Pouco mais de dois meses após o início do Tolerância Zero, programa da Prefeitura do Rio para ordenar o comércio ambulante na orla da Zona Sul, os camelôs encontraram uma alternativa para driblar a fiscalização. Em Copacabana, eles deixaram o calçadão e passaram a ocupar a faixa de areia — área também proibida para a atividade. O GLOBO percorreu a orla do bairro durante a tarde e a noite em dois dias da semana passada e constatou a presença de mais de cem vendedores entre os postos 2 e 5, alguns avançando sobre o passeio.
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A ocupação irregular se soma a outro problema que persiste à beira-mar: o estacionamento desordenado de veículos elétricos, como autopropelidos, espalhados aos montes pelo calçadão. Tudo ocorre à vista de agentes de fiscalização do município, cuja presença é mais ou menos ostensiva conforme o dia.
— Eu estou sempre aqui pelas redondezas, mas não no mesmo ponto, por conta da fiscalização. Ontem mesmo (uma quarta-feira), eu estava mais para lá (em direção ao Posto 1) e não me deixaram ficar — disse uma cartomante que vendia seus serviços sobre uma mesa instalada no trecho de areia em frente ao Copacabana Palace.
153 ambulantes
Na última quinta-feira, a equipe de reportagem contou 153 pontos de comércio ambulante na faixa de areia junto ao calçadão, entre os postos 2 e 5. O trecho mais crítico é o Posto 3, onde, além da maior quantidade de camelôs, as abordagens aos pedestres são frequentes, para oferta de produtos e serviços, como caipirinha e passeios turísticos. Chamam a atenção ainda as araras de roupas distribuídas pelo espaço. Em uma distância de poucos metros entre dois quiosques havia mais de dez barracas concentradas.
— Fica até difícil sair do calçadão e ir para a areia, porque tem lugares em que não há espaço para passar. Eles colam uma canga ao lado da outra, e não tem como passar — reclama o aposentado Augusto Aguiar, de 69 anos.
Insistência. Vendedores de passeios turísticos e de cangas abordam pedestres
Márcia Foletto
Procurada, a prefeitura afirma que a Seop faz fiscalização permanente entre o Leme e o Leblon. Durante a abordagem, explica, os agentes orientam os ambulantes ilegais a deixarem o local. Caso permaneçam, os equipamentos são apreendidos. Artesãos também devem manter o calçadão vazio, para garantir o livre trânsito de pedestres, reforça o município. Com relação aos veículos elétricos, a prefeitura diz que são realizadas fiscalizações para combater o aluguel irregular nos calçadões da orla e que 90 ciclomotores foram apreendidos este ano.
Produtos e serviços
A diversidade de produtos é uma marca da camelotagem. Há bijuterias, lembrancinhas, cangas, bonés, quadros, artesanato e bebidas alcoólicas, como michelada, além de barracas de açaí, milho e churros. A oferta de serviços também é variada: inclui confecção de tranças, tatuagem e passeios de lancha, de helicóptero e de asa delta. Itens à venda são dispostos sobre mesas ou panos esticados na areia. Em alguns casos, em vez das araras, os comerciantes penduram as roupas na estrutura de vidro que protege as escadas para os banheiros subterrâneos dos quiosques.
Morador do bairro, o analista de sistemas Igor Lopes, de 55 anos, diz que, em comparação com o cenário anterior — quando o calçadão foi ocupado por produtos e restava apenas um “corredor” para os pedestres —, a situação melhorou. Ele ressalta, porém, que a presença de vendedores informais na areia é um ponto de atenção que exige o reforço da fiscalização:
— Antes, eles chegavam a colocar cangas e peças de artesanato de um lado e do outro da calçada, fora a venda de drogas. Ou seja, a circulação do pedestre ficava muito comprometida. Embora tenha havido uma melhora significativa, a questão agora é a prefeitura manter a fiscalização para que a desordem não tome conta novamente e só haja camelô que tenha licença para atuar. Eu não vejo mal em a pessoa vender seu artesanato ali, por exemplo, desde que seja de uma forma controlada.
Ambulantes exibem mercadorias apesar ada presença de agentes da SEOP
Márcia Foletto
A venda de drogas mencionada pelo morador ainda é uma realidade no calçadão — em julho, uma série do GLOBO mostrou o comércio controlado por facções criminosas na orla. Na semana passada, a equipe de reportagem foi abordada algumas vezes com ofertas do tipo, sendo uma delas no Posto 4. A estratégia é a seguinte: um vendedor se aproxima oferecendo, inicialmente, cigarros. Em seguida, pergunta se a pessoa usa maconha, pronunciando o nome do entorpecente em inglês ou espanhol. Questionado sobre o que mais ele tinha, um homem respondeu:
— Temos tudo: maconha, haxixe, cocaína e MD. Aceitamos Pix.
