O presidente da China, Xi JInping, chegou nesta quarta-feira a Washington para a terceira reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, em menos de um ano, em um importante sinal de diálogo entre as duas maiores economias do mundo, mas com uma longa lista de desavenças cuja resolução não ocorrerá em um piscar de olhos. Da guerra tarifária, hoje em uma delicada trégua, à concorrência no setor de alta tecnologia e aos conflitos armados que afetam direta e indiretamente os dois países. Internamente, Trump vive o momento mais difícil de seus dois mandatos, mas Xi não navega mares exatamente tranquilos dentro de casa.
— A situação não é das melhores nem para Trump, nem para Xi. E isso explica o esforço dos dois para melhorar a relação bilateral em nível de líderes. Na base ainda é uma relação marcada por tensões, pela competição extrema, sem indicação de que mudará tão cedo — detalha ao GLOBO Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, ao GLOBO. — Mas no campo da cúpula política, existe um esforço de maior entendimento.
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Um sinal desse esforço foi visto na quarta-feira, quando Trump encontrou Xi Jinping na pista da Base Aérea de Andrews, algo que jamais fez com um visitante estrangeiro. O último presidente americano a conceder a gentileza foi Barack Obama, durante visita do Papa Francisco, em 2015. Depois de esperar por 45 minutos, Trump o recepcionou efusivamente ao pé da escada do avião presidencial. Depois, o acompanhou até o veículo reservado, aguardando até que a porta se fechasse. Além dos líderes, as primeiras-damas americana, Melania Trump, e chinesa, Peng Liyuan, estavam presentes.
— Não deixa de ser uma contradição de Trump. Por um lado, ele sempre foi um falcão em relação à China, com uma postura muito dura sobre o comércio e sobre a disputa entre as economias — destaca Santoro. — Por outro, existe esse fascínio individual do Trump pela figura do líder forte, mesmo quando se trata do comandante de um regime autoritário, como é o caso de Xi Jinping, de Vladimir Putin de de Kim Jong-un.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama Melania Trump cumprimentam o presidente chinês, Xi Jinping, e sua esposa, Peng Liyuan, na chegada à Base Conjunta Andrews, em Maryland, em 23 de setembro de 2026
BRENDAN SMIALOWSKI / AFP
Nesta quinta-feira, os dois líderes se reunirão na Casa Branca com uma pauta extensa. A começar pela guerra econômica. Em outubro do ano passado, os dois firmaram uma trégua após reunião na Coreia do Sul, com o lado americano prometendo reduzir a pressão tarifária em troca de concessões, como a exportação de minerais críticos. Apesar de acusações de violações, EUA e China parecem concordar com uma extensão da “Trégua de Busan”, que vence em novembro, mas divergem sobre o novo prazo.
Trump e Xi podem se ver mais duas vezes até o fim do ano: em novembro, na cúpula do fórum da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em Shenzhen, na China, e na reunião de líderes do G20, em Miami, na qual o líder chinês ainda não confirmou presença.
“Não estou otimista quanto a um grande acordo neste mês. Mas sinais de que ambos os lados estão dispostos a criar os mecanismos para um diálogo mais aprofundado sobre a construção de modelos econômicos mais saudáveis e equilibrados seriam relevantes”, escreveu, em artigo, Lizzi Lee, pesquisadora no Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute. “A intenção em nível de liderança ainda precisa se traduzir em incentivos burocráticos em ambos os lados. Nenhuma cúpula isolada consegue realizar isso de uma só vez.”
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No fim de semana, o vice-premier chinês, He Lifeng, se reuniu com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em um encontro classificado pelo americano de “bem-sucedido”. Segundo ele, os dois lados discutiram uma potencial isenção tarifária de até US$ 30 bilhões, sem detalhar se isso poderia incluir um relaxamento das restrições impostas por Washington ao setor de alta tecnologia chinês.
Presidente da China, Xi Jinping, e a primeira-dama chinesa, Peng Liyuan, acenam do avião presidencial na Base Aérea de Andrews, nos EUA
BRENDAN SMIALOWSKI/AFP
Como antecipou a agência Reuters, Xi deve viajar na companhia de uma delegação de CEOs de empresas de vários setores, incluindo o automobilístico, hoje barrado no mercado americano, e de telecomunicações, envolvido com sanções e acusações de espionagem. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, nem todos esperam algum um anúncio de grande porte, como o da compra de 200 aviões da Boeing e a indicação de novos pedidos em breve feito em maio, quando Trump esteve em Pequim.
