Em Bogotá, capital e, com sobras, maior município da Colômbia, são cerca de 3,5 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco — quase metade da população. Palco frequente de inundações, deslizamentos e incêndios florestais, além do forte calor urbano, a metrópole ganhou um projeto que revitaliza espaços públicos ao melhorar a gestão da água por meio de sistemas de drenagem sustentável, conciliando resiliência climática e avanço nas condições de vida.
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A iniciativa é um dos destaques do Local Leaders Climate Awards 2025, que será entregue em cerimônia no Rio em 4 de novembro, durante evento que antecede a COP30, em Belém. Esse e outros projetos conduzidos por autoridades locais, todos finalistas no prêmio organizado pela Bloomberg Philanthropies, compõem a série de entrevistas “Cidades do futuro”, que ouve agora o prefeito de Bogotá, Carlos Fernando Galán Pachón.
É uma iniciativa estratégica que articula múltiplas dimensões do desenvolvimento urbano e da sustentabilidade ambiental. O principal objetivo é alcançar uma combinação de infraestrutura verde, sistemas de drenagem sustentáveis e moradias bem localizadas para transformar bairros vulneráveis em ambientes mais seguros e resilientes. Para isso, elaboramos o projeto “Revitalize seu bairro”, que envolve intervenções divididas em 20 polígonos priorizando áreas com déficits de desenvolvimento urbano e riscos ambientais e de segurança. É importante lembrar que Bogotá é o motor do crescimento e desenvolvimento da Colômbia: representa quase 15% da população nacional e contribui com 26% do PIB.
Que melhorias concretas são sentidas na vida da população?
A iniciativa trouxe benefícios diretos e visíveis. Estamos reformando mais de 250.000m² de espaço público, beneficiando mais de um milhão de pessoas. Bairros que antes estavam em risco ou em ruínas agora contam com parques, jardins, corredores seguros e espaços comunitários. Isso melhora a segurança, a saúde e a convivência.
Algum segmento resistiu mais?
A chave para evitar que isso ocorra é a participação. Reabilitamos 14.900m² em 168 espaços da cidade, com a participação de mais de 9.100 pessoas por meio de oficinas, dias de voluntariado e atividades comunitárias. É crucial ressaltar que, em Bogotá, comunidades de baixa renda tendem a viver em áreas mais expostas a inundações, deslizamentos de terra ou ilhas de calor. Um dos princípios centrais da estratégia de revitalização de bairros é que a gestão de riscos não deve envolver deslocamento ou perturbação do tecido social.
E com outras esferas do poder público, houve tensionamento?
O governo de Bogotá tem autonomia para o planejamento e a execução de ações urbanas, o que lhe permite desenvolver estratégias de revitalização sem depender diretamente de recursos ou regulamentações nacionais. No entanto, o governo nacional participa do desenvolvimento da maior cidade do país, financiando alguns projetos abrangentes de revitalização, como o sistema de teleféricos em San Cristóbal e La Estancia, em Potosí.
Como a iniciativa é financiada?
Os recursos alocados para a estratégia de revitalização dos bairros são 100% próprios. Incluímos o financiamento diretamente no Plano de Desenvolvimento do Distrito, o que garante sua sustentabilidade ao longo de toda a administração e assegura que cada peso investido se traduza em transformação tangível para os cidadãos. No entanto, embora esse projeto não tenha contado com financiamento global, Bogotá está dando um passo histórico: estamos trabalhando com o Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW) em uma operação de empréstimo pioneira no mundo, focada no fortalecimento da resiliência climática urbana. Seremos a primeira cidade do planeta a ter acesso a um instrumento deste tipo, o que demonstra a confiança internacional na visão climática de Bogotá.
O que será feito com esse valor?
Avançaremos com a consolidação de uma rede de Mega SUDS, sistemas que emulam o ciclo natural da água, capazes de reter e regular mais de 200 metros cúbicos por evento de chuva. Esses sistemas serão instalados estrategicamente em locais críticos de inundação, reduzindo assim o risco de transbordamentos. Isso melhorará a qualidade da água e fortalecerá a infraestrutura verde que protege a cidade das mudanças climáticas.
Como os efeitos das mudanças climáticas afetam Bogotá?
Bogotá é a segunda cidade mais vulnerável do país às mudanças climáticas. Em um único ano, sofremos com incêndios, secas e inundações. Mais de 3,5 milhões de pessoas estão em zonas de ameaça. Diante dessa situação, Bogotá está promovendo uma agenda climática abrangente que atua simultaneamente em três frentes estratégicas: água, solo e ar. Na primeira, triplicamos os esforços de conservação de ecossistemas estratégicos que garantem o abastecimento para a população. Na segunda, conseguimos restaurar mais hectares de ecossistemas estratégicos nas colinas orientais. Nossa meta é restaurar 2.145 hectares, incluindo 1.454 novos plantios e a manutenção de outros 691 hectares. Isso equivale a ter uma floresta com 3,4 milhões de árvores nas montanhas que cercam a cidade. Por fim, na parte aérea, estamos desenvolvendo um sistema de transporte público limpo, com 1.486 ônibus elétricos. Em 2025, aumentaremos esse número para 1.850. Assim, cortaremos o uso de 19 milhões de galões de combustíveis fósseis por ano, deixando de produzir 171 mil toneladas de CO2 anuais.

