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saiba como o crime organizado vem tomando conta do serviço de internet

BRCOM by BRCOM
março 23, 2025
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Os criminosos puseram fogo na loja da Giga+, um dos maiores provedores de internet do Ceará — Foto: Reprodução

‘Estamos na esquina do Atlântico”. O slogan do Complexo Industrial e Portuário Pecém, a 60 quilômetros de Fortaleza, resume sua localização estratégica: é o mais próximo de EUA, Europa e Norte da África. Atuam ali mais de 80 empresas de setores como energia, siderurgia e cimento, que movimentam a economia do Ceará. No dia 27 de fevereiro, ataques a provedores de internet levaram a falhas na conexão do complexo.

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O porto não parou, mas companhias atendidas por provedores atacados por criminosos precisaram adaptar a operação. Uma multinacional norueguesa, das maiores operadoras de terminais portuários do mundo, passou a trabalhar em regime de contingência. As cargas para exportação foram direcionadas aos navios com preenchimento manual de dados. “Enquanto aguardamos o restabelecimento do sistema, algumas operações precisarão ser realizadas de forma manual”, explicou a empresa em comunicado ao qual O GLOBO teve acesso.

Para intimidar, integrantes da facção criminosa fluminense Comando Vermelho (CV) no Ceará quebram caixas de transmissão instaladas nos postes, danificam a infraestrutura de cabos, ameaçam funcionários dos provedores, queimam carros e lojas. E cobram “taxas” das empresas para que elas possam operar em determinadas áreas.

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O serviço de internet por fibra óptica entrou na mira do crime organizado, que exige pagamentos (muitas vezes por cada cliente) de pequenos provedores para não atacar as redes, principalmente em pequenas cidades, numa espécie de “cibercangaço”.

Ações recentes do grupo levaram a Polícia Civil do Ceará a fazer uma operação, na semana passada, para tentar prender envolvidos. Mas o modelo já foi exportado para outros estados, ainda que em menor escala.

A escalada de violência prejudica não só negócios de telecomunicações, mas todos os instalados nas áreas afetadas com a falta de conexão regular à internet. O GLOBO ouviu provedores de várias cidades e associações do setor — boa parte sob a condição de anonimato, por medo de represálias — sobre como a onda de violência aflige provedores.

Os criminosos puseram fogo na loja da Giga+, um dos maiores provedores de internet do Ceará — Foto: Reprodução

Não há um balanço consolidado do impacto financeiro para as empresas do setor nas regiões afetadas, mas a Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint) mapeou os prejuízos das últimas semanas no Ceará. Em alguns bairros cujas redes foram afetadas, provedores registram perdas na ordem de R$ 200 mil, o equivalente ao total investido naquela área nos últimos anos. Há empresas reduzindo em até 80% o quadro de funcionários.

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— É um sofrimento grande para as empresas, pelos impactos financeiros, perda de clientes e de receita. É também questão de segurança de dados. A facção pode interceptar informações sensíveis do usuário e usar para outros tipos de crimes — diz Basílio Perez, conselheiro da Abrint.

Em Caridade, no interior do Ceará, cerca de 90% dos 16 mil habitantes ficaram sem acesso à internet. Desde 5 de março, um estabelecimento comercial no município só aceita Pix e dinheiro. Sem wi-fi, as maquininhas de pagamento não funcionam, e os computadores não registram as vendas. A televisão não transmite mais o jogo de costume. Os clientes sequer conseguem navegar em seus celulares sem estourar o limite de dados.

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Há mais de duas semanas sem internet, o dono diz colecionar prejuízos. Ele reclamou com o provedor local, sem sucesso. A empresa chegou a consertar equipamentos quebrados, mas como não aceitou o achaque dos criminosos teve as caixas de rede quebradas de novo.

— É uma ausência total do Estado, isso arruína a reputação do país. Em especial, para as multinacionais presentes aqui. Corremos o risco de ter um narcoestado — avalia o dirigente de uma associação que representa provedores de médio porte.