Em entrevista à CNBC, Bessent afirmou que discutiu com He a criação de um mecanismo para a notificação de incidentes envolvendo modelos de inteligência artificial (IA). Segundo ele, “a transparência entre as duas maiores potências mundiais em IA é muito importante”, amplificando uma discussão que ganha corpo dentro dos Estados Unidos, em meio à disputa entre as duas maiores economias do planeta pela primazia no setor.
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No início do mês, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendeu uma redução no ritmo do desenvolvimento dos modelos de IA, citando riscos à segurança dos EUA, e foi acompanhado por vários bilionários das Big Techs. Rejeitando os argumentos, o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, disse que se trata de um “Manual da Guerra Fria para o setor de IA” . Em discurso na ONU, na terça, Trump atacou mecanismos de controle da tecnologia e fez comparações negacionistas com a crise climática. Alguns líderes do Vale do Silício estarão no jantar de Estado na Casa Branca.
— O que vemos agora é a expressão de uma rivalidade mais profunda, porque na prática cada um desses governos está criando sua própria coligação, defendendo um certo modelo de regulação — aponta Santoro. — Então não há sinais de que as tensões vão diminuir. O que vemos são dois países em busca da liderança da corrida global pela inteligência artificial e tentando tornar seus modelos no novo padrão internacional.
O Donald Trump que recebeu Xi Jinping em Washington tem bem mais problemas do que em outubro do ano passado, na cidade sul-coreana de Busan. Seus esforços para encerrar a guerra na Ucrânia foram inócuos diante da insistência da Rússia em manter o conflito, e os ataques ucranianos, como o que deixou parte de Moscou em chamas, mostraram o poder de resiliência do presidente Volodymyr Zelensky.
A guerra contra o Irã lançou o Oriente Médio em terreno desconhecido, compartilhando globalmente os custos de uma ofensiva que Trump não sabe como terminar. Internamente, sua aprovação está em níveis historicamente baixos, e a oposição democrata deve conquistar ao menos uma das Casas do Congresso nas eleições de novembro. No pior cenário, pode se tornar um presidente “pato manco”, sem poder para governar.
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Embora com maior controle interno, Xi não vive dias sem preocupações. Há sinais de desaquecimento da economia chinesa, como a queda na demanda dos consumidores e conhecidos problemas no setor imobiliário, ao mesmo tempo em que as exportações avançam com força e ajudam na relação de equilíbrio. No segundo trimestre, o PIB avançou 4,3%, o menor ritmo desde 2022. Além das dificuldades econômicas, o governo conduz um amplo expurgo nos escalões superiores das Forças Armadas e se prepara para reorganizar a liderança no congresso do Partido Comunista no próximo ano. A saúde do líder chinês também se tornou alvo de especulações após sua ausência em um jantar de gala em uma recente viagem à Índia.
Analistas não esperam gestos mais agudos de Xi sobre a guerra na Ucrânia — na qual a China exerce uma postura complexa — ou o conflito no Oriente Médio — ao qual se opõe firmemente. Já a Casa Branca pode usar Taiwan, considerada uma província rebelde por Pequim, como um ativo nas negociações. Em janeiro, o Congresso aprovou um pacote de venda de armas de US$ 14 bilhões à ilha, mas Trump ainda não deu o sinal verde, mesmo diante de protestos de aliados e de parte da cúpula do Pentágono. Anteriormente, os chineses sugeriram que “erros” na condução da política americana para a região seriam “potencialmente perigosos” e trariam consequências.
— O que Xi Jinping tentará fazer é obter dos EUA algum tipo de reconhecimento de linhas vermelhas que não deveriam ser ultrapassadas em Taiwan. Como, por exemplo, sobre a venda de armas ou a transferência de tecnologia mais avançada — destaca Santoro. — Mas se por um lado existe um Trump que, em tese, estaria mais disposto a abrir mão de Taiwan em nome de um grande acordo comercial, do outro estão diplomatas e militares dizendo para não fazer isso, afirmando que ali é uma área estatégica no controle militar do Mar do Sul da China.
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