Em março de 2022, a romancista Hannah Pittard recebeu um e-mail de seu agente que lhe deu um nó no estômago. A mensagem continha uma captura de tela de um site da indústria editorial, anunciando que o ex-marido de Pittard, Andrew Ewell, havia escrito um romance. O enredo espelhava tanto o passado conturbado deles que, a princípio, Pittard pensou que se tratasse de um livro de memórias.
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A própria Pittard já havia escrito um livro de memórias sobre o casamento e o divórcio, que usava diálogos imaginados e reconstruídos para contar como, em 2016, ela descobriu que Ewell a estava traindo com sua melhor amiga e como a dupla traição destruiu sua autoestima.
Ewell pegou alguns dos mesmos eventos e os transformou em “Set for fife”, um romance satírico narrado por um aspirante a escritor que se ressente da carreira de sucesso da esposa como escritora de ficção, luta para produzir seu próprio trabalho e tem um caso com a melhor amiga dela. Em uma reviravolta metaficcional, quando a esposa do narrador anônimo descobre que ele a está traindo, ela escreve um livro autoficcional sobre o casamento e o divórcio deles; mais tarde, o narrador escreve um romance autoficcional próprio.
Pittard sentou-se atordoada, lendo repetidamente o anúncio do livro.
— Eu simplesmente via as sobreposições da nossa vida — disse ela. — Eu estava tendo essas emoções extremamente conflitantes. Estava muito irritada, brava, mas, acima de tudo, estava curiosa.
Ela também achou a situação engraçada:
— Fiz o que faço naturalmente. Comecei a escrever sobre isso.
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O resultado é “If you love it, let it kill you”, uma obra sombriamente cômica e um tanto desequilibrada de, naturalmente, autoficção. O romance — o quinto de Pittard — não é estritamente autobiográfico (para começar, há um gato falante), mas grande parte dele é descaradamente retirado da vida dela. Logo no início, a narradora — uma romancista que, assim como Pittard, dá aulas de escrita e mora no Kentucky —, descobre que seu ex-marido escreveu uma versão nada lisonjeira dela em seu romance de estreia, e que o livro dele detalha o caso com a melhor amiga dela.
Em certo momento, a narradora de Pittard questiona a ética de explorar o próprio casamento e divórcio em busca de material.
“Ele não pediu permissão para escrever um romance sobre mim”, escreve Pittard. “Aliás, eu não pedi permissão a ele para escrever a história da nossa separação em minhas memórias. Mas a transgressão parece diferente agora que não estamos mais juntos. Essa guarda compartilhada do nosso passado me pegou de surpresa, e percebo que não estou preparada.”
A poetisa Ada Limón, amiga de Pittard, disse que não ficou surpresa por Pittard ter escolhido escrever um romance em resposta ao fato de ter sido ficcionalizada no livro de seu ex.
— Quando algo acontece com ela, mesmo que seja terrível, há uma parte do cérebro dela que diz: “Posso fazer disso uma boa história” — disse Limón. — Como escritores, somos responsáveis pela narrativa e, de repente, a narrativa escapou das mãos dela. Era como se perguntassem: quem fica com a custódia da história?”
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A história literária está repleta de casamentos tumultuados entre escritores — casais como Robert Lowell e Elizabeth Hardwick, Sylvia Plath e Ted Hughes, Zelda e F. Scott Fitzgerald, entre outros. Mas a questão de quem conta a história, e como, pode se complicar quando escritores, antes casados, recorrem ao mesmo material.
A saga do casamento e divórcio de Ewell e Pittard agora se espalhou pelas páginas de três livros (além, para quem está acompanhando, de um ensaio de 2017 de Pittard, um conto de Ewell e um artigo extremamente detalhado na revista New York sobre como o relacionamento deles se infiltrou em suas obras).
— Para mim, é um conto de advertência sobre como escritores nunca devem se casar — disse o romancista Adam Ross, editor da The Sewanee Review, que publicou o ensaio de Pittard “Cenas de um casamento”. — Existem infinitas maneiras de bagunçar as coisas, e Hannah não teve medo de registrá-las. Ela é destemida.
Pittard e Ewell, que não mantêm mais contato, agora parecem para sempre ligados por sua produção literária. E embora nenhum pareça particularmente satisfeito por ser mencionado pelo outro, eles reconhecem tacitamente que são culpados da mesma transgressão.
