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outubro 12, 2026
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‘Se um dia eu morrer, quero estar fardado’: ex-mulher relembra frase de subtenente do Bope morto em Jacarepaguá

Por · outubro 12, 2026
Polícia Civil pede câmeras corporais de agentes envolvidos em tiroteio na Gardênia Azul; confronto entre PMs matou subtenente do Bope


Menos de um ano depois de perder um integrante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na megaoperação do Complexo da Penha, a família de Heber Carvalho Fonseca voltou a se despedir de um policial da tropa de elite. Nesta segunda-feira, parentes, amigos e colegas de farda acompanharam o sepultamento do subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, irmão de Heber, morto no domingo durante uma ocorrência em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. A suspeita é de que policiais do 18º BPM tenham confundido uma abordagem feita por agentes do Bope com uma ação criminosa e disparado contra os colegas.
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— Ele dizia: “Se um dia eu morrer, eu quero estar fardado” — recordou Aline Viana, ex-mulher de Gláucio, durante a despedida.
O velório ocorreu no cemitério Jardim da Saudade, na Zona Oeste, onde a emoção tomou conta dos familiares. Aline e os dois filhos do subtenente choraram ao ver o corpo na capela. Antes do sepultamento, marcado para as 16h, um helicóptero do Bope sobrevoou o cemitério e lançou rosas brancas e vermelhas em homenagem ao policial. Em terra, integrantes da tropa de elite formaram um corredor para a passagem do caixão.
— Ele sacrificou a própria vida pelos irmãos — afirmou o comandante do Bope.
A despedida ocorreu a poucos dias do primeiro aniversário da morte de Heber, um dos cinco policiais mortos na megaoperação realizada em 28 de outubro de 2025, no Complexo da Penha. Gláucio estava na Polícia Militar havia quase 26 anos, a maior parte deles dedicada ao Bope. Para a família, além da dor de uma segunda perda, permanece a cobrança por esclarecimentos sobre o tiroteio entre policiais militares que terminou com a morte do subtenente e deixou outros cinco agentes feridos.
Família questiona comunicação entre batalhões
Aline cobra explicações sobre as circunstâncias do confronto e questiona como agentes do 18º BPM teriam confundido uma abordagem feita por policiais do Bope com uma ação criminosa. Segundo ela, informações recebidas pela família indicam que a presença da tropa de elite na região havia sido comunicada, o que levanta dúvidas sobre a circulação do aviso entre as equipes.
— Primeiramente, a gente quer entender exatamente o que aconteceu. De primeira mão, foi falado para nós que não houve uma comunicação, e nós já sabemos que foi feita sim uma comunicação. Então, a partir de agora, a gente quer entender: quem foi comunicado? Essa pessoa passou a comunicação para todo o batalhão? Se sabiam que estavam naquela área, por que aconteceu isso tudo? — questiona Aline.
A hipótese de fogo amigo é investigada pela Polícia Militar. A ex-mulher também quer saber se os agentes envolvidos perceberam que estavam diante de integrantes de outra unidade da corporação e em quais circunstâncias os disparos foram efetuados.
— Será que ninguém viu uma farda diferenciada ou não chegou mais próximo a ponto de saber o que era, já que não estava havendo troca de tiro? — pergunta.
A última mensagem ficou sem resposta
Mesmo depois do divórcio, Aline e Gláucio mantinham uma relação próxima. Segundo ela, os dois costumavam conversar antes e depois das operações policiais. Na semana em que morreu, o subtenente contou que participaria de uma missão, mas não poderia revelar detalhes. Como de costume, combinaram de se falar no dia seguinte.
Às 7h de domingo, Aline enviou uma mensagem perguntando como ele estava e como havia sido a operação. Desta vez, não houve resposta.
— Ele falou que haveria uma operação, mas que não poderia falar muita coisa. Disse que, no dia seguinte, como todas as outras vezes, a gente se falaria. Tanto que, às 7h da manhã, eu mandei mensagem para ele: “Gláucio, como você está? E aí, como foi?”. E eu já não obtive mais resposta nenhuma — relata.
Aline descreve Gláucio como um policial apaixonado pela profissão, que via no Bope não apenas um local de trabalho, mas parte de sua própria identidade. Prestes a completar 26 anos de serviço na Polícia Militar, em dezembro, ele havia dedicado a maior parte da carreira à tropa de elite.
— O Gláucio era um apaixonado pelo trabalho dele. Ele falava que aquilo ali fazia parte dele. Não é que ele fazia parte do Bope, o Bope fazia parte dele. Ele fazia questão de dizer: “Eu sou caveira. Aquilo ali é a minha família” — conta.
Dois irmãos do Bope mortos em menos de um ano
A morte de Gláucio aprofundou uma tragédia que a família ainda tentava assimilar. Em 28 de outubro do ano passado, seu irmão, Heber Carvalho Fonseca, também integrante do Bope, morreu durante a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, considerada a mais letal da história do Rio
Segundo Aline, Heber tinha o irmão mais velho como referência e decidiu seguir seus passos na tropa de elite. A admiração entre os dois fazia com que Gláucio se sentisse especialmente responsável pelo caçula.
— O Heber tinha o Gláucio como referência. Muita gente, mas o Heber tinha o Gláucio como referência. Ele entrou no batalhão por causa do Gláucio. Então, o Gláucio tinha uma responsabilidade enorme sobre ele — conta.
Aline lembra que Gláucio não estava no batalhão quando Heber morreu e que a operação de domingo marcaria seu retorno à unidade. Agora, a família enfrenta a segunda perda em menos de um ano, às vésperas da data que já seria marcada pelas homenagens ao primeiro policial morto.
— Foi muito doloroso e ainda é. A gente vai se arrastando durante esse período, mas entende que aquilo ali era o amor da vida dele. E isso nos conforta — afirma.
Entenda a ocorrência que terminou com a morte do subtenente
O subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva morreu na manhã de domingo, durante uma ocorrência na Rua Guilherme Moreira, na Freguesia, em Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio. Segundo a Secretaria de Estado de Polícia Militar, agentes do Bope abordavam um veículo quando policiais do 18º BPM (Jacarepaguá) chegaram ao local.
A principal hipótese investigada é que, devido à baixa luminosidade, os policiais do batalhão de área tenham confundido a abordagem com uma ação criminosa e disparado contra os colegas.
Ao todo, seis policiais militares foram baleados: cinco do Bope e um do 18º BPM. Gláucio foi levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas chegou morto à unidade. Os outros cinco agentes foram socorridos. Parte deles passou por cirurgia, enquanto outros receberam alta após avaliação médica.
As circunstâncias do tiroteio são apuradas pela Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (2ª DPJM), e pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), da Polícia Civil.
A tenente-coronel Cláudia Moraes, porta-voz oficial da Polícia Militar, informou que não falaria com a imprensa durante a cerimônia.
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