Empresas de provedores de internet são atacadas por criminosos em Caucaia, no Ceará — Foto: Reprodução
Empresas de provedores de internet são atacadas por criminosos em Caucaia, no Ceará — Foto: Reprodução

Um operador regional, com mais de 10 mil clientes em três cidades do Ceará, conta que deixou 3 mil desconectados por mais de três semanas sem conseguir entrar em bairros dominados pela facção para fazer os reparos. Demitiu 20 dos 64 funcionários e passou a religar conexões só com escolta policial. Em um mês, a empresa contabiliza prejuízos além de caixas de fibra óptica rompidas e lojas atacadas: ele estima ter perdido 450 clientes para concorrentes que aceitaram pagar as taxas do crime.

— São ações terroristas. Já tivemos funcionários que vieram pedir demissão com medo de ameaças. Nosso sentimento é de impotência — afirma o sócio do negócio.

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Ao menos uma empresa fechou após ataques. “Em meros 20 minutos, atos de vandalismo devastaram tudo o que construímos”, diz nota da GPX Telecom, que operava em Caucaia, também no Ceará.

A velocidade do avanço do crime em regiões da Grande Fortaleza assusta o setor. O presidente de um provedor de internet que tem 1,5 milhão de clientes em todo o Nordeste diz que dezenas de empresas já perderam suas redes. E admite ter abandonado várias áreas em que seus carros e funcionários não podem mais entrar.

— Sem poder dar suporte, o cliente já não é mais atendido. Hoje estamos cancelando contratos sem nenhuma multa — diz. — Em três meses, aumentou mais de 20 vezes a área capturada pelo crime na Grande Fortaleza. No futuro próximo, o próprio governo vai ser obrigado a ser atendido por um provedor de facção: a escola, a UBS (unidade de saúde), a delegacia… E como ficam as empresas que possam querer se instalar na região?

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A ação criminosa alcança até regiões centrais da capital cearense. Moradores da Avenida Duque de Caxias, uma das principais de Fortaleza, foram abandonados pelas principais provedoras e só têm duas opções: contratar serviço de satélite ou a única empresa de fibra óptica que ficou.

— É estranho que só uma empresa possa funcionar — diz um morador, que decidiu contratar a conexão via satélite da Starlink após uma semana sem internet. — Liguei para a operadora que me atendia e me disseram que não tinham como restabelecer o serviço. Ainda estou tentando devolver o aparelho, mas dizem que não podem entrar onde moro.

O valor da extorsão varia de acordo com o local e o tamanho do provedor, diz Alisson Gomes, delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) do Ceará, que investiga o esquema. O achaque vem por telefone ou em abordagem a técnicos em campo. Se a empresa se recusa a pagar, tem a estrutura danificada. As quadrilhas tentam ainda se aliar a provedores e operar em conjunto, dividindo os lucros.

— Monitoramos essas empresas que, eventualmente, possam estar se aliando ao crime. Queremos separar o joio do trigo — diz Gomes, acrescentando que desde o início dos ataques foram presos 27 suspeitos. — Estão tentando a hegemonia desse mercado em alguns pontos do estado, e sabemos que isso pode acontecer em outros municípios. Estamos reforçando o patrulhamento preventivo e apreendendo equipamentos que eles usam, além dos lucros ilícitos.

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Em menor escala, a apreensão é semelhante em Belém e no interior do Pará. O diretor de uma empresa de telecomunicações que tem 130 mil clientes no estado diz ter perdido R$ 100 mil só no último ano com um carro queimado, uma loja invadida, cabos cortados e dezenas de caixas furtadas. O provedor deixou de atender a mil clientes. Por mês, 5% do faturamento são gastos no reparo de danos provocados pelos bandidos. A empresa contratou seguranças para as lojas e instalou câmeras de monitoramento, mas não conseguiu reter funcionários que pediram as contas com medo de ir a campo.

— Começou no pós-pandemia e passou a acontecer de forma mais agressiva em 2024. A cobrança não é só dos provedores. Se você abre um negócio naquela região controlada tem de pagar o “imposto” — conta o executivo.

No Ceará, caixas de fibra óptica e lojas de provedores de internet são atacadas pelo crime — Foto: Reprodução
No Ceará, caixas de fibra óptica e lojas de provedores de internet são atacadas pelo crime — Foto: Reprodução

No ano passado, o Pará registrou cinco ataques a provedores, todos na Região Metropolitana de Belém. O secretário de Segurança Pública do estado, Ualame Machado, diz que esse tipo de crime apareceu depois que chefes locais do CV passaram a se esconder no Rio. Em troca de proteção nos morros cariocas, segundo ele, os criminosos são instruídos a replicarem em seus estados de origem um modelo já conhecido dos fluminenses.

