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‘temos um universo de histórias que foram silenciadas’

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abril 23, 2026
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"Somos humanos cheios de possibilidades e com um universo de narrativas que foram silenciadas", diz Taís Araujo — Foto: Divulgação/Fernando Thomaz

Taís Araujo realiza um desejo de longa data ao estrear nesta quinta-feira (23) seu primeiro solo, “Mudando de pele”, no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. A partir de uma pesquisa por obras de dramaturgas negras, que toca há anos com Diego Teza, tradutor da peça, a atriz viu no texto da inglesa Amanda Wilkin a oportunidade perfeita para voltar aos palcos após cinco anos. Sob direção de Yara de Novaes — com quem trabalhou nos primeiros estudos para interpretar Raquel no remake da novela “Vale tudo”, da TV Globo — ela vive Mayah, mulher prestes a fazer 40 anos que transforma sua vida ao se ver presa num trabalho infeliz e num relacionamento falido.

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— A pesquisa foi intensificada por obras como “AmarElo”, do Emicida, e pelo filme “Ficção americana”, de Cord Jefferson. O filósofo Achille Mbembe também fala sobre isso. Histórias de sofrimento e de escravização existem, mas nós (negros) não podemos nos limitar a elas. Somos humanos cheios de possibilidades e com um universo de narrativas que foram silenciadas — defende a atriz, que também reconhece avanços na teledramaturgia nacional. — A televisão já tem feito isso. Tivemos “Vai na fé”, e várias outras novelas da Rosane Svartman, tem a atual “Nobreza do amor” [estrelada pelo marido, Lázaro Ramos]. As novelas já estão nesse caminho também, não tem volta.

Na trama, narrada em primeira pessoa, a vida da protagonista dá uma guinada quando começa a conviver com outras mulheres negras: Mildred, jamaicana de 90 anos que foi ativista pelos direitos civis, e a jovem de espírito livre Kemi. Em cena, a tríade é completada pela multiartista Dani Nega e a musicista Layla, que tocam instrumentos, entoam poemas e representam pontualmente algumas cenas.

— Apesar de as duas não encarnarem personagens, as mulheres da trama são movimentadas entre as três. Essa escolha tem a ver com o tema. É um solo que fala que é preciso buscar sua individualidade, mas que ela estará em transformação e será compartilhada, algo que está presente na filosofia africana também — explica Yara.

“Somos humanos cheios de possibilidades e com um universo de narrativas que foram silenciadas”, diz Taís Araujo — Foto: Divulgação/Fernando Thomaz

Por trás de peças aclamadas por público e crítica, como “Prima facie”, com Débora Falabella, e “Lady Tempestade”, com Andréa Beltrão, a diretora já está acostumada a trabalhar narrativas centradas em mulheres. O novo projeto, porém, tocou em novos lugares, conta a artista, que só descobriu na idade adulta ter tido uma bisavó negra — revelação que culminou no jogo teatral virtual “(Des)memória”, sobre o embranquecimento do país.

— Me sinto muito responsabilizada e feliz. Estar levantando essas bandeiras, da arte, do feminismo e do antirracismo, ao lado da Taís e de todas as mulheres negras da nossa equipe, que ocupam os lugares que desejam ocupar, é uma honra. Aprendi para caramba, tanto que, no meu texto do programa, só consegui falar sobre elas — diz.

— A escolha da Yara para dirigir essa peça não foi inocente. Ela é excelente atriz, diretora e mestra, mas, para além disso, tem uma visão do país e de quem ela é nesse contexto. É exatamente esse tipo de aliado que eu quero do meu lado.

Apesar de ter passado a maior parte da carreira na TV e no cinema, Taís conta que o teatro, de onde partiu, é um lugar quase sagrado, a que busca retornar sempre que possível.

— Não tenho dúvida de que ele é meu grande professor. O teatro me cobra, me desafia, mas saio sempre melhor dele. Gera um fortalecimento artístico indubitável, e me responde muitas questões também — diz.

Com 47 anos de idade e mais de 30 de trabalho, a atriz celebra suas conquistas, mas não se vê parando tão cedo. Pelo contrário, sente que, assim como a protagonista Mayah, está em movimento constante:

— Meu desejo é seguir transformando a realidade, através da arte, e me transformando consequentemente — afirma.

  • Onde: Teatro Sesc Ginástico, Centro.
  • Quando: Qui e sex, às 19h. Sáb e dom, às 17h. Até 24 de maio. Estreia quinta (23).
  • Quanto: R$ 60.
  • Classificação: 14 anos.

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