A Polícia Militar informou que “realiza trabalhos de inteligência no sentido de interceptar e prender os envolvidos nas práticas criminosas na orla”, como a venda de entorpecentes. Já a Polícia Civil diz que “mantém atuação permanente no combate ao tráfico de drogas”.
De volta à desordem urbana, ainda no Posto 4, flagramos uma barraca de churros sobre o calçadão, à beira da ciclovia, na última quinta-feira. Naquele dia, os agentes da Guarda Municipal, da Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) e da Polícia Militar se concentravam no canteiro central e na calçada junto aos prédios. Já no sábado, quando O GLOBO retornou a Copacabana, a fiscalização era mais ostensiva no calçadão. Havia uma quantidade menor de ambulantes, mas ainda expressiva: 106 deles, entre os postos 2 e 5. Por volta das 19h30, um fiscal da Seop passou e fez sinal com a mão pedindo a um vendedor de milho que deixasse o local. Ele, então, se deslocou para outro ponto da areia.
— O calçadão deixou de ser um ambiente de convivência e virou um camelódromo. Não queremos que os autônomos sejam prejudicados, mas eles precisam ter um lugar adequado. O calçadão é um dos maiores cartões-postais do Rio. Se está bagunçado, acaba que é essa imagem que a gente transmite para as pessoas que visitam a cidade. A situação agora está bem melhor, mas, se a prefeitura não acompanhar de perto, o problema pode se transferir para a areia — argumenta a administradora de empresas mineira Patrícia Carvalho, de 35 anos, moradora do bairro há uma década.
O Tolerância Zero, iniciado em 16 de julho, prevê a remoção de estruturas irregulares e a desocupação de áreas públicas. A medida vale para faixa de areia, calçadão, ciclovias, praças, canteiros, além de todos os espaços públicos entre os prédios e a beira-mar no trecho de 8,5 quilômetros que se estende por Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Ruas internas desses bairros foram incluídas em etapas posteriores do programa.
Longe dos turistas
Ao ser perguntada sobre a atual situação dos ambulantes, uma vendedora de ímãs decorados com cartões-postais do Rio, que fica no Posto 5, respondeu:
— Agora, não podemos mais ficar no calçadão. Ficamos na faixa de areia. E, às vezes, passa o guarda e pede para nos afastarmos dez metros para dentro da praia. Assim, fica difícil de os turistas verem nossas mercadorias. O comércio, que era a alma do calçadão, perdeu sua força. É muito triste, porque há muitas famílias que dependem desse trabalho. Concordo que estava excessivo, mas bastava fazer um controle, sem expulsar os vendedores daqui. Com a gente, que vende artesanato, eles são até menos rigorosos, mas, com o pessoal das carrocinhas, eles pegam mais pesado. Uma vez, um vendedor de milho que estava aqui na beira do calçadão correu até o mar para que o guarda não conseguisse levar as coisas dele.
Coordenadora-geral do Movimento Unido dos Camelôs (Muca), Maria de Lourdes reclama que a prefeitura cortou o canal de diálogo com os ambulantes e não atendeu às demandas da categoria. Antes do programa, diz ela, o combinado era que as pessoas iam continuar trabalhando, mas numa fileira mais organizada. E, em paralelo, seria feito o cadastro dos vendedores.
— Nossa vida no momento está um desastre total. Tínhamos ali muitas pessoas trabalhando e que, agora, estão desesperadas. Suas condições de vida caíram drasticamente, já que a orla é o lugar que garantia uma renda melhor. Há pessoas passando necessidades. No grupo dos camelôs, vi gente vendendo a geladeira para pagar o aluguel; e uma senhora com um filho autista que vai entregar o apartamento e morar na rua, porque não tem de onde tirar dinheiro — relata. — Eu fico muito assustada com pessoas que vivem bem e não se preocupam um pouquinho com pessoas que lutam para sobreviver. O tempo todo tentam marginalizar as pessoas, fazendo parecer que quem está ali trabalhando está errado.
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Tolerância Zero: camelôs vão do calçadão para a areia para tentar driblar fiscalização da prefeitura