— Não é a liderança quem faz, ela está dando a ordem de fora do estado. Quem executa é o usuário de droga que está devendo para a boca de fumo ou um menor que quer crescer na organização. Se não faz, morre. Prendemos todos os executores, mas a gente prende um e vêm outros dez — afirma Machado.

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Na Bahia, os primeiros casos do tipo surgiram no início do ano passado. Os alvos são pequenos operadores da periferia da Região Metropolitana de Salvador. O crime ameaça e cobra taxas por cliente ou por faturamento da empresa em determinada área. Quem não paga perde parte da infraestrutura. Ao menos oito relataram abordagens desse tipo, segundo um representante do setor no estado.

— Os provedores têm abandonado a operação ou cedido, pagando as taxas. Quando saem, deixam fibra óptica e caixas para trás, que são sequestradas pelos criminosos — conta ele, estimando as cobranças entre 30% e 60% da receita com mensalidades. — É uma preocupação, porque é um serviço essencial. E é como se fosse um roteiro da criminalidade. Temos pelo menos uma vez por mês algum novo local ameaçado.

O empresário ressalta que os operadores de menor porte são essenciais para democratizar o acesso à internet em áreas periféricas e no interior. Se o método se espalhar, isso pode significar “um caos para a inclusão digital”, alerta.

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  • No Rio, esquema migrou das milícias para os traficantes de drogas
      • saiba como o crime organizado vem tomando conta do serviço de internet

No Rio, esquema migrou das milícias para os traficantes de drogas

No Rio, crimes como cortes de cabos de fibra óptica, ameaças armadas e até sequestros de técnicos de operadoras de internet e telefonia têm mais de uma década.

O diretor de uma empresa que opera em 12 cidades fluminenses diz que perde áreas para o crime desde 2013. Horas depois de falar com O GLOBO, retornou dizendo que acabara de perder outra área para traficantes. Ele estima prejuízo anual de R$ 40 mil com equipamentos e carros danificados ou roubados. Com os riscos, a empresa parou de investir em melhoria na rede. O foco é “manter de pé o que restou”, diz o executivo, que avalia atender a um terço da base de clientes que poderia sem barreiras do crime.

Nas áreas conflagradas, sem concorrência, firmas e moradores ficam com serviço até 40% mais caro que o regular e sem garantia de estabilidade.

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Letícia Emile, coordenadora do Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, diz que essa atividade era típica da milícia (grupos criminosos de policiais). Há dois anos, facções do tráfico de drogas, em especial o CV, descobriram a rentabilidade do esquema.

— Pelo terror, eles conseguem dominar a região e escolhem quais empresas vão prestar o serviço, só as compactuadas com o crime. Além da exploração econômica, essas empresas lavam o dinheiro oriundo de outras atividades criminosas — diz a promotora.

Em algumas áreas, provedores ligados ao crime fazem cobrança com recibos de papel, por Pix e até com boletos em nome de laranjas. As caixas, nos postes, costumam ter um número de telefone sem identificar a empresa. Uma delas, que atua na Baixada Fluminense, tem no registro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) menos de 500 acessos. Mas uma empresa que deixou a mesma região sob ameaça diz que esse provedor tem milhares.

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Além das teles, há no país 20 mil provedores de internet. A abertura do mercado a pequenas operadoras visa garantir acesso em áreas que não são atraentes comercialmente para as grandes, que cobram combate ao crime.

— É uma cadeia de prejuízos que atinge empresas, cidadãos e até o Estado. O recurso usado para recompor uma rede atacada deixa de ser investido em expansão ou melhoria do serviço — afirma Daniela Martins, da Conexis, que representa as grandes operadoras.

Em nota, a Anatel informou que sua atuação se limita à fiscalização de serviços de telecomunicações e que questões de segurança são de competência das autoridades policiais, com quem colabora. O Ministério da Justiça e Segurança Pública não se manifestou. A Polícia Federal afirmou que “não confirma nem se manifesta sobre eventuais investigações em andamento”.

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