O convidado de honra era o presidente Donald Trump, que revelou um “Plano de Ação para IA”, redigido em parte por Sacks, um veterano capitalista de risco. Em um discurso de quase uma hora, Trump declarou que a IA era “uma das revoluções tecnológicas mais importantes da história do mundo”. Em seguida, pegou sua caneta e assinou ordens executivas para acelerar o desenvolvimento da indústria.
Quase todos na plateia influente — que incluía os CEOs das fabricantes de chips Nvidia e AMD, além de amigos, colegas e parceiros de negócios de Sacks — estavam prontos para lucrar com as diretrizes de Trump.
Entre os beneficiados estava o próprio Sacks.
Desde janeiro, Sacks, de 53 anos, ocupa um dos cargos paralelos mais vantajosos no governo federal, influenciando políticas para o Vale do Silício em Washington enquanto, simultaneamente, atua no Vale do Silício como investidor. Entre suas ações como czar de inteligência artificial e criptomoedas da Casa Branca:
— Sacks ofereceu um acesso extraordinário à Casa Branca para seus colegas da indústria de tecnologia e pressionou pela eliminação de obstáculos governamentais enfrentados por empresas de IA. Isso posicionou gigantes como a Nvidia para colher um aumento estimado de até US$ 200 bilhões em novas vendas.
— Sacks recomendou políticas de IA que às vezes contrariaram recomendações de segurança nacional, alarmando alguns de seus colegas na Casa Branca e levantando questionamentos sobre suas prioridades.
— Sacks se colocou em posição de se beneficiar pessoalmente. Ele possui 708 investimentos em tecnologia, incluindo ao menos 449 participações em empresas com vínculos com inteligência artificial que poderiam ser beneficiadas direta ou indiretamente por suas políticas, segundo uma análise do New York Times baseada em suas declarações financeiras.
— Seus registros públicos classificam 438 de seus investimentos em tecnologia como empresas de software ou hardware, embora muitas delas se promovam como empresas de IA, ofereçam serviços de IA ou tenham IA no próprio nome, constatou o Times.
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— Sacks elevou a visibilidade de seu podcast semanal, “All-In”, por meio de seu papel no governo e expandiu seus negócios.
Nenhum evento ilustra melhor as complexidades éticas de Sacks — e como seus interesses entrelaçados se alinharam — do que a cúpula de IA de julho. Inicialmente, Sacks planejou que o fórum fosse hospedado pelo “All-In”, que ele apresenta ao lado de outros investidores de tecnologia.
O “All-In” pediu que possíveis patrocinadores pagassem US$ 1 milhão cada para ter acesso a uma recepção privada e outros eventos da cúpula “reunindo o presidente Donald Trump e importantes inovadores de IA”, de acordo com uma proposta vista pelo Times.
O plano preocupou tanto alguns funcionários que Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca, interveio para impedir que o “All-In” atuasse como anfitrião exclusivo do fórum, disseram duas pessoas com conhecimento do episódio.
Steve Bannon, ex-assessor de Trump e crítico de bilionários do Vale do Silício, afirmou que Sacks era um exemplo clássico de conflitos éticos em uma administração na qual “os tech bros estão fora de controle”.
“Eles estão levando a Casa Branca pelo caminho da perdição com essa oligarquia tecnocrática ascendente”, disse ele.
Sacks pôde servir no governo enquanto atuava no setor privado porque é considerado um “funcionário especial do governo”, título que a Casa Branca normalmente concede a especialistas que prestam consultoria temporária ao governo. Ele não é remunerado por seu trabalho na administração.
Em março, Sacks recebeu duas dispensas éticas da Casa Branca, que afirmavam que ele estava vendendo ou havia vendido a maior parte de seus ativos de criptomoedas e IA. Seus investimentos restantes, segundo as dispensas, “não eram substanciais o suficiente” para influenciar seu trabalho no governo.
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Mas Sacks se destaca como funcionário especial devido ao grande número de investimentos em empresas de tecnologia, que podem se beneficiar das políticas que ele influencia. Seus registros éticos públicos, baseados em informações autodeclaradas, não revelam o valor de suas participações restantes em empresas de criptomoedas e IA.
Eles também omitem quando ele vendeu ativos que afirmou ter se desfeito, tornando difícil determinar se seu serviço ao governo lhe rendeu lucro.
Uma porta-voz da Casa Branca, Liz Huston, disse que Sacks tratou de potenciais conflitos. Seus conhecimentos eram “um recurso inestimável para a agenda do presidente Trump de consolidar a dominância tecnológica americana”, afirmou.
Jessica Hoffman, porta-voz de Sacks, disse que “essa narrativa de conflito de interesse é falsa”. Sacks cumpriu as regras de funcionário especial e o Escritório de Ética Governamental determinou que ele deveria vender investimentos em certos tipos de empresas de IA, mas não em outras, afirmou. Seu papel no governo lhe trouxe prejuízo, não benefício, acrescentou.
Em um jantar da Casa Branca para executivos de tecnologia em setembro, Sacks disse estar grato por trabalhar tanto na tecnologia quanto no governo. Foi “uma grande honra ter um pé em cada um desses mundos”, afirmou.