Ewell zomba disso indiretamente em “Set for life”, quando seu narrador, após descobrir que sua futura ex-esposa escreveu sobre seu caso, reclama que “espetar a própria esposa em um romance” equivale a “traição”. (A piada metafórica, claro, é que Ewell está fazendo exatamente isso com sua caricatura de Pittard.)
Em entrevista, Ewell disse que não havia lido o romance de Pittard e que apenas folheara o livro de memórias, “We are too many” — que, segundo ele, incluía “muitas coisas que não eram fiéis às minhas lembranças”.
Ele já havia enviado o manuscrito ao seu agente antes de saber das memórias de Pittard e imaginava seu romance não como autoficção, mas como uma paródia do gênero, disse ele.
— Eu estava mais interessado no tema da escrita e da satirização de alguns aspectos — disse ele. — Claro, eu já havia sido casado com outra escritora por um tempo e tínhamos duas trajetórias de carreira diferentes. A carreira de Hannah tinha decolado e a minha, na verdade, não na época, então esse foi um ponto de partida.
O momento do lançamento dos livros — “We are too many” saiu em 2023, “Set for life” em 2024 — pode ter dado aos leitores a impressão equivocada de que ele estava respondendo ao livro dela com o seu próprio.
— Infelizmente, o livro de memórias de Hannah foi lançado não muito antes do meu, e acho que algumas pessoas o leram nesse contexto — disse ele.
Por sua vez, Pittard estava dividida entre ler ou não o romance de Ewell.
— Gastei muita energia e tempo pensando se deveria lê-lo, mais do que provavelmente deveria — disse ela.
Ela finalmente leu apenas uma prévia gratuita na Amazon, o suficiente para se sentir “enojada” com o que considerou um retrato nada lisonjeiro dela como uma escritora comercial calculista e obcecada por sua carreira e aparência.
— Ele também me tornou muito mais bem-sucedida do que jamais fui — disse ela. — Isso doeu um pouco.
Pittard tinha acabado de publicar seu primeiro conto quando ela e Ewell se conheceram em Charlottesville, Virgínia, onde Pittard estudava escrita criativa. Eles se casaram em 2012 e acabaram conseguindo vagas de professor na Universidade de Kentucky.
No verão de 2016, eles passaram meses separados enquanto ele participava de retiros de escritores. Naquele mês de julho, uma amiga em comum em Nova York contou a Pittard que Ewell a havia traído com a amiga que os havia apresentado. Pittard o confrontou e disse que o casamento deles havia acabado.
Nos dois anos seguintes, eles permaneceram colegas no departamento de inglês. Ewell se casou com a ex-amiga de Pittard e, mais tarde, deixou a universidade e voltou para Charlottesville. Pittard e Ewell acabaram parando de se comunicar e nenhum dos dois informou ao outro que estava escrevendo sobre sua história em comum.
Quando Pittard se sentou para escrever depois de saber sobre o livro de Ewell, ela não estava planejando um romance. Então, outros personagens de sua vida começaram a povoar a narrativa, incluindo familiares e seu namorado, Jeff Clymer. Ela se viu escrevendo sobre suas ansiedades em relação ao envelhecimento e à morte, sentindo-se estagnada como uma mulher que está envelhecendo; logo veio a espinha dorsal de um romance.
Algumas pessoas a alertaram para não escrever sobre seu ex novamente, logo após suas memórias. Uma amiga sugeriu que era hora de seguir em frente. Isso deixou Pittard mais comprometida.
— Eu pensei, bem, estou apenas começando, não vou desistir — disse ela.
A escritora Maggie Smith disse que o romance “fabulosamente estranho” de Pittard parece um distanciamento de suas memórias, embora seja abertamente autobiográfico.
— Não me parece de forma alguma que esta seja uma continuação daquela história — disse Smith, que é amiga de Pittard.
Agora com 46 anos, Pittard disse que terminou com a história de seu casamento e divórcio. Seu próximo romance, um thriller literário ambientado em uma comunidade de luxo, aborda riqueza, privilégio e o mercado imobiliário.
Mas mesmo com “If you love it, let it kill you”, ela sente que superou a sobreposição entre a sua história e a de Ewell e a tornou totalmente sua.
— Esta é a minha vida e o meu material — disse ela. — Na verdade, não estou mais pensando ou escrevendo sobre ele.