Mapeamentos internos do 2º BPM (Botafogo) revelam onde os roubos a transeuntes ocorrem com mais frequência na região de sua atuação. Segundo o levantamento, concentram-se na orla dos bairros, em “pontos quentes” que vão do Shopping Rio Sul até a Marina da Glória. Em Botafogo, os crimes se acumulam em pontos de ônibus e passagens subterrâneas sob a Avenida das Nações Unidas, sobretudo, nas proximidades do Botafogo Praia Shopping. Já no Flamengo, os registros são mais comuns na Avenida Rui Barbosa e no Aterro do Flamengo, na altura da Rua Paissandu.
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Já o horário mais perigoso para circular nos dois bairros é à noite: em 2024, 154 (ou 41%) dos 370 roubos a pedestres no Flamengo aconteceram entre 20h e 23h. O intervalo também concentra 28% de todos os casos que aconteceram em Botafogo.
O aumento da violência já obriga moradores a alterarem suas rotinas. A advogada Tatiana Lilian gostava de correr ou pedalar na Enseada de Botafogo e no Aterro. Mas o medo a fez desistir das atividades ao ar livre. Em setembro passado, ela foi abordada por um grupo de adolescentes na Enseada de Botafogo. Ela sofreu uma pancada em sua nuca, se desequilibrou e, no chão, perdeu bolsa, celular, cordão e bicicleta. A Polícia Militar conseguiu apreender dois suspeitos, mas o terceiro fugiu.
— Cerca de um mês antes, uma amiga e eu já tínhamos sofrido uma tentativa de assalto com faca na ciclovia em direção ao Aterro. Agora, comprei uma bicicleta ergométrica, e meu esporte passou a ser com a vista apenas da janela de casa — conta.
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Ao longo dos últimos cinco anos, o 2º BPM até houve um aumento na quantidade de agentes que atuam no policiamento ostensivo: de 205 PMs em 2020 para 233 em 2025. Como esses policiais atuam em turnos, no entanto, a cada dia são pouco mais de 50 agentes nas ruas.
A própria PM admite que o número não é suficiente. Em abril passado, o tenente-coronel Sérgio Bonato, comandante da unidade, enviou um ofício a seu superior para a instalação de uma base do programa Segurança Presente no Flamengo. Ele alegou que a região, “em que pese a atuação do RAS por parte do atual comando, tem um efetivo policial aquém do necessário”.
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Como argumentos para a implantação da nova base, o oficial alegou que a área sob responsabilidade do batalhão “possui inúmeros acessos e saídas, dentre eles o Túnel Marcelo Alencar, Avenida Infante Dom Henrique, Avenida Beira-Mar, Túnel Santa Bárbara, Túnel Rebouças e Rua Alice”. Essas vias, diz o documento, “são utilizadas como rota de acesso ou fuga nas descrições dos relatos pelas vítimas”. O pedido do tenente-coronel, com previsão de 10 policiais e três viaturas, ainda tramita na PM.
Ao mesmo tempo, moradores do Flamengo reclamam que vive vazia uma cabine da polícia na Praça José de Alencar, no coração do bairro, inaugurada com pompas em 2023, com a promessa de funcionar 24 horas.
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Em outro ofício, enviado em março ao Tribunal de Justiça do Rio, Bonato solicitou ainda ajuda para o conserto de viaturas. O documento, direcionado ao 2º vice-presidente do TJ, Marcelo Rubiolli, pede “auxílio na manutenção de viaturas operacionais, tanto na reposição de peças, quanto na prestação de serviços especializados de mecânica, com objetivo de aumentar a capilaridade do POO (Policiamento Ostensivo Ordinário) e POE (Policiamento Ostensivo Extraordinário)”.
Para fazer frente ao aumento nos roubos de rua, a PM afirma apostar na atuação do novo Batalhão Tático de Motociclistas (BTM), inaugurado em outubro do ano passado e localizado no mesmo quartel que abriga o Batalhão de Choque, no Centro. A unidade tem uma frota de 210 motocicletas — 170 para o patrulhamento da cidade e 40 para o serviço de escoltas. E o roteiro das equipes na rua é feito diariamente com base na leitura da mancha criminal, ou seja, as motos patrulham as áreas com maior incidência de crimes. Segundo a corporação, nos horários de maior fluxo no trânsito, o tempo de deslocamento das motocicletas chega a ser 50% menor que uma viatura convencional.
— Criamos esse batalhão justamente porque percebemos uma incidência muito grande de uso de motos em roubos de rua — afirma o secretário estadual de Segurança, Victor César dos Santos. — A polícia precisa ter a mesma capacidade de mobilidade do criminoso, que anda na contramão, sobe a calçada, passa pela passarela — argumenta ele.
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Em 10 meses em atividade, a unidade prendeu 340 pessoas, recuperou 265 veículos e apreendeu 30 armas.
Para a polícia, os roubos a transeunte, ou a pedestre, englobam casos de subtração de qualquer bem (bolsas, carteiras e joias, entre outros), com ameaça ou violência, enquanto a vítima caminha pela rua. Quando um aparelho telefônico é o alvo do criminoso, porém, o caso é registrado como roubo de celular. No Mapa do Crime, o ranking dos dez bairros em que os ataques as pedestres mais aumentaram estão ainda Grumari e Senador Vasconcelos, na Zona Oeste; Parada de Lucas, na Zona Norte, e Santa Teresa e Estácio, na região central da cidade.
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No caso de Luis Felipe, em novembro de 2024, seis meses após o crime, a Polícia Civil anunciou a apreensão de um adolescente de 17 anos, apontado como o responsável por disparar contra Luis. Ele cumpriu medida socioeducativa de internação e, em fevereiro deste ano, o processo contra o adolescente foi arquivado, após o cumprimento da medida.
A investigação da polícia concluiu que mais dois homens participaram do crime. Além do piloto da moto, também havia um “batedor”, em um outro veículo, flagrado por câmeras de segurança ajudando a dupla de assaltantes a escolher vítimas e dando cobertura na fuga. Até hoje, nenhum dos dois foi preso.