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outubro 10, 2026
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Renato Russo: nos 30 anos de morte, parceiros de trabalho revisitam os últimos momentos do cantor

Por · outubro 10, 2026
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Era um sábado de sol, 12 de outubro de 1996, dia de Nossa Senhora Aparecida, quando Dado Villa-Lobos se viu pela última vez diante “do parceiro, do amigo, do cara com quem fiquei por 13 anos, fazendo tudo o que a gente fez”.
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No Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, no Rio, ele, amigos, a família e centenas de fãs se despediram de Renato Russo, mentor, cantor e compositor da Legião Urbana, que morrera no dia anterior, aos 36 anos, por complicações da Aids. Este domingo completam-se 30 anos da morte de Renato, mas Dado não se esquece daquele dia.
— Quando terminou o velório, entrei no carro e fui chorando até Mangaratiba, uma viagem de 120 quilômetros. Chorei, assim, compulsivamente, uma coisa impressionante — relembra hoje, aos 61 anos de idade, o guitarrista, que seguiu sua vida, mas sem se desvencilhar da memória da Legião, aquela que jamais deixou de ser a maior banda de rock do Brasil: em agosto, no paulistano C6 Fest, ele e o baterista Marcelo Bonfá celebraram os 40 anos do álbum “Dois” e agora ele parte para a trilha da cinebiografia “O que é demais nunca é o bastante”, a ser filmada em 2027, com direção de Mauro Mendonça Filho.
Sucesso com peça
Diretor de “Renato Russo — A peça”, espetáculo musical estrelado por Bruce Gomlevsky, que desde a estreia, há 20 anos, percorreu o Brasil em mais de 600 apresentações, Mauro alimentava há tempos a ideia de fazer um filme sobre o líder da Legião Urbana.
Outras produções (como “Somos tão jovens”, de 2013, de Antonio Carlos Fontoura) passaram à frente, até que, durante a pandemia, ele conversou com Giuliano Manfredini, filho e herdeiro de Renato, com a ideia de um longa-metragem de ficção que fosse de 1987, quando o grupo lança o LP “Que país é este” e em seguida vive o show mais traumático de sua carreira (em 88, em Brasília, para 50 mil pessoas, que acabou em tumulto) até a morte do cantor.
— Eu parti do Renato Russo já fazendo sucesso e lutando com a vida dele, com os sentimentos dele. Tive acesso aos cem diários do Renato, e, com isso, você se obriga a fazer um filme subjetivo, para a gente conhecer o homem, o ser humano. Não é um filme sobre a Legião Urbana, nem sobre o sucesso — garante Mauro, de 61 anos, acrescentando que a ação se passa em um período de grande convulsão social do país, no qual o rock se torna “uma força cultural”. — Renato foi um ativista muito forte para as causas LGBT e para a luta contra a Aids, e o filme procura retratar isso de uma forma sentimental e política. Quando Madonna botou a foto dele no show do Rio (na Praia de Copacabana, em 2024), ela sabia o que estava fazendo. O rock virou uma coisa de tiozão, mas os jovens estão ouvindo muito Legião. São cinco milhões de ouvintes no Spotify (na verdade, sete milhões mensais).
A bênção de Giuliano ao projeto de Mauro Mendonça Filho (que tem produção da Tambellini Filmes e distribuição da Downtown, mas sem ator protagonista ainda definido) anima Dado Villa-Lobos, convidado para fazer a trilha mesmo depois de enfrentamentos na Justiça com o filho de Renato Russo para poder fazer os shows com Marcelo Bonfá que revisitavam o repertório da Legião (com os quais realizaram turnês nos últimos dez anos).
A possível trégua (que foi sinalizada com o anúncio da presença do herdeiro no show do C6 Fest) é vista com cautela pelo guitarrista, que, para o seu trabalho no filme, sonha em ter acesso às fitas master da Legião que estão em poder de Giuliano.
— Acho que deu uma esfriada no caldo — resume Dado, que, por enquanto, não acredita que vá fazer mais shows com Bonfá tocando as músicas da banda. — Se houver alguma proposta interessante… Mas aí vai depender de todos esses arranjos, com a banda, com os herdeiros, essa coisa toda.
O Legião Urbana no Rio em abril de 1988
U. Dettmar/Agência O GLOBO
Nos 30 anos após a morte de Renato Russo, Dado Villa-Lobos levou a vida lançando discos por sua gravadora, a RockIt! (entre os quais o recente “O que você quiser”, seu quarto álbum solo), tocando com os Paralamas do Sucesso (nos shows do “Acústico MTV”) e Capital Inicial (no último Rock in Rio), gravando trilhas sonoras para filmes e tocando Legião Urbana para estádios. No show de “Dois”, ele foi levado de volta aos 21 anos de idade, quando a Legião Urbana, que tinha conhecido um sucesso devastador com seu primeiro LP, lutava para ir em frente.
