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As tarifas serão lineares, ou seja, as mesmas para todos os produtos, conforme havia antecipado a colunista do GLOBO Míriam Leitão. As maiores taxas serão aplicadas aos países do Sudeste da Ásia, de onde vêm hoje a maior parte dos produtos baratos vendidos nos Estados Unidos.
— Vou assinar uma ordem executiva histórica instituindo tarifas recíprocas a países de todo o mundo. Uma reciprocidade que significa: se eles fazem conosco, vamos fazer com eles — disse Trump nos jardins da Casa Branca. — É nossa declaração de independência financeira.
As alíquotas de 10% entram em vigor no sábado, dia 5. As taxas maiores serão aplicadas no dia 9.
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O anúncio foi feito em um evento de clima populista, com a presença de metalúrgicos e trabalhadores da indústria automotiva. Antes de falar das tarifas recíprocas, Trump confirmou que as taxas de 25% sobre automóveis importados entram em vigor hoje.
No quadro que Trump apresentou com as tarifas, havia o quanto os países cobram dos produtos americanos, apesar de não haver detalhes sobre como se chegou àqueles números. E ressaltou que as tarifas eram inferiores ao que os outros cobram dos EUA:
— Não é totalmente recíproco. É um recíproco bonzinho.
Segundo a Casa Branca, as tarifas recíprocas não se somam às sobretaxas sobre carros e sobre aço e alumínio importados — estas últimas, também de 25%, afetam o Brasil.
Outros tipos de tarifas, no entanto, vão se somar. Com isso, a China terá de enfrentar uma alíquota de 54% — os EUA já haviam imposto sobretaxas de 20% a todos os produtos chineses e ontem decretaram tarifa recíproca de 34% ao país.
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Além do Brasil, Reino Unido, Austrália, Cingapura e Chile, entre outros, terão alíquotas de 10%. Cerca de 100 ficaram nessa faixa.
Japão e Índia, aliados geopolíticos dos EUA, serão tarifados em 24% e 26%, respectivamente. Canadá e México ficaram de fora, no caso de produtos dentro do acordo de livre comércio com os EUA (os demais têm taxa de 25%).
Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e ex-secretário de Comércio Exterior do governo federal, observou que o tarifaço atingiu em cheio países produtores de itens básicos consumidos nos EUA, como calçados, vestuário e eletrônicos. As alíquotas de Vietnã, Camboja e Bangladesh, por exemplo, ficaram em 46%, 49% e 37%, respectivamente.
— Deve ter um impacto grande em termos de preços nos EUA — disse Barral,que não descarta uma mudança de rumo, devido às eleições parlamentares em 2026. — A política só vai mudar na hora que chegar no bolso do consumidor americano.
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A curto prazo, avalia Barral, um isolamento comercial dos EUA poderá favorecer uma maior integração na Ásia, ainda que a economia de países mais pobres, como Camboja e Bangladesh, seja prejudicada. Já a China deve sair ganhando.
— A China já estava crescendo e aumentando sua influência. Trump está fazendo de tudo para que a China seja “great again” — disse Barral, em referência ao slogan de campanha de Trump, make America great again (“faça os EUA grandes de novo”).
Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), observa que a adoção de uma tarifa linear, igual para todos os setores e produtos, é incomum. Isso, avalia, será “confuso” para as cadeias globais de produção, integradas internacionalmente, que dependem de insumos de diversos países.
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Como resultado, a incerteza continuará elevada, paralisando investimentos e desacelerando a economia global.
— O que o tarifaço faz é, cada vez mais, acelerar a tendência de os países se organizarem entre si — afirmou Lia, lembrando que isso não os protegerá dos efeitos financeiros de uma recessão ou inflação maior nos EUA.
Segundo Trump, as tarifas vão estimular a indústria nos EUA. E disse que, em seu governo, várias empresas já anunciaram investimentos no país, como Apple, as fabricantes de chips Nvidia e TSMC, as montadoras Nissan e Hyundai, e a farmacêutica Eli Lilly.
— Vamos produzir os carros e navios, chips, aviões, minerais e medicamentos de que precisamos bem aqui na América — afirmou. — Todas (as empresas) estão voltando para o nosso país porque, se não voltarem, vão pagar um imposto pesado.
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Ele afirmou que isso vai baixar os preços para os consumidores americanos, apesar de vários especialistas alertarem que as tarifas devem fazer justamente o contrário: pressionar a inflação.
A Federação Nacional do Varejo dos EUA afirmou que as tarifas são um imposto para o importador americano, que será repassado ao consumidor.
Em nota, a Câmera Internacional de Comércio classificou o anúncio de ontem como um momento decisivo para a economia global. Mas recomendou que os demais países mantenham a ênfase na negociação, ressaltando que uma retaliação tarifária é “um jogo onde todos perdem.”
O embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), lembra que o protecionismo é desastroso para a economia global, como ocorreu com a elevação de tarifas pelos EUA na década de 1930, medida que acabou agravando a Grande Depressão. Ele vê risco de a participação americana no comércio global diminuir.
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Parceiros comerciais criticaram os EUA. Para o premier australiano, Anthony Albanese, as tarifas “não são algo que um amigo faça”. Mas disse que não vai retaliar:
— Não entraremos em uma corrida para o fundo do poço que leva a preços maiores e crescimento mais lento.
Já o secretário de Comércio do Reino Unido, Jonathan Reynolds, disse que a resposta será “manter a calma e o comprometimento em fazer um acordo”.
No evento, Trump afirmou que os EUA cuidam “de países de todo o mundo” e então “quando você quer reduzir um pouco, eles ficam chateados”.
Também ontem, senadores republicanos apresentaram um projeto para renovar os cortes de impostos do primeiro mandato de Trump. Seriam prorrogados US$ 4 trilhões em cortes e reduzidos outros tributos, de mais US$ 1,5 trilhão. (*Com Bloomberg News)

