Tudo começou no dia 21 de setembro de 2024, um sábado, em um jogo contra o Volta Redonda, pela quarta rodada da segunda fase da Série C do Campeonato Brasileiro. Eu estava no Remo. Senti uma dor na virilha durante o jogo e fui substituído aos 21 minutos do segundo tempo. De lá, fui fazer um exame, achando que era uma lesão normal.
Quando saiu o resultado, o médico do Remo, doutor Jean Klay, notou que tinha algo de errado e pediu para fazer um outro exame mais detalhado. Ele já suspeitava que eu estivesse com o tumor. Eu fiz esse novo exame e fui treinar normalmente, antes mesmo de sair o diagnóstico.
Minha esposa, Andressa Marinho, foi quem pegou o resultado e viu que eu estava com câncer. Ela me ligou chorando, mas não disse nada por telefone. Entrei no carro e saí do CT correndo para casa. Assim que cheguei, ela estava chorando muito e me contou. Na hora, eu também comecei a chorar. Desabei. Só pensava no pior. A gente acha que isso nunca vai acontecer com a gente. Eu nunca imaginei que fosse ter essa doença.
Quando vi que tinha um carcinoma maligno (um tipo de câncer que se desenvolve a partir de células epiteliais), eu só pensei no pior, chorava. Eu pensei em parar de jogar. Eu tenho um filho, Bruninho, de cinco anos e minha esposa estava grávida de quatro meses do nosso segundo filho, Paolo, que na época ainda não tinha nascido. Eu chorava longe deles, queria parecer forte para não mostrar que eu estava mal. Eu só em pensava coisas ruins. Depois da notícia, eu fiquei uns três dias para assimilar.
Fiquei muito mais preocupado pela minha família, não me importava em continuar jogando futebol ou algo assim. Se eu fizesse quimioterapia e radioterapia eu teria que parar de jogar, mas eu não me importava. Se fosse para ser curado, eu faria. A coisa mais importante para mim era minha saúde e minha família. Futebol ficou em segundo plano.
O que eu não entendia era que minha rotina era normal. Não tinha nada que me alertava ou que me acusava que eu tinha esse tumor, eu estava fazendo tudo normal e não sentia nada, nada me incomodava. Minha quilometragem era de 12 km, eu era um dos que mais corria no time. Eu achava que não tinha nada de errado comigo.
Com os resultados dos exames, descobrimos que eu tinha um caroço na virilha. Eu tinha linfonodos muito grandes, nos dois lados, no adutor direito e esquerdo. Quando o médico me falou, minha esposa, que é biomédica, tomou frente de tudo, procurou os especialistas para eu fazer os exames o mais rápido possível. Isso foi importante porque eu consegui detectar o tumor logo no começo ainda. Se eu enrolo ou fico esperando, pode ser que virasse uma coisa pior. O especialista falou que eu tinha que tirar e não podia esperar. Aí bateu o desespero de novo. Optamos por fazer a cirurgia logo e não precisou de quimioterapia e radioterapia.
Em nenhum momento, eu pensei em adiar o tratamento para terminar a temporada. Inclusive, quando estava para operar, já tinha um pré-contrato assinado com o Rio Branco, do Espírito Santo. Na hora, entrei em contato com o pessoal do clube, que me apoiou em fazer a cirurgia.
Não fiquei com medo de nunca mais jogar futebol. O meu medo era de não poder ver meu filho. Eu não podia perder para essa doença. Eu pensava: “tenho que me cuidar porque eu tenho um filho que eu tenho que ver crescer”. Eu pensava em estar junto com meu filho e minha esposa. Então, tudo que me falaram para fazer para ser curado, eu fiz.
Eu agradeço demais ao futebol. Tenho 39 anos, vivi muita coisa positiva. Então, se eu tivesse que parar, eu iria parar de cabeça erguida, tranquilo, com a minha missão cumprida. Joguei nos clubes que eu tinha vontade de jogar, fui campeão, tive reconhecimento. O que mais me incomodava era o fato de meu filho não poder desfrutar isso mais comigo. Ele gosta muito de me ver jogando.
Operei no dia 27 de setembro, essa data eu não esqueço nunca mais. Nesse dia, passou um filme na minha cabeça, pensei muito no pior. Foi uma cirurgia de mais de seis horas. Eu entrei na sala de cirurgia 17h e saí 0h30. Não foi uma cirurgia qualquer. Ninguém sabe o que passei, eu tomei nove pontos do lado direito e nove do lado esquerdo. Foi uma cirurgia muito delicada. Parece que não, mas foi bem delicada.
Eu fiz a cirurgia dois dias antes do jogo do acesso do Remo à Série B. Quando o time ganhou do São Bernardo em casa, eu ainda estava no hospital. O pós-operatório foi dolorido e de muito sofrimento. Eu passei uns dois meses em casa que se eu contar ninguém acredita. Com sonda e com dreno, minha esposa me ajudava com tudo. Deus em primeiro lugar e minha mulher em segundo.
A previsão era ficar seis meses longe dos gramados, mas na estreia do Rio Branco no estadual, em janeiro, eu já estava apto. Em quatro meses eu já estava voltando a jogar, e dois meses depois o Paolo, meu segundo filho, nasceu. Quando pisei em campo, não aguentei. Fui para o meu cantinho, chorei e agradeci a Deus por ter me dado a oportunidade de fazer o que eu gosto.
Se eu tivesse que parar de jogar, ia parar tranquilo, sem arrependimento nenhum. Agora, estou curtindo o momento. Hoje jogaremos contra o Inter de Limeira por uma vaga nas quartas de final da Série D. Eu me programo para parar ano que vem. Então eu estou curtindo o máximo com meu filho e minha esposa.
O câncer é uma coisa que não me assusta mais. A cada seis meses eu tenho que fazer os exames porque durante cinco anos o câncer corre risco de voltar, mas é uma coisa que não me assusta mais. Hoje eu sei que eu já tô curado, eu venci. Aproveito cada momento com minha família, com meus amigos, com as pessoas que gostam de mim como se fosse o último.
*Em depoimento ao repórter Breno Angrisani