Carla (nome fictítcio) de 27 anos, estava animada com a primeira gravidez até começar a perder suas consultas de pré-natal na clínica da família perto de sua casa, na Zona Norte do Rio, devido às suspensões de atendimento provocadas pela violência. Sem o acompanhamento adequado, descobriu tardiamente uma hipertensão, o que causou uma série de problemas. Após um desmaio no trabalho, a uma hora de distância do seu bairro, foi internada às pressas e teve o parto antecipado. Apesar do susto, ela e o bebê passam bem. Carla é apenas uma das vidas afetadas pelas 516 suspensões de atendimento em unidades de atenção primária da capital, ocasionadas por tiroteios e conflitos, aponta levantamento da Secretaria municipal de Saúde.
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— Hoje, meu filho e eu estamos bem. Mas é horrível saber que, antes mesmo dele nascer, corremos risco de vida por conta da violência na cidade. Infelizmente, meu marido e eu não temos condições de sair do Rio agora, mas depois desse trauma, virou nosso objetivo — diz Carla.
Em média, 38 unidades são impactadas por mês, e diversos serviços deixam de ser oferecidos. Até atividades externas, como visitas domiciliares, também são afetadas; segundo o levantamento, 88 unidades deixam de realizar esse serviço em média.
O estudo aponta que, entre janeiro e julho deste ano, por 516 vezes, foi necessário que alguma unidade de atenção primária (clínicas da família e centros municipais de saúde) suspendesse o atendimento devido aos tiroteios em suas regiões. As Zona Norte e Oeste da capital são as mais afetadas. Atualmente, pelo menos três clínicas da família estão fechadas devido à violência e não têm previsão de reabertura: Maestro Celestino, em Marechal Hermes; Portus e Quitanda, em Costa Barros; e Dr Ruy da Costa Leite, em Santa Cruz.
— Tentamos trabalhar o máximo de dias possível, mas algumas unidades são diretamente prejudicadas pela violência da cidade. Sem uma estratégia eficaz de segurança pública, infelizmente os problemas de saúde continuarão. Tudo está interligado — afirmou Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde.
Segundo o Instituto Fogo Cruzado, entre janeiro e setembro deste ano, o município registrou 1.187 tiroteios, 302 mortos e 325 feridos. Desse total, 424 tiroteios, 130 mortos e 200 feridos ocorreram em ações ou operações policiais. A Zona Norte concentra cerca de 66% desses registros, enquanto a Zona Oeste representa 27%.
Para Daniel Hirata, professor de sociologia e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, as ações e operações policiais são ferramentas necessárias no combate à criminalidade, mas isoladamente não constituem uma política eficaz de segurança pública.
— Operações policiais não são uma política de segurança pública, são instrumentos. No cenário atual do Rio, são necessárias, mas precisam ser acompanhadas e ajustadas conforme as necessidades. Quando utilizadas isoladamente, mostram-se ineficazes e prejudicam outras áreas da cidade, como a saúde — explicou Daniel.
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Até o momento, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio teve um prejuízo de R$ 215 mil em unidades de atenção primária, com manutenção, reparos e reposição de equipamentos devido aos impactos da violência.
— Enquanto não houver diálogo entre secretarias e governos federal, estadual e municipal para combater a criminalidade, o Rio continuará apresentando números alarmantes de tiroteios. A pura troca de tiros não gera resultados positivos para policiais nem para cidadãos — alertou Robson Rodrigues, cientista social e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.