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novembro 7, 2026
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Que Jogo É Esse: Mas só o Brasileiro?

Por · novembro 7, 2026
Jardim reclama de gramado do Maracanã ao analisar classificação sofrida do Flamengo: 'Não foi um jogo bonito'


Às 21h31 de quarta-feira, num grupo de WhatsApp de que faço parte, um rubro-negro pediu a prisão de Leonardo Jardim. “Que time irritante… Leonardo Jardim tem que ser preso”, escreveu, ao fim da fácil vitória por 3 a 1 sobre o Grêmio, no Maracanã. Um minuto depois, foi preciso um tricolor sair em defesa do treinador. “Que time irritante: líder do Brasileiro com 6 pontos a mais que o vice-líder.” A ponderação mereceu uma resposta às 21h33. “Tecnicamente são só 3 pontos”, rebateu o torcedor do Flamengo. O Palmeiras ainda precisava enfrentar o Remo na noite seguinte, mas nosso amigo, que conhece o Palmeiras e aparentemente conhece o Remo ainda melhor, já tinha feito o favor de atualizar a classificação.
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Fiquei pensando naquele “só”, que anda cumprindo jornada dupla nas conversas sobre o Flamengo. São “só” três pontos de vantagem porque o Palmeiras é um inferno, ainda tem o confronto direto em São Paulo e ninguém que acompanhe esse campeonato com alguma atenção se atreveria a dá-lo por encerrado. Ao mesmo tempo, já se discute o que será de Leonardo Jardim se o Flamengo ganhar “só” o Brasileiro. Gosto de imaginar os dois tipos de rubro-negros dos tempos atuais se encontrando, o que teme perder o campeonato e o que acha pouco ganhá-lo. Só que, na maioria das vezes, eles moram na mesma casa, usam o mesmo telefone e têm, ambos, certa dificuldade com as substituições de Leonardo Jardim. Os dois tipos de torcedor do Flamengo, muitas vezes, convivem em harmonia no mesmo coração vermelho e preto.
Houve um tempo em que a arrogância rubro-negra, uma instituição carioca pela qual tenho genuíno apreço, incomodava sobretudo os outros. O sujeito anunciava que o Flamengo ia ganhar tudo, pedia outra cerveja e se divertia com a indignação do vascaíno da mesa, que conhecia a folha salarial dos dois times, sabia quantos meses da do Flamengo estava em atraso e, mesmo assim, caía na conversa. Para o rubro-negro, quanto pior fosse o time, maior o mérito de sustentar a tese até a saideira. Pois aconteceu uma coisa extraordinária com aquele sujeito. O Flamengo pôs as contas em dia, contratou alguns dos melhores jogadores do continente e passou anos trazendo para casa boa parte das taças que ele havia distribuído de boca pelo Rio de Janeiro. Hoje é perfeitamente razoável dizer, em janeiro, que o Flamengo pode ganhar tudo. Desconfio que era mais divertido quando a previsão era um absurdo.
Até porque, de uns tempos para cá, é o presidente do clube quem se encarrega da antiga prosa de botequim. Quando Bap disse que o Flamengo queria ser o Real Madrid das Américas, falava de um contrato de patrocínio e tinha em mente, como explicaria depois, a independência econômica do clube espanhol. Convém dar um desconto ao torcedor que, ao ouvir “Real Madrid”, pensou primeiro na Liga dos Campeões. Também foi um presidente do Flamengo, embora de outra gestão, quem olhou para o trabalho de Dorival Júnior, campeão da Copa do Brasil e da Libertadores de 2022, e achou que talvez desse para melhorar aquilo ali com Vítor Pereira. Seria uma injustiça debitar à arquibancada toda a impaciência de um clube que já fez, de terno e com poder de assinatura, coisas que fariam sucesso no nosso grupo de WhatsApp.
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E Jardim há de convir que o rubro-negro tem lá suas razões. Na semifinal da Libertadores, depois de um 0 a 0 na Argentina, o Flamengo teve quase todo o segundo tempo no Maracanã, com um jogador a mais, para fazer um gol no Estudiantes. Quem comprou ingresso viu o time trocar passes diante de dez argentinos, criar pouco e perder a vaga nos pênaltis. É até uma forma de respeito por aquele elenco achar que ele podia ter jogado mais. A parte curiosa começa quando o gol que faltou contra o Estudiantes entra na conta do campeonato que o Flamengo está disputando com o Palmeiras. Na terça-feira, com o time na liderança, a direção precisou divulgar uma nota para negar que estivesse à procura de outro técnico. Jardim, aliás, já ganhou o Carioca. Na contabilidade do “só o Brasileiro”, o estadual foi baixado do estoque sem que ninguém desse por falta.
Imagino que seja essa a parte mais difícil de treinar o Flamengo hoje. Toda vez que Jardim entra no Maracanã, entra junto um Flamengo que a torcida foi montando ao longo desses anos, com o futebol mais bonito de uma temporada, a virada contra o River em três minutos, aquela Libertadores invicto, as duas taças que um treinador levantou, o clássico que outro ganhou de goleada. O torcedor viu tudo aquilo acontecer, muitas vezes da mesma cadeira, e tem o direito de achar que conhece as possibilidades da casa. Para o treinador é que a comparação fica um pouco ingrata. Na quarta-feira, o time dele fez três gols no Grêmio antes do intervalo. O outro Flamengo, aquele que cada um levou consigo ao estádio, teria voltado para fazer o quarto. É uma bela vantagem poder escalar para o segundo tempo a lembrança dos melhores domingos e quartas da sua vida.
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Na quinta-feira, o Palmeiras fez 6 a 1 no Remo e a CBF enfim se dignou a publicar a tabela que já tínhamos no grupo desde a véspera. Faltam quatro rodadas, três pontos separam os dois times e ainda tem aquele jogo em São Paulo. Se o Flamengo for campeão, espero que o meu amigo guarde a conversa de quarta-feira. Quando alguém lhe disser que, no fim das contas, o time do Jardim ganhou só o Brasileiro, ele tem como provar que houve uma noite, a menos de um mês do fim do campeonato, em que nem com seis pontos de vantagem o rubro-negro conseguia sossegar.
Uma taça vai ser capaz? Desconfio que não.

Que Jogo É Esse: Mas só o Brasileiro?