do Mundo, Brasil e Marrocos já estiveram unidos na Sapucaí. Em 2017, a Mocidade Independente de Padre Miguel levou para a Avenida o enredo “Mil e Uma Noites de Uma Mocidade Pra Lá de Marrakech”. A escola abordou a cultura marroquina e propôs uma mistura de traços do país com costumes e lugares brasileiros, como o encontro entre o Deserto do Saara e a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (Saara), famoso polo comercial do Centro do Rio. Entre inovações, polêmicas e divisão de troféu, o desfile foi campeão e ficou marcado na história do carnaval.
Tendas de mascates, palácios, medinas e dunas desérticas foram o cenário da verde e branco de Padre Miguel na avenida. A escola explorou desde contos famosos no Marrocos à herança fenícia e à habilidade de barganhar um preço mais baixo em compras com mascates. Os costumes do adversário do Brasil no confronto de hoje estamparam o Sambódromo, que ficou repleto de minerais valiosos, véus de odaliscas e temperos coloridos.
“Fizemos do Saara uma passarela, e no reino do Marrocos, o nosso conto transformou minutos em mil e uma noites de alegria e prosperidade” afirmava o enredo da agremiação, que bebeu da fonte do clássico “As Mil e Uma Noites” em boa parte do desfile. A obra ambientada entre a Pérsia antiga e o Império Árabe, que ocuparam o território marroquino na antiguidade, traz histórias de aventuras contadas pela rainha Sherazade ao seu esposo Shariar antes de os dois caírem no sono.
Entre as personalidades dos contos trazidos pela narradora estava Aladim, um jovem pobre, auxiliado por um gênio da lâmpada para conquistar fortunas e salvar a sua amada Jasmine. O retrato do menino no desfile foi o grande destaque daquele carnaval. A comissão de frente da Mocidade inovou ao trazer um tapete voador que parecia portar o ator que interpretava o personagem, mas não passava de ilusão de ótica, formada por um drone hiper-realista.
— É como se a Mocidade se sentasse numa praça para ouvir esses contadores (de história), assim conhecendo a história do Marrocos — a jornalista disse Fátima Bernardes, que comandava a transmissão do desfile.
A passagem da escola encantou o público, mas a agremiação contou com um longo impasse até poder soltar o grito da vitória. Uma confusão no material entregue ao júri da Liesa resultou na retirada de um décimo da Mocidade, o que viria a ser a diferença de pontos entre a agremiação e a Portela, declarada inicialmente como a única campeã.
A Mocidade recorreu do resultado para tentar solucionar o erro de um jurado. Para a agremiação, que havia ficado com o vice-campeonato, a nota do julgador Valmir Aleixo foi injusta e impediu que ela vencesse a disputa. Aleixo teria feito o julgamento do carro abre-alas se baseando nas informações da primeira edição do roteiro do desfile , em que haveria a participação de um destaque num determinado trecho da apresentação. Mas, numa segunda edição do material, que não chegou a Aleixo, houve a retirada do destaque do desfile.
Aleixo, então, subtraiu um décimo em sua nota, sob o argumento de que a Mocidade “não apresentou o destaque de chão” (…)“o Esplendor dos Sete Mares, que executa função narrativa dentro do enredo, comprometendo assim sua leitura”, justificou o jurado. A própria Liesa reconheceu que esse destaque só existiu na primeira versão do abre-alas, em que ficam registrados todas as fantasias e as alegorias da escola. Portanto, teria havido uma falha na distribuição do roteiro do desfile que ajuda o júri a acompanhar o espetáculo e a votar de acordo com as regras da Liesa.
Após a solução do mal-entendido, a Mocidade foi deckarada campeã ao lado da Portela. Se o roteiro tivesse chegado às mãos do jurado, ela teria vencido sozinha. Foi o último título da Mocidade, que vem acumulando maus resultados desde que voltou a Marrakesh. Falta tapete mágico?

