Após levar à inelegebilidade do ex-coach Pablo Marçal (PRTB), acusado de promover campeonatos de corte nas redes sociais durante a campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024, a prática impulsionou pelo menos três candidatos a cargos eletivos na disputa deste ano. Essa estratégia de divulgação foi proibida por uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda antes do início da campanha.
Nos campeonatos de cortes, editores de vídeo, chamados no meio de “clipadores”, se mobilizam para ver quem consegue mais reproduções com seus conteúdos, que são trechos curtos e dinâmicos de gravações mais longas. As formas de remuneração podem variar, mas, em geral, são estabelecidos valores a serem pagos a cada mil visualizações.
O TSE proibiu este ano a contratação “sob qualquer modalidade” de pessoas que façam publicações de caráter político-eleitoral em seus perfis, vedando os chamados campeonatos de cortes, nos quais aqueles que editam o material fornecido pelo candidato ganham conforme obtêm mais visualizações. A prática resultou na inelegibilidade de Marçal, que, no entendimento da Justiça Eleitoral, adotou os torneios como um dos meios para aumentar o alcance nas redes na disputa eleitoral.
Uma das candidaturas que se vale do expediente em 2026 é a do vereador de São Paulo Sargento Nantes (PP), que tenta agora um cargo na Câmara dos Deputados. A disputa foi organizada por meio do site Clipei, que tem um ex-funcionário de Marçal como dono e pertence à empresa Hypex. Iniciada em meados de agosto, a campanha continuou em atividade ao longo de setembro, conforme indicam mensagens enviadas por usuários do grupo de Discord da empresa, usado para editores tirarem dúvidas, interagirem e trocarem informações.
Campanha de cortes é organizada em plataforma de ex-funcionário de Marçal
Reprodução
O campeonato, no entanto, não estava aberto a qualquer um. Apesar de ter sido anunciado a todos os usuários do Clipei — com direito a uma contagem regressiva para o momento em que teria início —, apenas alguns “clipadores” tiveram acesso à disputa. Após o contador zerar, a campanha sumiu da plataforma, fato que gerou dúvidas no chat do Discord.
“O CEO avisou que isso poderia acontecer, já que as competições dele (Nantes) são privadas, só para clipadores(as) que foram escolhidos pela equipe”, respondeu uma funcionária responsável por atender aos usuários. Ela acrescentou que os “convites são feitos internamente”. No dia 9 de setembro, uma nova mensagem foi enviada no grupo, alertando para uma atualização das regras. Uma das novas orientações proibia “usar vídeo do Nantes no Parlamento, nem em qualquer outro ambiente ou assunto político”.
No dia 29 de agosto, em outro grupo de clipadores, um usuário comemorou ter recebido um pagamento da campanha de Nantes. Uma captura da tela de celular mostra uma notificação de transferência de R$ 553 da Hypex. “Sargento Nantes fez a boa novamente. Pena que não foquei”, escreveu.
Campeonato de cortes
Reprodução
Mensagem mostra pagamento por campeonato de cortes de candidato a deputado federal
Reprodução
Não foi a única campanha de teor político impulsionada pela plataforma. Ao longo do período eleitoral, ela foi usada pela agência Komp, que se descreve como “especializada em distribuição de conteúdo”, para promover cortes da sabatina dos candidatos à Presidência da República organizados pela G4 Educação, empresa de educação executiva. Ocorrida em 4 de agosto, a sabatina reuniu Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). Segundo a G4, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi convidado, mas não compareceu.
Não há indicativos de que os candidatos tivessem conhecimento da campanha. A G4 e nomes envolvidos com a empresa já usaram a Clipei para impulsionar outros conteúdos.
Campanha impulsiona sabatina de candidatos nas redes sociais
Reprodução
A plataforma Clipei pertence ao empresário Jefferson Zantut. Ex-funcionário de Pablo Marçal, ele foi um dos responsáveis por organizar, em 2024, as competições de cortes do então candidato à prefeitura paulistana.
Campanhas em benefício do deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos-PI), que tenta a reeleição, também foram feitas. No caso, elas foram organizadas por meio de outra plataforma, batizada de Estourou.com. A disputa promete pagar R$ 1,50 por mil visualizações, podendo chegar até R$ 100 por publicação, mas com um limite de três por dia. A página da competição do parlamentar trata a disputa como “uma campanha de conteúdo de entretenimento”, apesar da coincidência com o calendário eleitoral.
As regras proíbem menções ao pleito, pedidos de voto, slogan ou falas sobre mandato, obras e verbas. Os clipadores são orientados a produzir “cortes do dia a dia”, com “bastidores, rotina, momentos espontâneos”, assim como episódios “engraçados, curiosos ou emocionantes” do candidato. Caso seja feito o uso de “IA enganoso”, pedido de voto explícito ou ataque a terceiros, a conta do clipador pode ser suspensa.
Plataforma faz campeonato de cortes para candidato a deputado federal do Piauí
Reprodução
O mais comum, no entanto, são campanhas anunciadas às escondidas por meio de aplicativos de mensagens como o WhatsApp. Como ficam fora de plataformas públicas, são mais dificilmente localizadas.
“Temos projetos de direita, centro e esquerda”, diz uma mensagem que circulou em grupos de clipadores no mês de setembro, na qual editores eram orientados a acessar um grupo no Discord e fornecer nome, conta e responder à pergunta “Qual nicho você clipa: direita, centro, esquerda ou todos os lados?”. Em outra mensagem — desta vez direcionada a uma campanha apenas de candidatos de direita —, os clipadores eram avisados para não publicar vídeos de esquerda no mesmo perfil usado para os conteúdos de direita.
Campanha de cortes em plataforma
Reprodução
Uma dessas mensagens levava à plataforma Cliparam, onde era organizada uma competição de cortes do candidato a deputado estadual André Merlo (Republicanos-MG). A campanha era batizada de “Movimento Direita Brasil”, e vídeos de Merlo, que é ex-prefeito de Governador Valadares, eram disponibilizados para serem editados. Uma das regras proibia a inserção de “pedido de voto ou número eleitoral”, enquanto solicitava que hashtags como #Patriotismo, #BrasilEmDebate e #ValoresDoBrasil fossem utilizadas. Com previsão para acabar no domingo da eleição, a campanha pagava R$ 2 a cada mil visualizações. Após questionamentos enviados pelo GLOBO, o material foi retirado do ar.
André Merlo, Sargento Nantes e Jadyel Alencar foram procurados pela reportagem, mas não retornaram. As empresas citadas também não responderam aos questionamentos.
Proibidos pelo TSE após Marçal, campeonatos de cortes nas redes seguem impulsionando campanhas de candidatos nas redes
