O Reino Unido deportou nesta quinta-feira o primeiro imigrante para a França por meio de um novo acordo que pretende conter as travessias ilegais pelo Canal da Mancha. O mecanismo, apelidado de “um por um”, prevê a devolução por Londres de imigrantes que cheguem às ilhas britânicas em barcos, em troca de um número igual de imigrantes em Paris, que não tentaram a travessia marítima.
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O homem deportado, identificado por fontes francesas como um cidadão indiano, teria cruzado a via marítima em uma pequena embarcação em agosto. Ele foi mandado de volta a França em um voo comercial na manhã desta quinta. A ministra do Interior britânica, Shabana Mahmood, classificou a medida como “um passo inicial importante”, em um momento em que o primeiro-ministro Keir Starmer tenta mostrar uma resposta firme sobre o tema da imigração.
— Se você entrar ilegalmente no Reino Unido, vamos buscar sua remoção — afirmou Shabana. — O Reino Unido sempre fará sua parte para ajudar aqueles que realmente fogem da perseguição, mas isso deve ser feito por meio de rotas seguras, legais e controladas, não por travessias perigosas.
O formato foi anunciado há dois meses, quando França e Reino Unido estabeleceram as bases para a troca de imigrantes. O governo britânico afirma que o programa tem como objetivo reduzir o número crescente de entradas de indocumentados no país — que atingiu um recorde no primeiro semestre deste ano — e impedir as travessias. Para isso, impõe a deportação como forma de dissuasão, ao passo que cria um sistema de solicitação de visto por meio de uma plataforma on-line, ao alcance dos imigrantes enviados em troca por Paris.
As travessias pelo Canal da Mancha — uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo — são perigosas para os imigrantes. Ao menos 23 pessoas morreram neste ano em incidentes, que de forma recorrente envolvem botes superlotados. Porém, os esforços para aumentar o número de deportações têm sido alvo de críticas por parte de defensores dos direitos humanos, já que a maioria das pessoas que chegam atualmente ao Reino Unido recebem asilo.
— O objetivo deste acordo é que ele não funcione — afirmou Stella Bosc, porta-voz da ONG L’Auberge des Migrants. — É apenas teatro político.
O tema migratório tem liderado a lista de preocupações dos cidadãos britânicos. Embora haja muita desinformação sobre a imigração — pesquisas indicam que eleitores superestimam o número de imigrantes sem documentação adequada no país —, preocupações com a capacidade dos serviços públicos como educação, moradia e saúde mantêm o tema no centro da agenda política, o que põe pressão sobre o governo trabalhista liderado por Starmer.
O tema é apontado como um dos propulsores da popularidade do partido anti-imigração Reform UK, que liderou as pesquisas de intenção de voto durante boa parte deste ano, e de outros grupos de extrema direita no país. Nos últimos meses, manifestantes ligados a esses grupos se reuniram em frente a hotéis que hospedam solicitantes de asilo — um deles reuniu mais de 100 mil pessoas no fim de semana.
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Starmer, que ao assumir o governo prometeu “desmantelar as quadrilhas” que realizam as travessias ilegais no Canal da Mancha, tenta equilibrar uma resposta firme ao tema, sem aderir à abordagem da extrema direita, que espera uma política de tolerância zero. Ele cancelou um programa arquitetado pelo governo conservador anterior, que previa o envio dos imigrantes para Ruanda — que foi considerado ilegal pela Suprema Corte do Reino Unido.
Ainda assim, grupos de proteção dos direitos humanos e direitos dos imigrantes que se opunham ao plano anterior, criticaram também o novo formato acordado com a França, alegando se tratar de uma resposta meramente política.
— [A] política cruel que mira pessoas que vêm aqui em busca de segurança [é uma] tentativa sombria… de apaziguar a extrema direita racista — disse Griff Ferris, do Joint Council for the Welfare of Immigrants.
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O Ministério do Interior britânico anunciou que outros voos com deportações são esperados para os próximos dias — organizações de caridade afirmam que mais de 90 imigrantes que chegaram ao Reino Unido em pequenos barcos recentemente foram detidos para envio à França. O governo francês, por sua vez, anunciou que fará seus primeiros envios para o Reino Unido a partir de sábado.
A segurança jurídica em torno da operação do novo sistema ainda é uma incógnita. Dias antes do primeira deportação ser confirmada, o Tribunal Superior de Londres bloqueou temporariamente a deportação planejada de um imigrante da Eritréia, que alegou ser vítima de tráfico humano.
A decisão enfureceu o governo britânico, que solicitou uma revisão da legislação contra a escravidão moderna e seu uso indevido, e recorreu ao Tribunal de Apelações para reduzir um prazo de 14 dias concedido pelo órgão de Londres, para que o homem apresentasse provas de sua condição.
A ministra do Interior britânico afirmou que o governo “continuará a contestar” qualquer tentativa “de última hora e infundada” de frustrar as deportações nos tribunais. (Com AFP e Bloomberg)