Em um gesto que evidencia a fragilidade da base aliada e constrange o governo, o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA), recusou, após 12 dias, o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o Ministério das Comunicações. A negativa, movimento atípico na política, amplia a crise na relação com o partido em um ano decisivo para a aprovação de projetos que buscam reverter a queda na popularidade presidencial e expõe as dificuldades na construção de alianças mirando a eleição de 2026. A ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) chegou a anunciar que Pedro Lucas assumiria a pasta, na saída de uma reunião do deputado com Lula no último dia 10.
- União Brasil: Lula deve receber Alcolumbre para definir Ministério das Comunicações, e tendência é que indicado não seja da Câmara
- Decisão: Líder do União Brasil na Câmara recusa convite de Lula para assumir Ministério das Comunicações após saída de Juscelino
O União Brasil reúne alas mais próximas ao Executivo, outras alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e há ainda quem flerte com uma candidatura própria à Presidência. Essas divisões ficaram mais escancaradas agora, com o grupo oposicionista saindo vitorioso do embate interno.
“Sou líder de um partido plural, com uma bancada diversa (…) A liderança me permite dialogar com diferentes forças políticas, construir consensos e auxiliar na formação de maiorias em pautas importantes para o desenvolvimento do Brasil”, disse Fernandes, em nota, também pedindo “desculpas” a Lula.
Antes de o revés ser oficializado, auxiliares do presidente já vinham classificando como “desrespeitosa” e uma “trapalhada” a hipótese de Fernandes não ingressar no governo. Pedro Lucas substituiria Juscelino Filho, que deixou o governo após ser alvo de uma denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) por desvios em emendas. O ex-ministro nega irregularidades.
Além do racha no União Brasil, o crescimento exponencial das emendas parlamentares impositivas, ou seja, com pagamento obrigatório, contribuiu para tornar menos atrativo um cargo de ministro e diminui a margem de negociação do governo.
Parlamentares governistas, no entanto, se queixam da atuação da articulação política, liderada por Gleisi. A avaliação é que Lula ficou exposto a uma reviravolta que demonstrou a instabilidade na relação com o Parlamento. Como mostrou O GLOBO, partidos de centro que indicaram ministros reduziram o apoio ao Planalto nas votações na Câmara entre o primeiro e o segundo ano do mandato de Lula. No caso do União, o índice passou de 71% para 67%.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/B/C/jJHf0hQ3iqvE6peEt6fw/pol-2304-raiox-uniao-brasil-web2.jpg)
Auxiliares de Lula dizem que o deputado chegou a aceitar o convite em conversa com o petista no Palácio da Alvorada. Esses interlocutores acrescentam que o deputado ponderou que só poderia assumir o ministério se conseguisse fazer um sucessor do seu grupo na liderança do partido na Câmara — Pedro Lucas é da ala mais governista. Na conversa, ele teria alegado que, sem um aliado na função, não conseguiria entregar ao governo a maioria dos votos da bancada.
Na saída desta reunião no Alvorada, Gleisi confirmou que o deputado assumiria o cargo nesta semana.
— O União apresentou o nome do Pedro Lucas. O presidente aceitou e fez o convite a ele para assumir. O Pedro Lucas só pediu até depois da Páscoa para encaminhar questões pessoais, de mandato e liderança — disse a ministra na ocasião.
Antes mesmo do anúncio, Lula já havia dito, em viagem a Honduras, que conhecia o parlamentar e que o União Brasil tinha o “direito” de escolher o novo ministro.
Depois que esses posicionamentos tornaram-se públicos, no entanto, cresceu a pressão sobre o presidente do partido, Antonio Rueda por uma intervenção. Deputados oposicionistas alegavam que a escolha vincularia ainda mais o União ao governo, já que Pedro Lucas e Rueda são próximos. O líder do partido, então, divulgou uma nota dizendo que precisava ouvir seus colegas antes de tomar a decisão. Ele passou os dias seguintes dizendo a interlocutores que não havia nada definido, ao passo que os oposicionistas da legenda já davam a recusa como certa.
Um dos fiadores da indicação de Pedro Lucas e alinhado ao Planalto, o senador Davi Alcolumbre (União-AP) defendia que Juscelino Filho assumisse a liderança da bancada, o que não foi aceito pela maioria dos deputados. Rueda, e o primeiro-vice, ACM Neto, são favoráveis a uma postura mais distante do Planalto e defenderam que Pedro Lucas seguisse no mandato de deputado.
Em outro ponto de divergência, Rueda já se reuniu mais de uma vez com o ex-presidente Jair Bolsonaro e prometeu trabalhar a favor da anistia para os condenados pelo 8 de Janeiro, principal pauta da oposição. Dos 59 deputados do União, 41 assinaram o requerimento de urgência para o projeto. Do outro lado, Alcolumbre chegou a falar que o tema não é prioridade do país.
Antes de oficializar a recusa, Pedro Lucas submergiu. Ele não foi ao Congresso nem participou da reunião da bancada do União Brasil na Câmara, que foi conduzida pelo deputado Rodrigo de Castro (MG) e durou cerca de 30 minutos para debater as pautas desta semana. Ele passou a terça-feira em reuniões com Rueda e Alcolumbre buscando soluções e calculando o impacto da decisão. Recusas a convites presidenciais não são comuns, especialmente quando os anúncios são feitos publicamente. Em uma dimensão menor, quando os convites ainda estavam restritos aos bastidores, o próprio Lula lidou com contratempos do tipo em mandatos anteriores. Enquanto ainda montava a equipe de sua primeira administração, no fim de 2002, viu o economista Pedro Bodin recusar o chamado para assumir o Banco Central. O ex-ministro Nelson Jobim, por sua vez, recusou o Ministério da Defesa duas vezes antes de assumi-lo, em 2007.
Agora em seu terceiro mandato, Lula mudou a estratégia que vinha se desenhando nos dois primeiros anos da gestão e passou a vocalizar que deverá ser candidato à reeleição, em uma tentativa de aglutinar aliados e conter a deserção de partidos de centro. Aliados fazem a ressalva, no entanto, que uma candidatura competitiva depende de índices mais robustos de aprovação no mais tardar no início do ano que vem. Para isso, o Palácio do Planalto conta justamente com um caminho que passa pelo Congresso, como a aprovação do projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês.

