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outubro 16, 2026
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'Tocar Bach é como fazer ginástica artística nu', diz Víkingur Ólafsson, que estreia no Rio

Por · outubro 16, 2026
'Tocar Bach é como fazer ginástica artística nu', diz Víkingur Ólafsson, que estreia no Rio


Víkingur Ólafsson, 42, estava sorridente em Nova York, depois de encerrar com a Filarmônica de Berlim a parte norte da turnê que passa por Bogotá, São Paulo e Buenos Aires, liderada pelo regente titular, Kirill Petrenko. Uma semana antes, o pianista islandês tocara com a célebre orquestra em Berlim, e uma piada discreta não saía de sua cabeça.
– Só lembrava de Leonard Cohen ao contrário: “First we take Manhattan, then we take Berlin” – brincou, em entrevista online ao GLOBO. – Mas é isso, tocar com esses caras de BerlinPhil no Carnegie Hall… não tem como ser melhor.
Substituto do russo Daniil Trifonov, que alegou problemas de saúde na turnê da BerlinPhil, Ólafsson traz nos óculos redondos certo ar entre o conservador e o geek, enquanto defende, no repertório e na execução, liberdades pouco convencionais em seus álbuns pela Deutsche Grammophon (DG).
Às 18h30 deste domingo (18), na Sala SP, será o solista dos berlinenses tocando o Concerto nº 1 de Brahms no primeiro de dois concertos beneficentes da fundação TUCCA, com ingressos de R$ 1.600 a R$ 5.000. A renda vai para o combate ao câncer infantil, e a noite se completa com “Assim Falou Zaratustra”, poema sinfônico de Richard Strauss eternizado na trilha do “2001” de Kubrick.
Na segunda (19), enquanto a BerlinPhil e Petrenko tocam Tchaikovsky e Elgar em SP, Ólafsson fará sua estreia no Rio, levando ao Municipal o recital do álbum “109”, em que a sonata nº 30 (op. 109) de Beethoven é orbitada por Bach e Schubert. O programa (sem intervalo) começa às 19h, com ingressos de R$ 50 a R$ 600.
Depois de lançar seu registro das “Variações Goldberg”, de Bach, com toques muito pessoais – um equivalente pianístico à “Odisseia” de Homero relida por Nolan —, o músico somou mais de 1,2 bilhão de plays nos streamings, uma façanha na música clássica. Agora, Ólafsson anuncia “Continuum II”, álbum com pequenas peças e transcrições de corais de Bach, que devem estar no bis dos recitais.
Suas interpretações mudam constantemente. Gostaria de saber, primeiro, o que você traz agora ao Rio, depois de gravar “109” e de apresentar esse repertório em tantos lugares.
Depois que você investe tempo num álbum como Opus 109, grava-o e sai em turnê, ele se transforma numa espécie de jardim dentro de você. As estações mudam, e ele continua crescendo, às vezes de maneira selvagem. Faz umas seis semanas que não toco essa música em concerto. Quando eu chegar ao Rio com esse repertório, vou ter que cuidar das plantas. E creio que mesmo que esses compositores estivessem vivos e tocassem suas próprias obras, nem eles teriam a chave definitiva da música. Porque tocariam de maneiras diferentes a cada noite, a cada ano. Vou levar esse álbum no momento atual da minha vida, que é diferente daquele em que o gravei.
Há trechos que você decidiu alterar em relação à gravação, por julgar que achou a melhor forma?
Em “109”, estava bastante influenciado por Arthur Schnabel (1882-1951), que foi o primeiro pianista a gravar as sonatas de Beethoven na íntegra, nos anos 1930. Já na turnê, comecei a me interessar por detalhes absolutamente malucos das indicações de Beethoven, que ninguém faz.
Quais, por exemplo?
Minha favorita é perto do fim do primeiro movimento da Sonata nº 30, opus 109. Há um momento lindíssimo: temos aqueles acordes. Tudo para. Um acorde, um silêncio. Outro acorde, outro silêncio. E então surge algo como um coral. Eu tocava essa passagem num andamento totalmente diferente do restante, como se fosse uma revelação, ou uma oração. Até que, certa vez, olhando a partitura, pensei: “Aqui ele não escreveu nada. O que acontece se eu mantiver exatamente o mesmo andamento que vinha sendo usado antes?” Isso mudou tudo para mim, e eu adorei. E estava ali, diante dos nossos olhos.
Um caso de fidelidade ao que o compositor indica.
Mas é como viajar no tempo: você troca ideias com ele e também precisa trazer suas próprias ideias para a conversa. Acho que, geralmente, as pessoas vão longe demais ao tentar se eximir de qualquer responsabilidade, fingindo ser humildes servidores da partitura, limitando-se a executar as indicações de Beethoven e nada mais. Isso também é muito tedioso.
O compositor com quem você mais gosta de dialogar é Bach, sem dúvida. Mas além da liberdade que ele oferece, existe algo de religioso nessa dedicação, embora você não seja um crente. Por que mergulhar profundamente nesses corais luteranos?
É verdade, há muita espiritualidade na minha relação com Bach, que é onipresente e diária. Depois de terminar meus estudos, recorri a Bach para aprender a me avaliar e me transformar num músico melhor e mais forte. E a música dele faz isso melhor do que qualquer outra música que conheço, porque expõe tanto suas qualidades quanto suas fraquezas. Tocar Bach é como fazer ginástica artística nu, você não consegue esconder nada. Quanto aos corais, eu estava em casa, onde construí um estúdio de gravação embaixo da residência, chamado The Nutshell (A Casca de Noz), com um piano vertical. Os corais de Bach são, de certa forma, a música mais gloriosa que existe. Alguns são tão aventureiros, tão bonitos, e eu os toco o tempo todo. Então pensei: por que não compartilhar isso? Assim, “Continuum II” é como um diário em permanente construção, um registro da minha relação com Bach.
Como Bach te ajudou a encontrar suas fraquezas?
Gravei Bach pela primeira vez perto dos meus vinte anos, em Leipzig. Gastei todo o meu dinheiro e pretendia enviar o disco a todos os agentes e às orquestras; eu precisava de concertos. Quando recebi o CD, meu mundo desabou: aquilo me pareceu completamente errado. O rubato estava exagerado, e alguns trechos me pareciam artificiais, sem a verdadeira beleza nem o significado da música. Eu tinha sido romântico demais, e Bach sempre é uma questão de proporção. Decidi voltar a Leipzig e regravar tudo. Minha conta bancária ficou zerada, mas fiquei feliz por ter feito aquilo. Aprendi muito.
Depois de ultrapassar 1 bilhão de reproduções no Spotify de tudo que gravou, você sente que alcançou um público mais amplo? Estourou a bolha?
A bolha já explodiu. A música clássica é hoje mais ouvida do que nunca. Beethoven escreveu sua música para uma plateia lotada de 250 ricos de Viena. Imagine dizer a Bach, que, 300 anos depois, as Variações Goldberg, dedicadas a um homem com insônia, seriam ouvidas por milhões de pessoas. Esta é uma era de ouro! Agora temos as plataformas de streaming, e as pessoas podem ir com toda a liberdade de Leonard Cohen a Bach. Tem quem me mande mensagens dizendo que faz spinning na academia ouvindo as minhas gravações, dá para acreditar? Nos anos 2000, eu entrava na Tower Records em Nova York e gastava muito comprando CDs. Só que a seção de música clássica ficava escondida, numa espécie de gaiola de vidro. Sinto saudade da Tower, mas não da parede de vidro.

'Tocar Bach é como fazer ginástica artística nu', diz Víkingur Ólafsson, que estreia no Rio