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Ucrânia acusa EUA de ajudar a Rússia enquanto sofre restrições ao Starlink e ataques que deixam 600 mil sem luz

Por · outubro 14, 2026
Ucrânia acusa EUA de ajudar a Rússia enquanto sofre restrições ao Starlink e ataques que deixam 600 mil sem luz


A Ucrânia acusou os Estados Unidos nesta quarta-feira de ajudar a Rússia ao não alertar sobre a aproximação de mísseis e prejudicar sua capacidade de resposta militar por meio de alterações no sistema Starlink, utilizado pelas forças ucranianas no campo de batalha. Após uma nova ofensiva russa deixar pelo menos três pessoas mortas, 25 feridas e outras 600 mil sem energia elétrica na madrugada, o presidente Volodymyr Zelensky classificou a ausência de alertas sobre os ataques como “completamente injusta” e acusou Moscou de desrespeitar deliberadamente o suposto “cessar-fogo energético” anunciado pelo líder americano, Donald Trump.
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Uma autoridade de alto escalão em Kiev confirmou que os EUA haviam ameaçado, nos últimos dias, interromper o fornecimento de informações de inteligência sobre o lançamento de mísseis russos, utilizadas pela Ucrânia para impedir ataques. Trump negou ter feito essa ameaça, mas fontes da área de Defesa também sugeriram que Washington estaria por trás da redução de velocidade relatada em alguns terminais de internet Starlink, que ajudam as Forças Armadas ucranianas.
— É óbvio que eles [os Estados Unidos] estão ajudando a Rússia por algum motivo — afirmou a autoridade de alto escalão à AFP.
O assessor de Zelensky, Sergiy Beskrestnov, afirmou que os ataques e as restrições à Starlink eram mais do que uma coincidência, uma vez que a rede era “a solução mais eficaz” para proteger a Ucrânia contra drones de ataque russos com propulsão a jato, capazes de voar a velocidades de até 600 quilômetros por hora. Em publicação no Telegram, ele escreveu, sem citar os EUA: “Com suas ações, nossos parceiros estão nos privando de uma das poucas oportunidades que temos de defender o país”.
Conexão perdida
Fontes da Defesa ucraniana afirmaram que a SpaceX, empresa do bilionário do setor de tecnologia Elon Musk, “restringiu unilateralmente o funcionamento dos terminais Starshield […] sem aviso prévio”, prejudicando a conectividade dos drones ucranianos. Musk e a SpaceX não se manifestaram. No entanto, no fim de semana, o bilionário manifestou apoio a Trump, que provocou indignação de aliados ao anunciar um acordo de fornecimento de diesel com Moscou, alvo de pesadas sanções, e anunciou um “cessar-fogo energético”.
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Em Londres, Zelensky pediu nesta quarta-feira que o serviço da Starlink seja restabelecido, acrescentando que conta com a “colaboração dos EUA”. Durante sua fala à imprensa, feita antes de uma reunião com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, Zelensky reconheceu que houve “muitas surpresas de diferentes naturezas” e “com as quais não se pode contar quando existe uma verdadeira colaboração”. O ucraniano alertou, ainda, para consequências caso os ataques russos continuem e o sistema da Starlink permaneça sem funcionar:
— Haverá mortos, é claro. Espero sinceramente que se trate de um erro, talvez um problema técnico grave. Não sei, mas pedimos que seja restabelecido — disse ele ao jornalista Piers Morgan, que havia perguntado qual mensagem ele gostaria de transmitir a Musk.
Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que a Rússia estava atenta a qualquer sinal de mudança no apoio de Washington à Ucrânia, embora tenha ressaltado que “ainda é cedo” para tirar conclusões mais amplas. No fim de semana, Trump também atacou duramente Zelensky, chegando a sugerir que o ucraniano deveria ser substituído na Presidência caso não interrompesse os ataques ucranianos de longo alcance contra a estrutura energética russa.
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Trump, que enfrenta eleições legislativas de meio de mandato decisivas no próximo mês, culpou os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas pela redução da oferta de combustíveis e pelo aumento dos preços nos postos de abastecimento. Especialistas, porém, afirmam que a verdadeira causa são os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciados em fevereiro, que levaram Teerã a bloquear o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de petróleo e gás.
‘Ataque maciço’
Mais cedo, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, relatou na madrugada um “ataque maciço com mísseis balísticos” contra a capital, que atingiu instalações energéticas e provocou interrupções no fornecimento de eletricidade em toda a cidade. Um prédio residencial também foi atingido, e moradores enfrentaram cortes de água e energia. Segundo o premier ucraniano, Serhii Koretskyi, três usinas municipais e instalações ferroviárias estatais em cinco regiões do país foram atacadas.
