Ainda criança, Cristina Peri Rossi confessou a seu tio Tito o desejo de ser escritora. O tio lembrou a menina que havia só três autoras mulheres em sua biblioteca — Virginia Woolf, Alfonsina Stornini e Safo — e perguntou se ela sabia como elas tinham morrido. “Cometeram suicídio”, ela respondeu. “Pois aprenda a lição. As mulheres não escrevem, e, quando escrevem, se suicidam”, avisou Tito. Nem assim ela desistiu. Cristina sempre foi obstinada. Não à toa, o título de suas memórias de infância, recém-publicadas pela Bazar do Tempo, é “A insubmissa”.
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Cristina tem 83 anos e é um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola. Vencedora do Prêmio Cervantes, é tida como única mulher do boom latino-americano dos anos 1960 e 1970 — e rejeita esse título. Sua obra transita entre a prosa e a poesia e explora a natureza do desejo e os múltiplos significados do exílio. Em 1972, um ano antes do início da ditadura uruguaia, ela precisou deixar o país. Seus livros, que exaltam o amor entre mulheres, estavam proibidos, assim como a menção ao nome dela na imprensa. “Silêncio. Orai: ela abriu as pernas. Todo mundo de joelhos”, ordena o poema “Oração”, incluído na antologia “Nossa vingança é o amor”, lançada pela Editora 34.
Até este ano, só um livro da uruguaia havia sido traduzido por aqui: “Espaços íntimos” (Gradiva, 2017). Mas o Brasil está enfim descobrindo Cristina Peri Rossi. Tanto “A insubmissa” quanto “Nossa vingança é o amor” já foram reimpressos e, em 2026, saem o romance “La nave de los locos” (Bazar do Tempo) e “Julio Cortázar y Cris” (Editora 34), recordações de sua amizade com o escritor argentino.
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Problemas respiratórios que persistem desde a infância impediram Cristina de conceder uma entrevista por vídeo ao GLOBO. Por e-mail, ela falou sobre nunca ter voltado do exílio em Barcelona, do amor por Clarice Lispector e Maria Bethânia, do arrepio com interpretação da cantora Maysa e da recusa de sua família em ler seus livros.
A insubmissão foi uma escolha?
Foi tanto uma predisposição natural quanto uma escolha. Não sabia o que era insubmissão até que alguém, provavelmente minha avó, me recriminou por ser insubmissa. Nunca aceitei normais sociais baseadas em preconceitos ou ordens que me parecessem injustas, viessem de quem fosse: do meu pai, da Igreja ou do governo. Decidi ser fiel a mim mesma.
“A insubmissa” conta que sua família considerava alusões ao passado desnecessárias, inadequadas e desinteressantes. Ainda assim, você escreveu um livro de memórias.
Escrevi “A insubmissa” sem um propósito determinado. Talvez a literatura não baste para preencher o vazio profundo que é a passagem do tempo. Ninguém da minha família jamais leu um livro meu. Minha mãe me disse: “Não quero saber o que você pensa e sente”. Para além da dor que me causou, essa resposta me fez compreender que os seres humanos, em geral, não queremos saber de nada que possa nos ferir ou fazer sofrer. Isso vale tanto para aquele que se recusa a reconhecer que é mortal quanto para quem não admite estar doente ou viver sob uma ditadura.
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Seus grandes amores na infância foram sua mãe e uma jovem chamada Mabel, que você conheceu quando morou no campo para tratar os pulmões. O que aprendeu com elas sobre o amor?
Eu ainda não sabia o que era o amor. Acontece de sentirmos e vivermos intensamente algo sem saber seu nome. Teria dado minha vida por elas e tinha consciência disso. A máxima prova de amor é dar a vida pelo outro. Com elas, aprendi que o amor pode ser efêmero, devido às circunstâncias, e ao mesmo tempo impossível de esquecer. Se eu pudesse definir completamente o que são o amor e o desejo, não teria por que continuar escrevendo. Escrever também é um desejo. E o desejo é sempre desejo insatisfeito, senão deixa de ser desejo.
Por que nunca voltou do exílio em Barcelona?
