Enormes livros no palco do Teatro Carlos Gomes foram o cenário do show de abertura do Rio como Capital Mundial do Livro. Por um ano a cidade ficará com a “tocha literária” que recebeu da cidade francesa de Estrasburgo, com o compromisso de promover a leitura, a literatura, o livro. O primeiro ato foi um vibrante espetáculo musical que misturou várias formas de literatura, dos clássicos ao slam, e no qual autores como Machado de Assis, Olavo Bilac e Ruy Barbosa falaram diretamente das páginas.
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Até abril do ano que vem, o Rio será a capital do livro. No meu programa, na Globonews, entrevistei o secretário de Educação do Rio, Renan Ferreirinha, e o dono da Livraria da Travessa, Rui Campos, que completa, em 2025, 50 anos como livreiro. Como manter abertas as livrarias? Como estimular novos leitores de livro num mundo de aparelhos eletrônicos e redes sociais?
Rui Campos diz que a melhor notícia de todas é a grande paixão de jovens pelo livro. O setor de livros juvenis é o que mais cresce no mundo todo. Isso fica visível na Bienal. Segundo Renan, a Bienal é o quarto maior evento da cidade — depois do réveillon, carnaval e Rock in Rio — e este ano terá parte da programação dedicada ao Rio como Capital Mundial do Livro.
Renan conta que nas 1.557 escolas para crianças, jovens e adultos na rede municipal serão reforçados este ano as rodas e os círculos de leitura que são disciplinas obrigatórias na matriz curricular.
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—Muitas vezes a primeira vivência de uma criança com o livro se dá no ambiente escolar. É muito importante que essa vivência seja a melhor possível, porque o livro é o mínimo denominador comum de todas as artes, a porta de entrada das descobertas, a janela de diversas viagens — diz o secretário.
Perguntei a Rui se ele temia o fim das livrarias físicas.
— Sim, mas é impressionante como isso se reverteu. No início do livro eletrônico parecia que se seguiria uma tendência de abandono do livro físico. Hoje, o mercado de livro eletrônico, tanto no Brasil quando na Europa é de 6% a 7% do total de livros vendidos. Ou seja, 94% do mercado são do livro físico. Isso foi surpreendente e maravilhoso. Houve uma manifestação da sociedade na direção do livro, da paixão pelo livro objeto. E onde você o encontra? Na livraria. Essa é a minha vida, essa é a minha aposta.
Renan, autor da lei que proíbe celulares nas escolas, diz que no Rio, onde a lei está em vigor desde 2023, há impactos já quantificáveis:
— Temos resultados muito expressivos na aprendizagem. Comparando as escolas com proibição de celular com as outras, houve uma melhora, de 53% na prova de matemática do nono ano. Houve queda do bullying e cyberbullying. Temos observado um impacto na leitura e na abertura de clubes do livro dentro das escolas.
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Rui Campos é defensor da Lei Cortez que impõe um preço único para o livro. O projeto, que está no Senado, é polêmico, até porque livro é caro no Brasil. Ele sustenta que o livro precisa de políticas públicas.
— Em vários países, como França, Espanha, Alemanha, Itália, Portugal, Argentina, Japão existem políticas de preço do livro. Não é tabelamento, é o preço estabelecido pelo editor. A lei faz com que os varejistas cumpram, por um prazo, esse acordo de preços. Qualquer produto que você comprar na Amazon, tem o mesmo preço que o da loja. Mas o do livro é bem mais baixo. É uma estratégia da Amazon para atrair um público de altíssima qualidade, formador de opinião, mas pode ser um desastre para o sistema bibliodiverso que se quer. É uma política predatória. Uma pessoa que tem uma livraria perto de casa corre o sério risco de se tornar um leitor. Tudo começa na livraria. Grandes redes fecharam, mas muitas pequenas livrarias estão abrindo no Brasil. Elas perguntam: como vamos resistir? É preciso haver uma política de defesa das livrarias.
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Renan esclareceu que o sistema educacional do Rio não é contra os eletrônicos e a tecnologia, tanto que a melhor experiência são os GETs, Ginásios Educacionais Tecnológicos. Segundo o secretário, o Rio tem observado políticas públicas no mundo que conciliam a digitalização com a manutenção do livro físico no ambiente escolar.
No palco do teatro, velhas e novas tecnologias pareciam harmoniosas. Machado falava das páginas de um livro graças à inteligência artificial, e Gregório Duvivier batia em uma máquina de escrever fazendo a percussão de um conjunto de música de câmara. A poesia declamada por Elisa Lucinda se fundia às rimas do slam.

