Servos e integrantes da corte real do Egito Antigo podem ter sido assassinados para acompanhar os primeiros faraós na vida após a morte. É o que indica uma nova análise arqueológica. Pesquisadores reexaminaram crânios encontrados há cerca de um século em túmulos reais de Abydos, no Egito, e identificaram sinais de traumatismos graves e potencialmente fatais em 18 dos 46 restos analisados. O estudo foi publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology, nesta segunda (5).
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Os crânios pertenciam a pessoas enterradas em longas fileiras de sepulturas simples ao redor dos monumentos funerários dos primeiros reis egípcios. Entre elas estariam integrantes de baixo escalão da administração, artesãos, guardas e trabalhadores domésticos.
A análise foi conduzida pela egiptóloga e bioarqueóloga Roselyn Campbell, da Universidade Purdue, que utilizou métodos forenses modernos para investigar uma questão que permanece em aberto desde as primeiras escavações no local, realizadas na década de 1920 pelo egiptólogo britânico Flinders Petrie.
Suspeita de sacrifício
Os complexos funerários de Abydos foram construídos por volta de 3000 a.C., durante a Primeira Dinastia, quando o Egito estava sendo consolidado como um Estado unificado. Além das tumbas dos reis, os locais tinham câmaras, estruturas usadas em rituais funerários e centenas de sepulturas menores ao redor dos monumentos principais.
A grande quantidade de pessoas enterradas praticamente ao mesmo tempo chamou a atenção de Petrie. O egiptólogo suspeitou que os indivíduos fossem vítimas de um ritual conhecido como sacrifício de servidores, no qual pessoas próximas a um governante eram mortas após sua morte para continuar a servi-lo no além.
— O sacrifício de servidores é um tipo de sacrifício humano em que pessoas próximas a um governante são mortas quando ele morre — explicou Campbell.
A cidade de Aten for erguida durante o reinado do fárao Amenhotep III, que governou o Egito antigo entre 1391 e 1353 antes de Cristo
Reprodução Youtube
Segundo a pesquisadora, em diferentes culturas a prática estava relacionada à crença de que os sacrificados continuariam servindo ao governante depois da morte. Também poderia representar uma demonstração do poder do soberano.
Os indivíduos poderiam ter aceitado voluntariamente o destino em busca de honra ou de uma vida eterna junto ao rei. Outros, porém, poderiam ter sido escolhidos ou forçados.
Petrie, no entanto, não encontrou evidências de ferimentos fatais nos restos examinados na época. A ausência de sinais de violência deixou em dúvida a hipótese de que aquelas pessoas haviam sido assassinadas.
Marcas de golpes na cabeça
A nova análise voltou aos materiais preservados das escavações e aplicou conhecimentos forenses modernos aos crânios. Dos 46 examinados, 18 apresentaram traumas graves que provavelmente foram fatais e ocorreram próximo do momento da morte.
As lesões incluíam fraturas provocadas por golpes fortes na cabeça, aparentemente feitos com armas de superfície plana, além de ferimentos cortantes próximos aos olhos e às têmporas.
Turistas observam o sarcófago externo dourado de madeira do antigo faraó egípcio Tutancâmon (1341-1323 a.C.)
Khaled Desouki / AFP
O resultado significa que pelo menos 39% dos indivíduos analisados podem ter sido mortos deliberadamente por golpes na cabeça, segundo a pesquisa.
— Fui atraída por esses servidores em parte porque, embora tenham sido enterrados ao redor da realeza, eles são em grande parte relegados a notas de rodapé na narrativa mais ampla. Quem eram essas pessoas e como elas viam o governante e seu próprio papel na vida e na morte dele? — questionou Campbell.
Prática teria durado pouco
A evidência encontrada nos crânios é considerada pelos pesquisadores a mais forte até agora de que assassinatos ritualísticos ocorreram no Egito durante a Primeira Dinastia, entre aproximadamente 3100 a.C. e 2900 a.C., período de consolidação do poder dos primeiros faraós.
A prática, porém, teria sido relativamente curta. O sacrifício de servidores perdeu força até a Segunda Dinastia, entre aproximadamente 2890 a.C. e 2686 a.C.
Uma das explicações é que a autoridade central enfrentou períodos de instabilidade política, tornando menos conveniente para os governantes manter um ritual que envolvia a morte de grande número de pessoas.
Com o abandono dos sacrifícios humanos, os egípcios passaram a colocar nas tumbas pequenas estátuas de madeira e pedra conhecidas como ushabtis. As figuras representavam servos que deveriam realizar tarefas para os mortos na vida após a morte.
A descoberta se soma a evidências de que o sacrifício humano foi praticado em diferentes sociedades antigas, incluindo comunidades da China, da Escandinávia e grupos celtas na Inglaterra.
Servos seriam assassinados para acompanhar faraós egípcios após sua morte; indica estudo arqueológico
