Depois de décadas enfrentando uma doença mortal, os produtores de laranja do principal país produtor, o Brasil, finalmente estavam expandindo a produção em uma nova fronteira citrícola no nordeste do país. Agora, as tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçam estagnar essa indústria nascente.
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O suco de laranja engarrafado é um item básico no café da manhã tipicamente americano, porém, mais de 40% desse suprimento vem do Brasil. À medida que a doença conhecida como greening se espalhou por mais de 44% dos pomares na tradicional faixa citrícola do sudeste brasileiro, produtores no nordeste começaram a expandir suas plantações para aproveitar os preços em alta.
É o caso de Fernando França, um pequeno produtor no estado nordestino de Sergipe, que vinha expandindo sua fazenda. Ele estava vendendo caminhões carregados de laranja para as indústrias de suco no Sudeste por um valor duas vezes maior que o preço normal.
— Todos os dias chegavam mais caminhões querendo frutas — as empresas do Sudeste estavam desesperadas, tudo por causa do greening — disse França, que cultiva exclusivamente laranjas em 250 hectares em Boquim, uma cidade a cerca de 80 quilômetros de Aracaju, a capital de Sergipe.
Agora, as tarifas dos EUA que entrarão em vigor em 1º de agosto “atrapalharam as coisas por aqui”, afirmou.
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O greening faz com que os frutos caiam antes do tempo. Uma vez infectada, a maioria das laranjeiras morre em poucos anos. Os cientistas ainda não encontraram uma cura para a doença, que também devastou a produção na Flórida. A produção no principal estado produtor dos EUA deve cair para o menor nível desde 1930, após um furacão no outono passado ter acelerado a crise do setor desencadeada pelo greening, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
A queda na produção global fez os preços dispararem nos últimos cinco anos — a sequência de alta mais longa desde 1975. Os contratos futuros negociados em Nova York atingiram o recorde de US$ 5,4315 por libra em dezembro. Isso criou um incentivo para os produtores expandirem para novas áreas livres de greening. Os contratos fecharam a US$ 3,2545 por libra na segunda-feira, mas ainda estão quase 40% acima da média dos últimos cinco anos.
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No Brasil, o Nordeste era o lugar perfeito. Uma combinação de temperaturas altas e estáveis nos ensolarados estados da Bahia e Sergipe atua como uma defesa natural contra o greening. O inseto vetor da doença tem dificuldade para sobreviver em ambientes onde as temperaturas superam consistentemente os 32 °C.
E esses estados já produziam alguma quantidade de laranja, principalmente em pequenas propriedades familiares. Eles responderam por cerca de 6% da produção brasileira na safra 2023–2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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França, o produtor de Sergipe, lembra da correria dos processadores de suco do Sudeste, que enviavam caminhões viajando cerca de 2.000 quilômetros para comprar suas laranjas.
— Vendi tudo pelo dobro do preço. Quatro mil toneladas de laranja me renderam R$ 8 milhões (US$ 1,4 milhão) — contou.
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Prevendo que os preços podem subir ainda mais, Cléber Bacamal, um produtor de laranja com várias fazendas em Sergipe e na Bahia, já está expandindo. Ele espera que a tonelada da fruta alcance R$ 3.500, acima dos já elevados R$ 2.200 do ano passado.
— Já estou expandindo, comprando as fazendas vizinhas — disse Bacamal. — Hoje tenho 120 mil pés de laranja plantados, e a meta é dobrar esse número.
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Produtores estão adquirindo propriedades vizinhas e aumentando os investimentos nas áreas de cultivo. Novas mudas levam cerca de dois anos para começar a produzir, então ainda vai levar algum tempo até que qualquer aumento na produção seja refletido nas estatísticas.
Por enquanto, a produção é tão pequena que o governo brasileiro nem a acompanha regularmente. Os últimos dados publicados mostram que os dois estados produziram cerca de um milhão de toneladas na safra 2023–2024, em comparação com 14,8 milhões de toneladas no Sudeste, segundo o IBGE.
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Mas, com a aproximação da tarifa de 50% proposta por Trump, as perspectivas de expansão no Nordeste tornam-se mais incertas. Se for implementada no próximo mês, a tarifa provavelmente vai prejudicar o comércio global e as exportações do Brasil.
Os caminhões que, até recentemente, lotavam as estradas para buscar frutas destinadas à indústria “recuaram”, acrescentou França.