Cinco palavras que os pais no grupo de bate-papo da sala de aula temem ler: “Meu filho está com piolhos”. Os piolhos (Pediculus humanus capitis) são parasitas que infestam principalmente crianças em creches, pré-escolas ou durante o ensino fundamental. No entanto, tê-los não está relacionado à falta de higiene — embora essa crença equivocada persista há muito tempo alimentada pelo preconceito — além disso, os parasitas também não são transmissores de outras doenças. Mas crianças com piolhos são frequentemente envergonhadas e excluídas da escola desnecessariamente.
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Como pediatra de atenção primária com treinamento especializado em infecções e infestações por micróbios, vírus e pequenos parasitas como piolhos, meu objetivo é manter as crianças saudáveis para que possam permanecer na escola. E como mãe de dois filhos, vivenciei pessoalmente a batalha contra esses parasitas.
Os piolhos são companheiros indesejados dos humanos desde os tempos antigos. Compreender como eles se espalham, bem como detectar e tratar infestações, pode ajudar pais e escolas a lidar de forma eficaz e sem medo.
Guia básico sobre piolhos
Os piolhos adultos são insetos cinza-amarelados com seis patas, medindo aproximadamente 2 a 3 milímetros de comprimento – mais ou menos o tamanho de uma semente de gergelim. Eles vivem exclusivamente em seres humanos e se alimentam de sangue por meio de picadas no couro cabeludo. A saliva dos parasitas impede a coagulação do sangue durante a alimentação.
As fêmeas depositam seus ovos nos fios de cabelo próximos ao couro cabeludo, fixando-os firmemente com uma substância semelhante a cola que secretam. Os ovos levam de 8 a 9 dias para eclodir.
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Como os piolhos não pulam nem voam, a transmissão ocorre principalmente por contato direto cabeça com cabeça. Na escola, isso pode acontecer quando as crianças sentam muito perto umas das outras ou cochilam ao lado dos colegas. Os ovos ou piolhos também podem ser transmitidos quando as crianças compartilham objetos como chapéus ou escovas de cabelo, mas essa forma de transmissão é muito menos comum, pois eles não sobrevivem por muito tempo fora da cabeça.Não há evidências médicas de que certos tipos de cabelo sejam resistentes. Os piolhos podem infestar todos os tipos de cabelo.
Seu filho pode estar com piolhos se você o vir coçando o couro cabeludo com frequência. Essa coceira é uma reação de sensibilidade que a maioria das crianças desenvolve à saliva dos piolhos. Em crianças que nunca tiveram piolhos antes, essa sensibilização pode levar de quatro a seis semanas para se desenvolver – o que, quando os parasitas são identificados, a criança provavelmente já está com piolhos há algumas semanas.
O que fazer se você acha que seu filho está com piolhos?
Primeiramente, não entre em pânico. Uma infestação de piolhos pode ser frustrante ou constrangedora, mas não é perigosa e existem tratamentos eficazes.
Examine atentamente o couro cabeludo do seu filho em busca de piolhos vivos. Eles se movem rapidamente e evitam a luz, por isso pode ser difícil encontrá-los. Certifique-se de verificar se há lêndeas (ovos), que geralmente ficam atrás das orelhas ou na nuca. Elas ficam firmemente presas ao cabelo e não se desprendem como caspa.
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Assim que tiver certeza de que seu filho tem piolhos, verifique também os outros membros da família. A Academia Americana de Pediatria recomenda que você examine todos próximo do convivio da criança, bem como qualquer pessoa que compartilhe a cama com a criança, mesmo que não encontre piolhos ou lêndeas neles. Existem diversas opções de tratamento disponíveis sem receita médica e acessíveis, como a permetrina.
A permetrina a 1% está disponível como loção ou creme para enxágue. Pode ser usada em crianças a partir de 2 meses de idade. Ela mata os piolhos vivos com eficácia, mas não as lêndeas, portanto, será necessário reaplicá-la em nove a dez dias para matar quaisquer piolhos que possam ter eclodido desde o primeiro tratamento.
