A descoberta está na série de reportagem de Joanna de Assis, no UOL, sobre as licenças falsas de treinador comercializadas, segundo a investigação, pelo ex-jogador argentino Alejandro Mancuso. Por cerca de R$ 100 mil, a oferta incluía quatro certificações, até a categoria PRO, entregues em poucos dias, sem cumprir a formação regular. A ATFA, entidade argentina em cujo nome os documentos eram apresentados, negou vínculo com Mancuso e declarou falsa a documentação. Ele negou vender licenças. Alex, que já havia concluído os cursos da CBF Academy, reconheceu o erro de buscar facilidade e afirmou nunca ter utilizado o documento argentino.
Facilidade é uma palavra agradável, dessas que melhoram qualquer anúncio. Compramos facilidade quando pagamos uma entrega, contratamos alguém para resolver uma mudança ou procuramos um voo sem conexão. Mancuso acrescentava à oferta uma justificativa especialmente atraente para o público: os grandes jogadores, depois de uma vida no futebol, mereceriam reconhecimento pelo que já sabiam . O currículo que ajudava a vender a proposta também serviria para dispensar etapas. Era um serviço bastante personalizado, inclusive na interpretação do mérito.
Pode haver uma discussão legítima sobre aproveitar a experiência de um atleta na formação de treinador. Seria razoável avaliar conhecimentos, reconhecer competências, evitar que alguém repetisse conteúdos que domina. Também é perfeitamente possível questionar preços, exigências e a qualidade de um curso. A conversa encontra um obstáculo quando surge um histórico escolar registrando o que não aconteceu. Num dos áudios obtidos pela reportagem, Mancuso orienta o comprador a declarar três anos de estudos online. Uma avaliação de conhecimentos pode reconhecer o que alguém aprendeu. Para reconhecer anos que a pessoa não cursou, já é necessário outro tipo de criatividade.
Na repercussão, apareceu o argumento de que seria exagerado se indignar tanto. Afinal, com todos os treinadores com quem esses jogadores trabalharam, precisariam mesmo pagar por um curso? A pergunta parece elogiosa, mas carrega uma concepção curiosa sobre a profissão. Conviver com excelentes professores ajuda bastante; ainda assim, continua existindo alguma distância entre assistir às aulas e dirigir a escola. Um grande jogador pode se tornar um grande treinador. Pode também descobrir que ensinar, organizar uma equipe e administrar o desempenho dos outros exige habilidades que a própria carreira não o obrigou a desenvolver.
Há, sobretudo, um candidato a treinador que desaparece dessa conversa: o sujeito sem carreira célebre, sem contatos e sem alguém do outro lado do telefone chamando-o de craque. Ele precisa encontrar tempo, dinheiro e disposição para cumprir o percurso. Quando um famoso recebe uma oferta para escapar das etapas, a exceção costuma vir embrulhada numa homenagem à sua trajetória. Para quem permanece na fila, sobra o consolo de saber que as exigências continuam muito importantes. O mérito tem dessas delicadezas: às vezes serve para justificar a competição. Em outras, para poupar alguns competidores do trabalho de participar dela.
Foi nesse esforço de relativização que apareceram os conhecidos de Daniel Vorcaro, o banqueiro que comandava o Banco Master e se tornou alvo de investigações sobre um esquema bilionário de fraudes financeiras.
O raciocínio era que muita gente poderia conviver com o banqueiro sem conhecer as atividades investigadas, assim como jogadores poderiam confiar em Mancuso sem saber da falsificação. A comparação tem um ponto correto, que convém preservar: relações pessoais não demonstram cumplicidade. Uma fotografia, um jantar ou uma conversa não permitem distribuir responsabilidade pelo que outra pessoa fez. Seria uma maneira bastante preguiçosa de investigar qualquer coisa.
Mas o argumento precisa acompanhar a história até a parte em que aparece o negócio. Conhecer Mancuso é uma situação. Comprar dele uma certificação envolve perguntas sobre o que foi oferecido e sobre o que o documento deveria comprovar. Ninguém tem a obrigação de adivinhar um esquema escondido na vida de um conhecido. Quem recebe uma proposta de vantagem, porém, pode ser chamado a explicar por que a considerou legítima. O mesmo critério vale para qualquer personagem em torno de Vorcaro: proximidade, sozinha, diz pouco. Atos, benefícios e informações disponíveis precisam ser examinados individualmente.
No caso dos jogadores, os relatos são diferentes e merecem ser tratados assim. Há quem diga ter acreditado numa homologação da própria experiência, quem afirme ter esperado aulas e quem reconheça que procurou facilidade. Saber que o documento era falsificado é uma questão específica, que não pode ser resolvida no grito. Ainda assim, a condição de vítima descreve o que fizeram contra alguém. Ela não oferece, por conta própria, uma avaliação completa de tudo o que essa pessoa fez. É possível ter sido enganado numa parte da história e precisar responder por uma escolha em outra.
O aspecto mais revelador da reportagem é a circulação da confiança. Segundo Joanna, fotos de jogadores com os certificados ajudavam Mancuso a convencer novos clientes. Um nome conhecido dava conforto ao seguinte, que por sua vez acrescentava o próprio prestígio à oferta. Para quem chegava depois, tantas pessoas importantes pareciam uma checagem já realizada. Forma-se uma fila muito particular: todo mundo imagina que alguém, lá na frente, fez a pergunta necessária. O diploma podia ser falso. A reputação emprestada para vendê-lo era real.
Essa é uma fragilidade que vai além do futebol, sem exigir a conclusão preguiçosa de que todo brasileiro quer levar vantagem. Há situações em que somos rigorosos com qualquer explicação. Em outras, um conhecido respeitável nos oferece exatamente o que desejamos e nossa curiosidade diminui consideravelmente. O risco aumenta quando a proposta permite preservar uma boa imagem de nós mesmos. Afinal, estamos apenas recebendo o reconhecimento de uma carreira, usando um contato, evitando uma burocracia. Quanto mais confortável a explicação, menos vontade dá de conferir suas letras pequenas.
Alex reconheceu que errou. A admissão permite uma conversa mais adulta do que a defesa segundo a qual seria hipocrisia cobrar alguma coisa dos envolvidos. É possível respeitar uma carreira, reconhecer um golpe e perguntar pela vantagem pretendida, tudo no mesmo parágrafo. O constrangimento de responder não deveria ser confundido com uma injustiça. Há bastante gente estudando, pagando e cumprindo as etapas sem receber homenagem por isso. Pelo menos na discussão pública, seria bom que a inocência também não viesse com dispensa de exame.
'Que jogo é esse': Diplomas falsos, amigos de Vorcaro e a vantagem de não perguntar