Porque os governos democráticos uruguaios parecem ter se esquecido de mim, não reconheceram meus títulos universitários nem meus anos de docência. Devo ter conquistado inimigos muito vingativos. Voltei esporadicamente ao Uruguai após a queda da ditadura, mas já estava há tanto tempo na Espanha que não queria voltar a sentir nostalgia… Agora, de Barcelona. Na verdade, não podia haver um retorno completo depois de um exílio. Nem o Uruguai nem eu somos os mesmos.
Só agora sua obra alcança maior visibilidade no Brasil. Como se sente?
Imensa e inesperadamente feliz. Nunca imaginei que isso podia acontecer, ainda que eu tenha introduzido a obra de Clarice Lispector na Espanha e traduzido Graciliano Ramos e Ignácio de Loyola Brandão. Quando li Clarice pela primeira vez, tive a convicção profunda de que aquela era uma literatura feminina. Eu já havia lido Simone de Beauvoir e Virginia Woolf, mas Clarice é diferente: não há uma teoria feminista ali, e sim uma obra inclassificável. Pouco depois de me exilar, trabalhei numa editora e seduzi a diretora para traduzir Clarice, então completamente desconhecida na Espanha.
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Maria Bethânia também é citada em “A insubmissa”.
Quando eu tinha 16 anos, um livreiro que me abastecia com discos (com notável sacrifício de ambas as partes, porque éramos pobres) me disse: “Reservei o único exemplar que tenho de uma cantora brasileira de que você vai gostar muito”. Era Maria Bethânia. Desde a infância, conservo a paixão pela música. Quando era muito jovem, um jornal de Montevidéu me enviou a Punta del Este para entrevistar Maysa, cujo “Ne me quitte pas” arrepiava tanto a mim quanto ao meu cachorro, que uivava lastimosamente diante da belíssima interpretação da cantora.
Por que você rejeita o rótulo de única mulher do boom latino-americano?
Sou avessa a classificações. Para mim, nem o amor nem a literatura têm gênero. Não lemos Cervantes porque ele é homem (aliás, a segunda parte de “Dom Quixote” contém um excelente discurso feminista: “O discurso de Marcela”), assim como não quero ser lida apenas por ser mulher.
Em “Julio Cortázar y Cris”, você sugere que ele teria morrido de aids devido a uma transfusão de sangue. Por que quis falar abertamente sobre isso?
Estava indignada com insinuações de que Julio havia contraído Aids porque seria homossexual. Como todas as pessoas inteligentes, Julio não discriminava a orientação sexual de ninguém e lutava para que em Cuba e Nicarágua (regimes socialistas hostis às minorias sexuais) não se discriminasse os homossexuais. Uma vez, me chamou para irmos a uma livraria porque queria enviar a (Daniel) Ortega (líder da Nicarágua) livros de autores homossexuais. Quando Ortega, que queria ser escritor, lhe dissesse: “Que bom escritor é Manuel Puig”, Cortázar responderia que era homossexual. Ri muito. Voltamos com uma mala cheia de livros que ele enviou à Nicarágua. Entre nós havia cumplicidade e harmonia. Às vezes, ele me ligava de Paris, me contava uma anedota e me dizia para escrevê-la. Eu fazia o mesmo com ele.
Um de seus poemas diz: “Os antigos faraós/ ordenavam aos escribas:/ consignar o presente/ vaticinar o futuro”. Como você vê o futuro?
Já estou no futuro que imaginei. Ou melhor, que temi! Vivi a infância obcecada pelas duas guerras mundiais. Temia uma ditadura e me coube viver uma. Tenho medo dos meus próprios prognósticos. Fiquei irritada quando Cortázar publicou um folhetim no qual sua jovem esposa, Carol, morria antes dele (o que de fato aconteceu). Repreendi-o furiosamente. Como Kafka, acredito que a literatura às vezes é um relógio que anda adiantado.
Autora: Cristina Peri Rossi. Tradução: Anita Rivera Guerra. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 208. Preço: R$ 78.
‘Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024)’
Autora: Cristina Peri Rossi. Organização e tradução: Ayelén Medail e Cide Piquet. Editora: 34. Páginas: 400. Preço: R$ 98.