— Era a síndrome do segundo disco, o Renato me deu fitas de Paul McCartney e Cat Stevens, os caras tocando violão, porque ele já estava pensando: “Vamos mudar um pouco a sonoridade em relação ao primeiro disco, vamos pensar no lance das baladas de violão.” E aí ele fez um roteiro, com o que significava cada música, e havia uma responsabilidade muito grande de cumprir aquele roteiro. Éramos realmente jovens, jovens. Mas aí a gente chamou a galera e deu certo — diz ele, sobre esse álbum que teve sucessos como “Eduardo e Mônica” e “Tempo perdido”. — Renato sempre falava: “Cara, a gente não vai fazer disco assim de bobeira, vai fazer é disco de catálogo, entendeu? A máquina da gravadora, da indústria, vai continuar funcionando e é isso que a gente tem que fazer!”
‘Ele é tudo que eu gostaria de ser’
Executivo que levou a Legião Urbana para a EMI (gravadora onde a banda passaria toda a sua carreira), o carioca Jorge Davidson, 76, conta sempre a história de que chegou a Renato Russo quando Herbert Vianna estava gravando o primeiro disco dos Paralamas do Sucesso e apresentou a música “Química”.
— Eu perguntei: “Herbert, essa também é sua?” E ele falou: “Não, é de um amigo meu de Brasília, e ele é tudo que eu gostaria de ser” — relembra Davidson, entre as muitas memórias que reuniu em sua vida na indústria fonográfica, compiladas no livro “Em sintonia com o sucesso — A arte de revelar talentos na música brasileira” (Editora Gryphus), que ele autografa dia 20, na Livraria Argumento, no Rio.
Muitas das histórias do livro envolvem Renato, de quem ele ficou amigo (o cantor o chamava, carinhosamente, de Tio Jorge), e com quem conversava por telefone, horas a fio, mesmo depois de ter saído da EMI, em 1993.
Jorge Davidson foi um dos poucos que tiveram a oportunidade de ouvir antes do lançamento o álbum da Legião “A tempestade”, que Renato gravou já bem debilitado pela Aids e que saiu dias antes de sua morte. Nas rádios, o single “A Via Láctea”, dos versos “hoje a tristeza não é passageira/ hoje fiquei com febre a tarde inteira”, dava pistas sobre a doença, que ele jamais admitiu publicamente ter. Davidson diz ter ficado incomodado ao ouvir aquele disco com o cantor a seu lado.
— Comecei a pensar no que ia dizer, porque isso o estava deixando angustiado. E aí falei: “É, Renato, mas não está pronto isso não, né? Isso é só voz guia, né?” Ele disse: “Não, é voz definitiva. Isso agora é problema do Dado (Villa-Lobos, que produziu o disco), ele que use o Pro Tools (software de edição sonora), eu não volto mais para o estúdio, a minha parte está feita” — recorda-se, com tristeza. — Meses depois ele faleceu, e sinto falta dele até hoje. Sempre tratei Renato como um gênio, considero ele o artista brasileiro mais importante pós-MPB. Tenho até hoje um relatório do “Dois”, em que ele documenta toda a concepção do álbum, do título até a ordem das faixas. Nunca recebi isso de outro artista, em toda minha vida.
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Empresário da Legião em boa parte da carreira da banda, Rafael Borges, 74, foi uma das pessoas que estiveram mais próximas do cantor, tanto na descoberta do HIV, quanto na proximidade de sua morte. Foi Rafael quem pediu ao pai de Renato que viesse pra ficar com ele, em seu apartamento, em Ipanema, nos últimos dias e cuidava para cumprir a vontade do astro de que a notícia da doença não se espalhasse.
Ele lembra bem de como a movimentação, no dia da morte, na porta do prédio de Renato, surpreendeu o pai (que também se chamava Renato).
— Era uma coisa intensa, e ele ficava “Nossa, por que estão falando tanto do Juninho, o que é isso?” E eu disse: “Seu Renato, isso não vai parar.” O tamanho dele é esse, a obra dele continuará — conta Rafael. — Eu trabalhei com Maria Bethânia, com Cássia Eller, gigantes de palco, e Renato também tinha isso. Em 1988, nós fizemos um show em que a primeira entrada foi debaixo de uma tempestade, um show totalmente punk, em que ele até rolou na água. No segundo dia, Renato chegou como se fosse o Yves Montand, dando baforadas em um cigarro e andando calmamente no palco. Ele tinha essa coisa.

Renato Russo: nos 30 anos de morte, parceiros de trabalho revisitam os últimos momentos do cantor