Após a aplicação do tratamento tópico, penteie os cabelos com um pente fino para garantir que não restem piolhos vivos. O uso de um condicionador cremoso durante o procedimento pode facilitar a visualização dos parasitas. Como nenhum tratamento é 100% eficaz, o pente fino também ajuda a remover os ovos que poderiam eclodir posteriormente, dando origem a novos piolhos que precisariam ser eliminados na segunda aplicação do produto.A retirada das lêndeas vazias não é necessária, mas pode ajudar a diminuir o constrangimento da criança e a preocupação dos pais.
Outro medicamento utilizado no combate aos piolhos é a ivermectina, um antiparasitário indicado para o tratamento de diferentes infecções causadas por parasitas, como os piolhos. Na forma oral, seu uso em crianças é recomendado para aquelas com peso igual ou superior a 15 kg, mediante avaliação médica. Além dos comprimidos, o princípio ativo também pode ser encontrado em formulações tópicas, como xampus, preparadas em farmácias de manipulação.
E se o tratamento não funcionar?
Coceira no couro cabeludo após o tratamento tópico pode ser apenas uma reação ao próprio tratamento. Verifique a presença de piolhos vivos ou lêndeas, que geralmente ficam a 1-2 milímetros da base do cabelo, e não de lêndeas vazias, que são mais brancas e ficam mais ao longo do fio.
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Às vezes, os tratamentos de venda livre não funcionam completamente – seja por erro do usuário, reexposição ou porque os piolhos desenvolveram resistência a eles. Se você tiver recurso, pode procurar ajuda profissional.
Se preferir evitar o tratamento químico, você pode tentar remover manualmente cada piolho e usar uma loção emoliente com dimeticona. No entanto, as pesquisas sobre a eficácia dessa técnica são limitadas. E nenhum dos muitos remédios alternativos para tratar piolhos – como sufocá-los com maionese ou óleo, desidratá-los com soro fisiológico ou ar quente, ou usar um pente elétrico – comprovou ser eficaz.
Os piolhos não sobrevivem mais de 48 horas fora da cabeça. Para matar piolhos ou lêndeas que passaram para superfícies, lave todas as roupas, roupas de cama, gorros e brinquedos que entraram em contato com a cabeça da criança nos últimos dois dias em água quente e seque-os em temperatura alta. Aspire móveis e tapetes para remover os pelos e coloque quaisquer objetos que não possam ser lavados em sacos plásticos por duas semanas.
E quanto à frequência escolar?
A partir da década de 1980, como um esforço para conter surtos de piolhos, muitas escolas nos Estados Unidos adotaram políticas de “Tolerância Zero a Lêndeas”, que impediam a frequência escolar de crianças caso fossem encontrados ovos ou lêndeas vazias em seus cabelos.
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No entanto, muitos especialistas médicos e organizações de saúde pública, incluindo a Academia Americana de Pediatria e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), rejeitam essas políticas por considerá-las desnecessárias e ineficazes. Manter crianças fora da escola devido a piolhos também contribui para o preconceito social.
De acordo com as diretrizes atuais, se uma criança estiver infestada por piolhos, ela não deve ser mandada para casa mais cedo. Em vez disso, a escola deve notificar os pais, e a criança deve continuar frequentando as aulas enquanto estiver em tratamento. Ela também deve evitar contato próximo com a cabeça dos alunos e o compartilhamento de itens como chapéus, cachecóis e escovas de cabelo.
Algumas escolas continuam a verificar o cabelo dos alunos em busca de lêndeas após o tratamento, mas essa prática não é eficaz, visto que lêndeas vazias, sem piolhos vivos, podem persistir no cabelo por semanas ou até meses.
*Emily J. C. Wong é professora associada de Pediatria da Universidade da Virgínia.
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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