Foram vinte semanas de treinamento intenso, sem nenhum dia de descanso. Durante o período, Wilson Sousa, de 37 anos, chegou a correr 190 quilômetros por semana enquanto se preparava para uma ultramaratona de 24 horas em Burjassot, na Espanha. E todo esse esforço deu certo: Wilson terminou em primeiro lugar após percorrer 231 quilômetros direto, sem pausa, chegando à frente de 220 corredores.
Para encarar o desafio que aconteceu em março, Wilson conta que procurou não pensar nas longas horas de corrida que teria pela frente. Com o intuito de continuar energizado e incentivado, ele considerava cada hora como uma vitória única e, ao completá-las, recompensava seu corpo com algum carboidrato.
— Era melhor pensar que faria 24 provas de uma hora, pois assim o tempo ia passando. Essa é a estratégia, porque é desanimador quando você pensa na prova inteira. Apesar de mais de 200 competidores, eu olhava apenas para o meu desempenho e ia me vencendo pouco a pouco.
Em ultramaratonas de 12 ou de 24 horas vence o atleta que correr a maior quilometragem dentro do tempo estipulado. No caso da prova em Burjassot, Wilson já sabia que seria em um circuito fechado de apenas um quilômetro em formato de K.
O sono foi outra dificuldade. Por questões financeiras, Wilson foi para a Espanha apenas dois dias antes da corrida e, por isso, sofreu para se adaptar ao fuso-horário, o que ocasionou na queda de seu rendimento durante a madrugada da corrida. Com o nascer do sol, já em direção à reta final, o ritmo foi retomado, lembra.
— São muitos fatores externos que não temos controle. (Na Espanha) quando veio o sol forte meu nível de cortisol (hormônio) subiu e meu corpo voltou ao ritmo. Parece absurdo, mas essa reta final ainda é muito desafiadora. A corrida é o tempo todo uma luta consigo mesmo.
Apesar da vitória e de sua colocação nos rankings nacional e sul americano — está em terceiro lugar em ambos —, Wilson relata que corre com o que está ao seu alcance. Sem patrocínio de marcas esportivas ou equipe de apoio fixa, o atleta às vezes conta com o auxílio dos frequentadores do Clube Atlético São Paulo (SPAC), onde trabalha como salva-vidas, que arrecadam dinheiro para ajudá-lo com os gastos das corridas ou com a compra de passagens aéreas, já que a maioria dos eventos ocorre fora do Brasil.
Dentre os gastos variados, talvez o mais determinante esteja relacionado ao número de pares de tênis que Wilson compra ao longo de um ano de treinos e competições. São em média oito ou dez pares comprados, sempre de alta qualidade para que possa manter o alto rendimento, ao um preço médio de R$ 1.000.
— Infelizmente eu só sou conhecido dentro da bolha da corrida. Fora dela ninguém sabe que essas provas e modalidades existem. Se eu fosse pensar na questão financeira, nem valeria a pena correr. Eu corro porque eu realmente gosto.
Natural do Piauí, Wilson se mudou com 16 anos para Santo André, região metropolitana de São Paulo, onde mora até hoje. Mesmo com uma infância ativa, ele conta que a paixão pela corrida surgiu de maneira inusitada, dois anos depois da mudança para a região sudeste.
Wilson esbarrou com a modalidade ao prestar um concurso para a Polícia Militar, entre 2008 e 2009. Depois de fazer todo o curso preparatório, desistiu quando teve sua primeira vivência na área. No entanto, sobravam ainda as provas teórica e física, que ele decidiu realizar.
— Já tinha me preparado, então resolvi seguir com elas. Na prova física, fizemos barra, flexão e corrida, um sprint (prova de velocidade) de 50 metros e uma corrida de 12 minutos. Nessa, como o objetivo era correr mais dentro do tempo, eu venci a bateria ao correr 3.070 metros — conta o atleta.
O resultado impressionou o instrutor da PM, que o incentivou a seguir correndo. Wilson então começou a treinar sozinho e, depois de cerca de três meses, correu sua primeira prova de dez quilômetros em 40 minutos, em Santo André.
Hoje, aos 37 anos e formado em Educação Física, o piauiense trabalha como salva-vidas no SPAC e com treinamento de corrida. Diante da rotina intensa, ele conta que acorda todos os dias às 3h e que quando precisa corre de Santo André até o clube, já na capital paulista, onde encontra seus alunos.
— Se eu sei que o dia será cheio, venho correndo de manhã para São Paulo e volto correndo para casa à noite, o que dá uns 30 quilômetros. Como eu sei que me faz bem, é questão de disciplina. Quando eu não corro, no final do dia parece que estou vazio, que tem algo faltando — diz ele.
Quando começou, Wilson sonhava em ser atleta olímpico e representar o Brasil em provas de velocidade (cem, duzentos e quatrocentos metros) ou em maratonas. No entanto, perto dos seus 30 anos, ele notou que não conseguia mais aprimorar sua velocidade e que não teria condições físicas para realizar seu sonho. Por outro lado, se não conseguia ser mais veloz, percebeu que poderia correr por mais tempo.
— Comecei a trabalhar a minha resistência e vi que poderia competir em provas mais longas como ultramaratonas ou campeonatos em nível nacional ou internacional. A resistência é mais trabalhável do que a velocidade — explica Wilson.
Depois de alguns anos de dedicação, participou de seu primeiro mundial de cem metros em 2022. No ano seguinte, em Barcelona, na Espanha, bateu o recorde brasileiro em uma ultramaratona de doze horas ao correr 155 quilômetros. Também em 2023, ganhou o Campeonato Sul-Americano, em Mar del Plata, na Argentina, onde correu uma prova de cem quilômetros em 6h59.
— Cada minuto conta — brinca.
Embora tenha grandes conquistas em sua trajetória, Wilson acredita que ainda não atingiu seu potencial máximo dentro da corrida. Segundo ele, no cenário mundial, atletas dessas modalidades com 45, 48 anos seguem competindo em alto nível.
Assim, a motivação para correr por mais dez anos vem de um objetivo que traçou para si mesmo: realizar uma das maiores ultramaratonas, a Spartathlon, que sai de Atenas e vai até Esparta, na Grécia. São 246 quilômetros que podem ser feitos em até 36 horas.
Realizada desde 1983, a prova conta uma parte da história da Grécia Antiga ao atravessar vinhas e olivais, percorrer encostas e levar os corredores a uma subida de 1.200 metros no Monte Partenio. Esse seria o mesmo percurso realizado pelo mensageiro ateniense, em 490 a.C, quando buscou ajuda em Esparta antes da batalha de Maratona, contra os persas.
— Caso não tenha nenhum problema no meio do caminho, consigo fazê-la. E ficar entre os dez ou cinco primeiros — promete.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Rivoiro

