O vencedor do Nobel de Literatura de 2026 será anunciado nesta quinta-feira (8), pela Academia Sueca. Como acontece todos os anos, às vésperas da premiação, casas de apostas e sites especializados tentam antecipar quem levará o mais prestigioso prêmio literário do mundo.
Segundo o Nicer Odds, plataforma que compara as cotações oferecidas por diferentes casas de apostas, cinco escritores aparecem entre os principais favoritos: a chinesa Can Xue, o japonês Haruki Murakami, a mexicana Cristina Rivera Garza, o espanhol Enrique Vila-Matas e o australiano Gerald Murnane.
Conheça, a seguir, a obra e a trajetória dos cinco autores cotados para suceder o húngaro László Krasznahorkai, vencedor do Nobel em 2025.
Can Xue
Descrita como “a autora de ficção experimental mais proeminente da China”, Xue se tornou célebre por romper com o realismo da literatura moderna de seu país e há anos aparece nas listas de apostas do Nobel. Autora de romances, novelas e crítica literária, na qual analisa a obra de autores como Dante Alighieri, Jorge Luis Borges e Franz Kafka, é no conto que ela se destaca.
Em 2025, a Fósforo publicou no Brasil “Histórias de amor no novo milênio”, romance onírico e bem-humorado que acompanha mulheres investidas na busca do prazer e da felicidade em uma cidade industrial precária. A autora, que escreve sob pseudônimo (seu nome verdadeiro é Deng Xiaohua), nasceu em 1953 e teve a família perseguida pelo regime chinês. Em entrevista à imprensa brasileira, no ano passado, ela esnobou o prêmio da Academia Sueca: “Não considero o Nobel particularmente importante. Meu objetivo é me tornar um escritor como Shakespeare ou Dante”, disse.
Haruki Murakami
Há anos, o japonês Haruki Murakami é cotado para o Nobel. Extremamente popular entre os leitores, ele nasceu em Kyoto em 1949 e é autor de títulos como “Kafka à beira-mar”, “Do que eu falo quando falo de corrida” e da trilogia “1Q84”. É conhecido por retratar um Japão já afastado das tradições milenares e bastante palatável ao público ocidental. Murakami é um fenômeno pop. Seus novos romances são celebrados com festas de lançamento à meia-noite e fãs criam playlists com músicas que ele cita e já publicaram livros de receitas com os pratos que figuram em seus romances. Há até uma conta na plataforma social X dedicada exclusivamente a menções a espaguete em sua obra.
Vencedor de troféus literários como o Prêmio Franz Kafka e o Prêmio Jerusalém, Murakami lançou, em julho, o romance “A história de Kaho” (inédito no Brasil), o primeiro narrado por uma mulher. No passado, o escritor foi duramente criticado por suas personagens femininas consideradas unidimensionais e excessivamente sexualizadas. À imprensa japonesa, ele disse que, ao criar sua primeira narradora, teve “a sensação de que estava vendo o mundo com olhos diferentes dos meus habituais”.
Cristina Rivera Garza
Mexicana radicada nos Estados Unidos, Cristina Rivera Garza tem três livros publicados no Brasil: o volume de ensaios “Os mortos indóceis” (WMF Martins Fontes) e os romances “O invencível verão de Liliana” (vencedor do Prêmio Pulitzer), no qual revisita o assassinato da irmã, morta enquanto dormia, aos 20 anos, e “Autobiografia do algodão”, que investiga uma greve de agricultores na fronteira entre o México e os EUA nos anos 1930, da qual antepassados dela participaram. Os dois romances, que misturam ficção, memória, reportagem e ensaio, foram publicados pela Autêntica.
Rivera Garza costuma dizer que trabalha com “não ficção criativa” e constrói suas obras a partir de “processos de investigação muito concretos”, que incluem a leitura de diários, consultas à Wikipédia, entrevistas, pesquisas de campo, levantamento de documentação e, é claro, um bocado de imaginação. Em 2025, a mexicana participou da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em entrevista ao GLOBO durante o evento, disse encarar a escrita como uma “prática espiritual” que “permite uma conversa constante com os mortos”, o que ela considera “fundamental” para a vida neste planeta.
Enrique Vila-Matas
O espanhol Enrique Vila-Matas, de 78 anos, construiu uma obra marcada pela mistura entre ficção, ensaio, autobiografia e crítica literária, em livros povoados por escritores reais e inventados, citações verdadeiras e apócrifas e personagens obcecados pela própria literatura. Nascido em Barcelona, é autor de romances como “Bartleby e companhia”, sobre escritores (reais e fictícios) que renunciaram à escrita, e “Montevidéu”, no qual o protagonista, um escritor e ex-traficante de drogas, afirma que existem cinco tipos de narradores: os que não têm nada para contar; os que deliberadamente não narram nada; os que não contam tudo; os que esperam que um dia Deus conte tudo; e os que se renderam ao poder da tecnologia, “tornando prescindível, portanto, o ofício de escritor”.
Em entrevista ao GLOBO, em 2018, disse que acredita na “leitura ativa” e que se deve exigir talento não só do escritor, mas também do leitor. “A viagem da leitura passa por terrenos difíceis, que pedem tolerância, espírito livre, emoção inteligente, desejo de compreender o outro e de se aproximar de uma linguagem diferente da que nos sequestrou”, afirmou o autor, cujos títulos são publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
Gerald Murnane
O australiano de 87 anos é conhecido sobretudo por “As planícies”, um romance curto (quase uma fábula) sobre um cineasta que se envereda pelo interior da Austrália lançado no Brasil pela Todavia, em 2024. Em 2018, o jornal The New York Times o descreveu como “o maior escritor de língua inglesa de quem a maioria das pessoas nunca ouviu falar”. Cultuado por autores como o Nobel de Literatura sul-africano J.M. Coetzee e o americano Ben Lerner, por muito tempo, Murnane foi pouco conhecido até mesmo em seu país. Em 1999, quando venceu o Patrick White Award, todos os seus livros estavam fora de catálogo.
Depois de “As planícies”, Murnane radicalizou seu projeto literário. Abandonou convenções como enredo e personagens e passou a investir em uma prosa ensaística, inspirada em suas próprias memórias, e a abordar assuntos como travas sexuais provocadas pelo catolicismo, corridas de cavalo e o que significava ser um marido que não trabalhava fora na Melbourne dos anos 1970. Murnane nunca aprendeu a usar computador. Escreve seus livros em uma máquina de escrever e só sabe datilografar com um dedo.
Nobel de Literatura 2026: descubra quem são os escritores cotados para o prêmio
