A recorrência de episódios de violência contra a mulher não é apenas senso comum. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, compilados pela Secretaria municipal de Saúde do Rio (SMS), mostram que quase 80% dos atendimentos médicos a vítimas de grupos vulneráveis — de notificação obrigatória — são mulheres. Os números ainda constatam outro cruel cenário: quase 40% dessas mulheres foram a unidades de saúde mais de uma vez por terem sofrido alguma agressão.
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O Sinan foi criado pelo Ministério da Saúde para receber notificações de atendimentos a vítimas — de qualquer sexo — de violência doméstica e dentro da família. Também são incluídos os casos “externos” envolvendo crianças, adolescentes, mulheres, idosos, pessoas com deficiência, indígenas e LGBTQIA+. No ano passado, as redes de saúde pública e privada fizeram 22.506 atendimentos a pessoas desse grupo, um aumento de 325% em relação a 2015.
Outros atendimentos de vítimas de violência, como brigas de torcedores e em bares, são inseridos em um sistema diferente. Ou seja, o número de assistências a feridos em casos violentos é ainda maior do que o apresentado no novo painel.
Os dados divulgados mostram que, entre 2015 e 2025, foram atendidas na cidade mais de 116 mil mulheres em hospitais e clínicas particulares e do governo. Dessas, 40% precisaram recorrer a unidades de saúde para buscar ajuda em mais de uma ocasião. A manicure Laila Monteiro, de 34 anos, tem dois filhos e conta que, por dez anos, sofreu violência física. Laila diz que só conseguiu romper esse ciclo de agressividade quando o filho mais novo a viu sendo espancada pelo pai:
— Já cheguei a perder a consciência, mas nem sempre eu procurava atendimento, por vergonha mesmo. Já cheguei ao trabalho com olho roxo dizendo que bati na parede. Mas precisei ir ao hospital quando ele me chutou, eu caí e abri minha boca. Outra vez foi quando ele deu um chute em uma queimadura recente no meu braço, que inflamou após a agressão.
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Quatro anos depois da separação, Laila começou outro relacionamento e também sofreu violência — dessa vez, psicológica e financeira. O novo namorado repetia que ela era culpada das agressões que tinha sofrido no casamento. E, segundo ela, passou a controlar o dinheiro que ganhava.
— Eu tinha uma rede maior de apoio, porém, mais uma vez, tive vergonha. Fiquei dois anos e meio com ele. Achava que falariam que o problema de terminar mais um relacionamento era meu. Eu imaginava que diriam assim: “Caramba, separou, entrou em outro relacionamento e terminou de novo? O problema é ela” — contou.
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Do total dos atendimentos a mulheres vítimas de violência, os dados compilados pela SMS apontam que 85 mil foram vítimas de agressões físicas, 25,5 mil de violência psicológica ou moral e quase dois mil sofreram opressão financeira. O manual do Sinan define esta última como aquela que implica dano, perda e subtração de valores.
Uma médica, que prefere não se identificar, foi vítima dos três tipos de violência. A gota d’água, detalha ela, foi quando o marido estava numa crise de ciúmes e lhe deu um soco enquanto ele segurava o filho no colo. Naquela noite, ela procurou a delegacia e voltou para casa após registrar o crime. De madrugada, ele voltou ao apartamento e tentou entrar no quarto, mas estava trancado.
— Ele gritava: “Com quem você está aí dentro?” A única coisa que pensei na hora foi: “Não tenho nada para cortar a rede de proteção para pular da varanda se ele conseguir entrar” — relembra ela.
Segundo a médica, o marido ainda roubava seu dinheiro botava a culpa na funcionária doméstica. Após o registro na delegacia, ele fugiu do país.
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Ela e Laila compartilham uma história de violência comum entre as vítimas: 40% dos suspeitos das agressões são cônjuges ou ex-companheiros, de acordo com os dados do Rio enviados ao Sinan. A médica conta ainda que, inconscientemente, escondia os episódios de violência por vergonha, mas agora vê a importância de as mulheres buscarem ajuda.
A coordenadora do Núcleo de Prevenção das Violências da SMS, Simone Pires, explica que os profissionais de saúde são treinados e orientados a notificar até casos que são suspeitos, mas em que a vítima não confirma a agressão:
— Sempre atendemos vítimas de violência, mas estão surgindo mais casos com crueldade e barbárie.
Professor da Universidade Estadual do Rio (Uerj) e do Laboratório de Análise da Violência, Doriam Borges ressalta que os dados sozinhos não traduzem o aumento da violência porque houve uma melhora no sistema de notificação nos últimos anos. Ele ressalta, no entanto, a importância de usá-los para criar políticas públicas.
Procurada, a Secretaria de Segurança informou que as forças de segurança “atuam de forma permanente no enfrentamento a todos os tipos de violência”.