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O caminho de Sacks até a Casa Branca começou no Vale do Silício.
Ele chegou ao coração da tecnologia em 1990, como estudante de graduação na Universidade Stanford, onde conheceu colegas como Peter Thiel. Mais tarde, Sacks juntou-se a Thiel em uma startup que se tornaria a empresa de pagamentos eletrônicos PayPal, ao lado de Elon Musk.
Depois que o eBay comprou o PayPal por US$ 1,5 bilhão em 2002, os três passaram a investir uns nos outros. Sacks ajudou a financiar a empresa de foguetes de Musk, a SpaceX, assim como a Palantir, a firma de análise de dados cofundada por Thiel. Em troca, Thiel financiou a Yammer, a startup de comunicação corporativa de Sacks, que foi vendida à Microsoft em 2012 por US$ 1,2 bilhão.
Em 2017, Sacks criou a Craft Ventures, uma firma que investiu em centenas de startups, incluindo algumas pertencentes a seus amigos. Três anos depois, ele também lançou o podcast “All-In” com os amigos e investidores Jason Calacanis, Chamath Palihapitiya e David Friedberg.
Sacks tornou-se uma figura importante na política republicana em 2022, quando doou US$ 1 milhão a um super PAC que apoiava a candidatura ao Senado de JD Vance, um ex-investidor de tecnologia que trabalhou para Thiel.
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No ano passado, Sacks organizou um evento de arrecadação de fundos de US$ 12 milhões em favor de Trump em sua mansão em São Francisco. O jantar impressionou o então candidato.
“Eu adoro a casa do David”, Trump disse no “All-In” duas semanas depois. “Que casa.”
Após a eleição, a equipe de Trump pediu que Sacks integrasse o governo. Ele aceitou, desde que pudesse continuar trabalhando na Craft — e teve seu pedido atendido.
“É exatamente o que eu pedi”, disse Sacks sobre seu duplo papel, em dezembro.
Sacks abriu as portas da Casa Branca para líderes do Vale do Silício. Entre os visitantes mais proeminentes estava Jensen Huang, CEO da Nvidia.
Sacks e Huang, que não se conheciam antes de Sacks entrar para a administração, formaram um vínculo estreito na primavera, disseram três pessoas familiarizadas com os dois homens, que não estavam autorizadas a discutir suas interações.
Ambos tinham a ganhar. Huang, de 62 anos, queria autorização do governo para vender os cobiçados chips de IA da Nvidia ao redor do mundo, apesar de preocupações de segurança de que os componentes pudessem fortalecer a economia e o exército da China.
Huang argumentava que restringir as exportações dos chips da Nvidia incentivaria empresas chinesas a desenvolver alternativas mais poderosas. E espalhar a tecnologia da Nvidia ampliaria a indústria de IA, beneficiando os investimentos em IA de Sacks e de seus amigos.
Em reuniões na Casa Branca, Sacks ecoou as ideias de Huang de que a melhor forma de vencer a China seria inundar o mundo com tecnologia americana. Sacks trabalhou para eliminar restrições do período Biden à venda de chips por empresas americanas como a Nvidia a países estrangeiros.
Ele também se opôs a regras que teriam dificultado que empresas estrangeiras comprassem chips dos EUA para data centers internacionais, segundo cinco pessoas com conhecimento das discussões na Casa Branca.
Livres dessas restrições, Sacks viajou ao Oriente Médio em maio e fechou um acordo para enviar 500.000 chips americanos de IA — em sua maioria da Nvidia — para os Emirados Árabes Unidos. A grande quantidade alarmou alguns funcionários da Casa Branca, que temiam que a China, aliada dos Emirados, pudesse obter acesso à tecnologia, disseram essas pessoas.
Mas o acordo foi uma vitória para a Nvidia. Analistas estimaram que a empresa poderia lucrar até US$ 200 bilhões com as vendas dos chips.
Hoffman afirmou que Sacks formou sua visão conversando com muitas pessoas, não apenas Huang, e que “quer que todo o ecossistema tecnológico americano vença”. Nenhum de seus investimentos se beneficiou do acordo com os Emirados, disse ela.
Mylene Mangalindan, porta-voz da Nvidia, afirmou que o secretário do Comércio, Howard Lutnick, era o principal contato da empresa para vendas internacionais de chips de IA.
A Casa Branca elogiou Sacks, dizendo que ele minimizou seus conflitos financeiros de interesse.
As dispensas éticas que Sacks recebeu afirmavam que ele e a Craft Ventures haviam vendido mais de US$ 200 milhões em posições de criptomoedas, incluindo investimentos em bitcoin, e estavam se desfazendo de participações em empresas relacionadas à IA, incluindo Meta, Amazon e xAI.
Segundo a Casa Branca, Sacks havia iniciado ou concluído a venda de “mais de 99%” de suas “participações em empresas que poderiam potencialmente gerar um conflito de interesse”.
Huston, a porta-voz da Casa Branca, disse que Sacks estava “impedido de participar de quaisquer assuntos que pudessem afetar seus interesses financeiros até que pudesse se desfazer dos interesses conflitantes ou até receber uma dispensa”.
