Pular para o conteúdo
outubro 10, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 4,9886
News

Artigo: após primeiro turno, ressaca emocional continua sendo o pano de fundo da disputa eleitoral

Por · outubro 10, 2026
Artigo: após primeiro turno, ressaca emocional continua sendo o pano de fundo da disputa eleitoral


A polarização cansou, mas não se resolveu, porque os eleitores entenderam que ficar nessa briga infinita não muda suas vidas. A ressaca emocional continua sendo o pano de fundo, mesmo com dois campos definidos nos resultados do primeiro turno. Com o vento assoprando para a mudança, o eleitorado percebe poucos esforços de Lula para ampliar o campo fora da polarização, embora tenha teoricamente mais espaço para enunciar essa posição. Flavio Bolsonaro, por defeito (não por virtudes), fica do lado da mudança, mesmo sendo um “tiro no escuro” de acordo aos dizeres dos entrevistados.
A sociedade parece estar mais cansada com alguns elementos do PT: mais do mesmo, fórmulas já conhecidas, foco apenas nos mais necessitados, falta de comunicação de uma porta de saída para os beneficiários de planos sociais. Há certa disputa de sentido sobre quanto o Estado deve nos abraçar ou ajudar e quanto as pessoas devem elas mesmas lutar pelos seus ganhos, uma crítica a um modelo mais paternalista de proteção. Neste segundo turno, será relevante quem consiga tocar a fibra do desejo de um capitalismo empreendedor que atravessa o eleitorado.
Trata-se de uma aspiração de um coletivo urbano que já foi identificado pelo Plaza Pública em junho do ano passado e publicado neste mesmo jornal: querem escutar falar de futuro, empreender, ganhar dinheiro, saber como o Estado pode simplificar a vida para abrir uma MEI, cobrar menos impostos.
São eleitores “sanduíche”: estão um degrau acima de planos sociais como Bolsa Família, mas não conseguem sustentar um projeto de crescimento autônomo para seus empreendimentos. Nesse entremeio, macera uma frustração e desencanto. Têm o bolso de classe média baixa e aspirações de classe média/media alta.
Empreender não significa o mesmo para todos, esse coletivo possui nuances e texturas diferentes. Um novo signo se revela nas pesquisas recentes do Plaza Pública: quem mora nas periferias de grandes cidades aprendeu que a ilusão do empreendedorismo de subsistência (trabalhar em um aplicativo ou revender catálogo de perfumes) é como um cobertor curto: ajuda a pagar as contas e corre do dia a dia, mas não garante o sonho de ganhar dinheiro para poupar e fazer uma diferença. Se debilita essa fantasia e o incumbente paga mais o preço dessa frustração.
Se falamos de polarização afetiva, as pesquisas qualitativa do Plaza pós-primeiro turno com jovens adultos das periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte mostram uma tensão silenciosa em muitos lares, diálogos na mesa, no carro, vendo TV.
Entre mulheres que votaram no Lula e parceiros que votaram em Flávio Bolsonaro, a conversa acontece em duas direções: esposas/parceiras tentando convencer os maridos/parceiros de não votar em Flávio e mulheres resistindo aos embates com os maridos para não votar em Flávio.
“Meu marido não aguenta mais o PT e Lula, ficou irritado com não ir no debate…”, disse uma eleitora. “Minha filha fala: pai, você é negro, pelo amor de Deus, não pode votar no Flávio, a direita é preconceituosa… mas isso não cola”, respondeu outro.
Se há fricções, existem soluções de compromisso, formas de resolvê-las. Quem conseguir dialogar com elas vai somar votos no segundo turno. Há temas que aproximam, e outros que distanciam.
“Ele tem outra filha de outro casamento que estuda na UFRJ: falei, tua filha está desesperada em cortar verbas da faculdade da UFRJ. Levo a discussão para coisas reais”, sinalizou uma eleitora entrevistada. Enunciar essa conversa pode ter efeitos positivos. Porque faz parte da vida real (“voltando da votação meu marido me perguntou se estava preocupada com os resultados” / “quando saíram os resultados, ele me provocava, [perguntava] se estava triste porque meu candidato tinha perdido). Há uma oportunidade de propor um diálogo sem agressão, chamar para a conversa.
* Eduardo Sincofsky faz pesquisas qualitativas há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica e autor do livro “A polarização no Diva”.
Initial plugin text

Artigo: após primeiro turno, ressaca emocional continua sendo o pano de fundo da disputa eleitoral