A Força Aérea ucraniana informou que a Rússia lançou 39 mísseis balísticos e de cruzeiro e 128 drones durante a madrugada. Desse total, quatro mísseis e 115 drones foram abatidos. O Ministério da Defesa russo confirmou a realização de um “ataque maciço” e afirmou que suas forças atingiram seis usinas termelétricas e uma subestação que abasteciam Kiev e seus arredores, além da região de Kharkiv. Moscou disse, no entanto, que os alvos incluíam instalações de comunicação e energia utilizadas pelas Forças Armadas ucranianas.
Zelensky acusou Moscou de atacar deliberadamente as instalações energéticas que deveriam estar protegidas pelo entendimento anunciado por Washington. No X, ele escreveu que “a Rússia teve como alvo justamente a infraestrutura abrangida pelo cessar-fogo anunciado pelo presidente americano”, e “o ataque foi inteiramente deliberado e demonstrativo em sua escala”. O presidente disse, ainda, que Moscou “nunca demonstrou antes um desrespeito tão ostensivo pelos EUA” e “não considera fortes as declarações do presidente americano”.
Desde o anúncio da trégua feito por Trump, Zelensky afirmou repetidamente que a Ucrânia está disposta a suspender ataques contra refinarias de petróleo e outras instalações energéticas russas, desde que Moscou adote a mesma medida. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, por sua vez, declarou que Kiev não merece a trégua, argumentando que a suspensão das hostilidades permitiria que a Europa abastecesse a Ucrânia com novos armamentos.
Falhas nos alertas
Os bombardeios desta quarta-feira marcaram a segunda noite consecutiva de ataques russos com mísseis contra Kiev. Nas duas ocasiões, projéteis balísticos atingiram alvos na capital antes que as sirenes de alerta aéreo fossem acionadas. A Ucrânia depende de sistemas de satélites americanos para rastrear lançamentos russos, emitir avisos à população e tentar interceptar os mísseis antes que atinjam seus alvos.
Zelensky disse ter informado ao premier canadense, Mark Carney, que a Ucrânia não recebeu “nenhum aviso prévio de nossos parceiros” sobre os lançamentos de mísseis balísticos russos, pela segunda vez nesta semana. O ucraniano não apresentou detalhes sobre a falha. Na terça-feira, ele já havia denunciado a ausência de um alerta antecipado durante o que classificou como um ataque “particularmente vil” contra a capital.
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Posteriormente, o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, afirmou que a cooperação de inteligência com os EUA continuava e atribuiu o atraso nos alertas ao “tipo especial de armamento utilizado pelo lado russo”.
Restrições à Starlink
Em meio aos ataques, autoridades ucranianas também relataram dificuldades nas operações militares provocadas por restrições à velocidade de conexão dos terminais Starlink, sistema de comunicação via satélite da empresa SpaceX, de Elon Musk. O assessor militar de Zelensky, Serhii Beskrestnov, conhecido pelo codinome Flash, afirmou que a companhia implementou durante a madrugada um limite de velocidade de 160 km/h nos terminais, afetando o chamado StarShield, pacote de serviços militares da empresa.
“Nossas forças de defesa não receberam nenhum aviso sobre essa restrição, o que levou à interrupção de diversas missões. Está claro que essa medida não pode ser uma coincidência e está relacionada à atual situação política”, disse ele em uma publicação no Facebook.
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Em outra manifestação, o assessor ressaltou que a Starlink é a ferramenta mais eficaz para permitir que sistemas interceptadores derrubem os drones russos de propulsão a jato desenvolvidos recentemente. O sistema tornou-se essencial para fornecer acesso à internet às tropas ucranianas e permitir o controle de drones enviados contra alvos russos. Em fevereiro, uma decisão de Musk de impedir o acesso das forças russas à rede dificultou o avanço de Moscou e provocou confusão entre comandantes militares do país.
Zelensky também afirmou que os Estados Unidos ameaçaram restringir o compartilhamento de informações de inteligência caso a Ucrânia não aderisse ao cessar-fogo proposto por Trump. O americano negou que Washington estivesse retendo essas informações. No ano passado, os EUA suspenderam temporariamente o compartilhamento de informações com Kiev depois de um confronto público entre Trump e Zelensky no Salão Oval.
Do lado russo, o Ministério da Defesa afirmou ter abatido 902 drones ucranianos durante a madrugada em diferentes regiões do país, incluindo Moscou e a Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia em 2014. O Sberbank, maior banco russo e controlado pelo Estado, informou que seu centro de processamento de dados em Balakovo, na região de Saratov, foi alvo de um ataque com drones. Segundo o primeiro vice-presidente da instituição, Alexander Vedyakhin, todos os sistemas e serviços continuavam funcionando normalmente.
(Com Bloomberg)

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