Mas as dispensas de Sacks fornecem um retrato incompleto de sua riqueza e não informam quando ele vendeu suas participações na Meta, Amazon e outras empresas.
O que está claro é que Sacks, direta ou indiretamente por meio da Craft, manteve 20 investimentos em criptomoedas e 449 investimentos relacionados à IA, segundo a análise do Times.
Desses investimentos relacionados à IA, 11 foram designados em uma das dispensas como “Interesses em IA”. Os outros 438 foram classificados como fabricantes de software ou hardware, embora promovam ofertas ou serviços de IA em seus sites.
Em um exemplo, a dispensa categorizou a Palantir como “software como serviço”, enquanto o site da empresa afirma fornecer “Automação com IA para Todas as Decisões”. Quarenta e uma dessas empresas têm “AI” no nome, como Resemble.AI e CrewAI.
Em uma das dispensas, a Casa Branca afirmou que muitas das empresas de software “não utilizam atualmente aplicações relacionadas à IA em seu negócio principal de forma significativa”, mas acrescentou que “muitas provavelmente o farão em algum momento no futuro”.
As políticas que Sacks apoiou na Casa Branca lançaram as bases para que seus investimentos prosperassem.
O Plano de Ação para IA promoveu a produção doméstica de drones autônomos e outras inovações de IA para o Pentágono. Segundo seus registros, Sacks possui participações em startups de tecnologia de defesa como Anduril, Firestorm Labs e Swarm Aero, que fabricam drones e outros produtos.
Em setembro, a Anduril anunciou um contrato de US$ 159 milhões com o Exército dos EUA para construir um novo tipo de óculos de visão noturna com IA.
Shannon Prior, porta-voz da Anduril, disse que a empresa já tinha um relacionamento com o Exército antes do Plano de Ação para IA e que recebeu o contrato porque seu fundador, Palmer Luckey, é “o melhor designer de headsets de realidade virtual do mundo”. Hoffman afirmou que foi uma “ideia óbvia” incluir o uso militar da IA no plano de políticas.
Nesta primavera (nos EUA), Sacks também apoiou um projeto de lei chamado GENIUS Act, para regulamentar stablecoins, um tipo de criptomoeda projetada para manter o preço constante de US$ 1. Sacks promoveu a legislação na CNBC e trabalhou para avançá-la no Congresso.
Depois que o projeto foi aprovado em julho, Sacks o chamou de “histórico” e “marcante” no “All-In”. A lei deve expandir significativamente o mercado de stablecoins.
Um dos investimentos em criptomoedas da Craft é a BitGo, uma empresa que trabalha com emissoras de stablecoins. A BitGo celebrou o GENIUS Act em seu site e rapidamente se beneficiou, declarando que seu serviço “se encaixa perfeitamente” nas novas diretrizes. “A espera acabou”, dizia o site.
Em setembro, a BitGo entrou com pedido de oferta pública inicial. A Craft detém 7,8% da empresa, segundo registros financeiros — participação que valeria mais de US$ 130 milhões com base na avaliação da BitGo em 2023.
A BitGo recusou comentar. Hoffman disse que a aprovação do GENIUS Act “não trouxe benefício específico algum para a BitGo”.
Em um episódio do “All-In” em março, dois dos apresentadores do podcast, Friedberg e Palihapitiya, estavam do lado de fora da Ala Leste.
Eles estavam “perambulando” pela Casa Branca, disse Palihapitiya, enquanto o programa intercalava fotos deles caminhando por salas com lambris e se juntando a Sacks no pórtico que divide as alas Leste e Oeste.
Os podcasters então entrevistaram o secretário do Tesouro, Scott Bessent, sobre política econômica. Dias depois, eles voltaram com uma entrevista de quase duas horas com Lutnick. Dois meses depois, eles entrevistaram os secretários da Agricultura e do Interior. Em setembro, o “All-In” postou um vídeo de uma visita privada ao Salão Oval com Trump.
O trabalho de Sacks no governo impulsionou a visibilidade do podcast, que é baixado cerca de 6 milhões de vezes por mês. Sua conferência anual em Los Angeles gerou cerca de US$ 21 milhões em vendas de ingressos este ano, acima dos US$ 15 milhões do ano passado, com base no preço do ingresso de US$ 7.500 e nas estimativas de público. Em junho, o podcast lançou uma tequila da marca “All-In” por US$ 1.200.
Sacks renunciou às receitas relacionadas à IA e criptomoedas, como patrocínios, mas pode participar das vendas da tequila e dos ingressos para eventos, disse Hoffman. Jon Haile, CEO do podcast, não respondeu a um pedido de comentário.
Os negócios pessoais e o trabalho político de Sacks se uniram no evento de IA em julho em Washington, que ele escolheu a “All-In” para sediar.
No discurso principal, Trump descreveu Sacks como “excelente” antes de assinar decretos para acelerar a construção de centros de dados e as exportações de sistemas de IA.
Em seguida, entregou a caneta presidencial a Sacks.

