Aos 32 anos, Thaynara OG aprendeu uma pergunta que não fazia parte do seu vocabulário quando as redes sociais explodiram na sua vida em 2015, durante o auge do Snapchat: “De onde vêm minhas demandas?” Entre filtros, comentários diários sobre sua aparência e a lógica da comparação que atravessa a adolescência hiperconectada, a influenciadora — nascida em São Luís (MA), formada em Direito e hoje apresentadora e criadora de conteúdo — transformou insegurança em consciência. E fez disso uma bandeira pública.
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Pesquisas recentes ajudam a dimensionar o impacto dessa lógica de comparação. Um estudo conduzido pela Boston University School of Medicine, nos Estados Unidos, analisou (entre outubro de 2019 e junho de 2021) o comportamento de 175 pacientes atendidos em uma clínica dermatológica ambulatorial. Por meio de questionários, os pesquisadores investigaram como o uso de redes sociais centradas em imagem (como Instagram e Snapchat), aliado ao hábito de editar fotos antes de postar, influenciava o desejo de realizar procedimentos estéticos.
O objetivo era entender por que cada vez mais pessoas chegam aos consultórios trazendo como referência não o próprio rosto, mas versões filtradas de si mesmas. Os resultados, publicados no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, mostraram uma correlação direta entre a intensidade do uso dessas plataformas e a busca por intervenções — relação que se acentuou no período pós-pandemia.
Para Thaynara, essa equação começa cada vez mais cedo e encontra terreno fértil na juventude. “As redes sociais despertam novas demandas que o adolescente nem precisa. A comparação constante gera ansiedade, sensação de desvantagem e até a ideia de que, se não fizer o skincare ou o procedimento viral, está ficando para trás”, afirma.
Quando perguntada sobre o uso cada vez mais precoce de filtros e rotinas de skincare, Thaynara retoma conversas antigas com seu dermatologista. O alerta é direto: a autocrítica adulta já oscila sob pressão — e o impacto é maior em quem ainda não consolidou a autoimagem.
“É comum adolescentes levarem ao consultório uma foto com filtro para tentar reproduzir aquele rosto. Na cabeça deles, isso impacta mais forte. A demanda nasce de algo viral do TikTok, e não de um incômodo real.”
A influenciadora sustenta que a mediação familiar é fundamental para entender o que é desejo próprio e o que é reflexo do feed:
“É preciso perguntar sempre de onde vem a necessidade: se é porque viu algo nas redes ou se realmente incomoda.”
A lipo, a bichectomia e o aprendizado sobre autocobrança
A trajetória de Thaynara também inclui episódios em que a pressão externa pesou mais que a própria vontade. O caso da bichectomia veio antes mesmo da lipo LED e marcou a virada em sua relação com a estética.
“Eu recebia tantas mensagens dizendo que eu ‘ficaria melhor’ se fizesse bichectomia que, mesmo sem saber o que era, fui pesquisar. Em minutos, concluí que precisava. Quase mudei meu rosto por comentários”, conta.
Foi o posicionamento de um médico que interrompeu o impulso: “Ele disse: ‘lá na frente, quando envelhecer, você vai se arrepender’. Aquilo me trouxe para o chão. Percebi que a demanda não era minha, era do subconsciente, bombardeado por mensagens.”
Depois, durante a repercussão da lipo LED, a reflexão se aprofundou:
“Sempre me pergunto: ‘isso vem de mim ou vem das informações que recebo?’. Não demonizo procedimentos, mas hoje tenho muito cuidado para identificar a origem de cada desejo.”
“Parece que colocam uma lupa em cima da insegurança”, ela completa ao lembrar que, como figura pública, cada traço vira assunto. O resultado desse processo foi o amadurecimento da própria validação:
“Se não é algo que me incomoda internamente, passa batido. Recebo muito comentário sobre a posição da minha boca quando falo. Mas é algo que não me incomoda a ponto de querer alterar.”
Comparação e identidade: onde nasce o autocuidado possível
Na era dos padrões inalcançáveis e da circulação constante de corpos moldados digitalmente, Thaynara aponta um ponto central: referência precisa ser construída a partir da realidade de cada corpo, cada território e cada história.
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“Eu, mulher nordestina, com 1,60m e quadril largo, não posso me comparar com alguém de biotipo completamente diferente. A internet só faz sentido quando a gente assume a própria identidade.”, afirma.
Para ela, esse é o papel das criadoras hoje: oferecer diversidade real, não metas impossíveis.
“Quando você assume sua identidade, a comunidade entende, se conecta e se identifica. Não tem como mover mundos e fundos para alcançar algo que não faz parte do seu perfil.”
Ao falar para meninas e adolescentes, Thaynara volta ao ponto de partida: nomear a origem da demanda.
“É preciso desenhar de onde vem cada necessidade. O que é seu? O que o algoritmo colocou na sua cabeça? Isso define uma relação mais segura com seu corpo.”
E complementa com uma orientação que aprendeu na prática: “Inspirar-se em pessoas parecidas com você reduz a ansiedade por padrões inalcançáveis. Cada pessoa tem um perfil diferente. Quando entendemos isso, a comparação fica menos pesada.”
No fim, ela resume o que gostaria que tivesse ouvido antes dos anos de hiperexposição: “Seja sua própria referência.”

