Em agosto, um mês antes de um jacaré morrer atropelado na Curva Chico Anysio, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio, foi entregue à Câmara Municipal um estudo com a proposta de transformar o trecho, dotado de 5,7 hectares de canteiros entre as faixas de rolamento, em uma área naturalizada, com estruturas de drenagem, vegetação nativa e espaços destinados à fauna. Aumentar e proteger a biodiversidade são os principais objetivos do projeto, proposto pelo biólogo Mario Moscatelli e sua filha, a arquiteta e urbanista Carolina Moscatelli.
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Atuante na região há pelo menos três décadas, Moscatelli, mestre em Ecologia, afirma que a proposta partiu de uma característica da área.
— Os canteiros já recebem o escoamento da água das vias e calçadas e possuem áreas sujeitas a alagamentos. A ideia é aproveitar essa função e transformá-los em uma infraestrutura verde voltada também para a recuperação ambiental — explica.
Perspectiva da passarela-mirante: estrutura em madeira elevada, alagadiço naturalizado e vistas para a Lagoa do Camorim
Reprodução/ Carolina Moscatelli
A primeira fase do projeto concentra as intervenções de infraestrutura verde e drenagem, prevendo jardins de chuva, áreas úmidas e lagos, além da substituição de espécies exóticas e invasoras por vegetação nativa. Em uma segunda fase, seria construída uma passarela elevada de madeira, ligada à calçada existente e com um mirante voltado para os canteiros e a Lagoa do Camorim.
— É basicamente como você ter uma área vegetada, como se fosse um jardim, mas ele perde aquele sentido totalmente ornamental que o jardim tem, de ser só bonito. Ele ganha realmente uma função importante, que é regular o ecossistema e contribuir com a drenagem nos dias de chuva — explica Carolina Moscatelli.
Mais espaço para os animais
O jacaré que acabou atropelado apareceu na Curva Chico Anysio num momento em que, segundo Moscatelli, a fauna vem crescendo no sistema lagunar de Jacarepaguá, graças à melhora da qualidade da água e à maior entrada de água do mar, associadas às dragagens. O biólogo afirma ter contado cerca de 60 jacarés em uma área de aproximadamente 200 metros — o que nunca tinha acontecido antes num trecho tão curto, segundo ele — e relata também a presença de mais capivaras, lontras e cágados.
Para ele, a naturalização do trecho poderia oferecer aos animais novas áreas para alimentação, abrigo e reprodução, reduzindo a necessidade de circulação por espaços destinados aos veículos:
— Você está oferecendo mais espaço para os animais, espaço que foi tirado dessas espécies. Não são só jacarés. Você tem capivaras e uma série de outros animais que correm riscos também.
Jacaré fêmea de papo-amarelo com sua ninhada nas margens da Lagoa do Camorim, na Zona Sudoeste do Rio
Divulgação/Mario Moscatelli
O biólogo ainda aponta que o aumento da fauna torna necessária a criação de um plano de gestão para preservação dos animais. No projeto, os alagadiços naturalizados são descritos como possíveis áreas de habitat para aves, anfíbios e insetos polinizadores. A substituição das espécies exóticas por vegetação nativa de brejo, restinga e manguezal também é apontada como forma de fortalecer relações ecológicas no trecho da Baixada de Jacarepaguá.
Paisagem e lazer
A proposta não se limita à recuperação ambiental. A passarela prevista avançaria sobre um dos canteiros até um ponto elevado de observação. O mirante teria vista para os ambientes naturalizados e para a lagoa, além de bancos e uma arquibancada de contemplação.
— Você está grudado na margem da Lagoa do Camorim. A ideia é capturar a importância da localização daquela área para as pessoas também poderem se lembrar de que existem as lagoas ali no meio da região da Barra — diz Carolina.
Para Moscatelli, a proposta faz parte de uma discussão mais ampla sobre a adaptação da cidade a eventos climáticos extremos. O projeto parte da avaliação de que áreas hoje degradadas ou subutilizadas podem exercer funções simultâneas de drenagem, recuperação ambiental e uso público.
Envio à Câmara
O estudo, de caráter preliminar, de acordo com Moscatelli, foi encaminhado ao vereador Carlo Caiado (PSD), presidente da Câmara Municipal, em agosto, com o objetivo de que ele o leve para debate na gestão pública.
Caiado diz que sua equipe está finalizando a documentação para solicitar um estudo mais aprofundado da prefeitura. Ele é o autor da lei que criou o Parque Natural Municipal Perilagunar da Lagoa do Camorim, em março do ano passado, outra iniciativa que surgiu a partir de um projeto de Moscatelli. O parque fica na mesma região da Curva Chico Anysio.
— O projeto enviado prevê uma melhora na drenagem do local e um tratamento paisagístico mais adequado, o que deverá ser positivo para a região — afirma Caiado.
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