Um dia depois de um ataque contra membros do grupo palestino Hamas no Catar, que provocou críticas internacionais vindas até mesmo de aliados, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, exigiu que as autoridades cataris expulsem qualquer pessoa ligada à organização, sugerindo que poderia lançar uma nova ação caso nada seja feito. Além do Catar, aeronaves israelenses realizaram um ataque contra a milícia houthi no Iêmen, que deixou 35 mortos e mais de 100 feridos, de acordo com autoridades locais.
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Em uma mensagem divulgada na véspera do aniversário dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, nos EUA, Netanyahu traçou um paralelo entre os atentados cometidos pela rede al-Qaeda e a ação do Hamas de 7 de outubro de 2023, que deixou quase 1,2 mil mortos em Israel e levou à guerra na Faixa de Gaza.
— Naquele dia, terroristas islâmicos cometeram a pior barbárie contra o povo judeu desde o Holocausto — afirmou o premier, em vídeo divulgado em suas redes sociais.
Em seguida, disse que, ao atacar a casa onde estavam as lideranças do Hamas em Doha, seu governo “foi atrás dos mentores terroristas que cometeram o massacre de 7 de outubro”, e criticou o emirado, o acusando de dar abrigo seguro a organizações terroristas, como o Hamas.
— [O Catar] abriga terroristas, financia o Hamas, dá aos seus chefes terroristas vilas suntuosas, dá-lhes tudo — afirmou o premier, antes de lançar uma ameaça. —E eu digo ao Catar e a todas as nações que abrigam terroristas: ou os expulsam ou os levam à justiça. Porque se não o fizerem, nós o faremos.
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Na segunda-feira, em uma ação que envolveu dez aeronaves e foi planejada por meses, Israel bombardeou uma casa em um bairro de alto padrão em Doha, onde estariam membros do alto escalão do Hamas — cinco pessoas morreram, mas o homem apontado como o principal alvo, Khalil al-Hayya, negociador-chefe do Hamas, sobreviveu. Entre os mortos estava um integrante dos serviços de segurança do Catar.
O ataque foi recebido por uma enxurrada de críticas, a começar pelo governo do Catar, que chamou a ação de violação de sua soberania, argumento repetido por outras monarquias do Golfo Pérsico e pelo secretário-geral da ONU, que lembrou do papel do país árabe nas negociações sobre a guerra em Gaza, no qual atua como mediador. O presidente da França, Emmanuel Macron, e o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, chamaram o ataque de “inaceitável”, e o líder dos EUA, Donald Trump, tentou se desvencilhar, afirmando que a decisão final foi de Netanyahu.
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As críticas não parecem ter incomodado Israel. Em entrevista à rádio israelense 103 FM, Danny Danon, embaixador do país na ONU, disse que “nem sempre agimos no interesse dos Estados Unidos”, e que o ataque contra Doha, capital do Catar, não foi contra o país árabe, mas sim “contra o Hamas”.
— Não estamos contra o Catar, nem contra nenhum país árabe, atualmente enfrentamos uma organização terrorista — disse Danon.
Na rede social X, o ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que “o longo braço de Israel atuará contra seus inimigos em qualquer lugar”, e que “não há nenhum lugar onde possam se esconder”.
O ataque aéreo contra a capital do Catar não foi o único conduzido por Israel desde segunda-feira. Houve bombardeios contra uma base militar em Latakia, na Síria, contra o leste do Líbano, apesar de um cessar-fogo em vigor, e contra o Iêmen, onde 35 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.
Segundo autoridades locais, os ataques se concentraram na capital, Sana, e atingiram bairros residenciais, uma instalação médica, um prédio do governo e o aeroporto da cidade, já danificado por outro bombardeio ocorrido há algumas semanas.
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Ao justificar a ação, o Exército israelense afirmou, em comunicado, ter atingido “campos militares onde foram identificados membros do regime terrorista; a sede de relações públicas militares dos houthis e um local de armazenamento de combustível”.
Apesar de localizados a mais de mil quilômetros de distância de Israel, os houthis — que controlam parte do Iêmen — têm usado drones e foguetes para atacar o território israelense desde o início da guerra em Gaza, e intensificaram ações contra navios que trafegam pela costa iemenitas, hoje uma das mais perigosas zonas de navegação do planeta. Em resposta, o grupo é bombardeado com certa frequência pela aviação israelense, que por vezes conta com o apoio militar de americanos e britânicos.