As condições meteorológicas podem ter contribuído para a queda do helicóptero que transportava o cantor Rick, da dupla com Renner, e outras quatro pessoas, na região do Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici, na Serra de Santa Catarina. A aeronave perdeu o sinal por volta das 13h de segunda-feira e foi localizada pelas autoridades cerca de 24 horas depois, na terça-feira. Todos os ocupantes morreram.
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Imagens de radar: Chuva se intensificou na Serra catarinense no momento em que helicóptero com Rick decolava
No momento do desaparecimento, a região estava sob alerta vermelho do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que indicava situação de “grande perigo” para tempestades. A previsão apontava possibilidade de chuva superior a 60 milímetros por hora ou a 100 milímetros em um dia, ventos acima de 100 km/h e queda de granizo.
Para Eduardo Pellizzaro, piloto comercial, especialista em Segurança Operacional pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e pesquisador aeronáutico, a meteorologia pode ter desempenhado um papel no acidente. Ele ressalta, porém, que somente a investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) poderá determinar o que ocorreu e qual foi o peso das condições meteorológicas na queda.
— Havia o deslocamento de uma frente fria muito intensa naquela região, entre a serra catarinense e o litoral. Vimos que muitas aeronaves fizeram longos desvios para contornar essa formação, mas tudo indica que o helicóptero colidiu frontalmente com a frente fria. Agora cabe à investigação do Cenipa entender o quanto isso influenciou o acidente. Mas são sempre vários fatores numa cadeia de eventos que leva a um acidente — explica.
O que significa ‘colidir’ com uma frente fria?
Apesar da expressão usada pelo especialista, uma aeronave não “bate” literalmente em uma frente fria como se ela fosse uma barreira física. Uma frente é uma zona de transição entre massas de ar com características diferentes, principalmente de temperatura e umidade.
Quando uma massa de ar frio avança sobre uma região ocupada por ar mais quente, forma-se uma frente fria. Esse encontro pode favorecer o desenvolvimento de nuvens, chuva, ventos fortes, turbulência e tempestades.
Para a aviação, o problema está justamente nas condições atmosféricas associadas a essas formações. Dependendo da intensidade do sistema, a frente pode provocar mudanças bruscas de visibilidade, direção e velocidade dos ventos, além de turbulência e tempestades.
Em uma situação como a registrada na Serra catarinense, portanto, “colidir frontalmente” com a frente fria pode significar que a aeronave entrou em uma área de condições meteorológicas severas, em vez de conseguir desviá-la.
Por que helicópteros podem ser afetados?
As condições adversas não são exclusivas de voos de helicóptero. Tempestades e frentes meteorológicas podem representar riscos para diferentes tipos de aeronaves. Entre os fenômenos que exigem atenção estão a turbulência, a redução de visibilidade, rajadas de vento, chuva intensa, granizo e, dependendo das condições de temperatura e umidade, a formação de gelo na aeronave.
Em tempestades, também podem ocorrer correntes de ar ascendentes e descendentes e mudanças rápidas nas condições do vento. Esses fenômenos podem dificultar a operação e exigir que o piloto altere a rota ou interrompa o voo.
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As alternativas, no entanto, dependem das características da formação meteorológica, da aeronave e das condições encontradas. Uma frente pode se estender por centenas ou milhares de quilômetros, enquanto tempestades associadas a ela podem alcançar grandes altitudes.
Por isso, diante de uma área de tempo severo, uma das estratégias é desviá-la. Em determinadas situações, também pode ser possível passar por baixo ou por cima de uma formação específica, mas essas alternativas não são necessariamente viáveis ou seguras. Nuvens de tempestade podem atingir altitudes muito elevadas e as condições próximas ao solo também podem impedir uma passagem por baixo.
Como o mau tempo pode ter contribuído para a perda do sinal?
Segundo Pellizzaro, as condições meteorológicas também podem ajudar a explicar por que a aeronave deixou de ser detectada pelos sistemas de monitoramento.
— Existem alguns sistemas diferentes que atuam na geolocalização de uma aeronave. Quando ela voa normalmente, ela emite um sinal que se chama transponder, que dá a identificação de altura, velocidade, direção que está indo. Mas é preciso ter um radar em solo para receber essas informações. Porém, nessa situação, se a aeronave tiver descido por conta das condições do tempo, voando em meio aos vales, isso pode ter influenciado na não recepção do radar que fica na região do Morro da Igreja, relativamente próximo ao acidente — afirma.
O transponder transmite informações que podem ser utilizadas pelos sistemas de vigilância do tráfego aéreo. A capacidade de um radar terrestre de receber o sinal, entretanto, depende também da posição da aeronave e das características do terreno.
Em uma região montanhosa como a Serra catarinense, o relevo pode dificultar a cobertura de determinados sistemas quando uma aeronave voa em baixa altitude. Segundo o especialista, esse cenário pode ter contribuído para a interrupção do acompanhamento da aeronave.
Pellizzaro afirma ainda que alguns sistemas que poderiam indicar uma situação de emergência não foram acionados, o que levanta a possibilidade de que o acidente tenha ocorrido de forma repentina.
‘Lá em cima não sabemos como estava’
O empresário e caçador de javalis Marcos Daniel Valadares, de 42 anos, que auxiliou nas buscas por conhecer a geografia da região, relata que as condições observadas no solo eram diferentes das que poderiam estar sendo enfrentadas pelo helicóptero.
Segundo ele, no momento aproximado do desaparecimento, por volta das 13h de segunda-feira, ainda não chovia na área. O tempo, porém, piorou posteriormente.
— Durante esse período em que eles estavam sobrevoando, a nossa visão aqui de baixo estava de um tempo bom, que piorou mais tarde. Mas lá em cima não sabemos como estava. De repente o temporal já estava se preparando, mas no período do desaparecimento ainda não estava chovendo.
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A diferença entre as condições observadas no solo e aquelas encontradas em altitude é relevante para a investigação. Uma aeronave pode entrar em uma área de nuvens ou de turbulência antes que os efeitos do sistema meteorológico sejam percebidos da superfície.
Investigação deverá apontar a sequência de eventos
O helicóptero foi localizado na terça-feira, após cerca de 24 horas de buscas. Rick, da dupla com Renner, estava entre os cinco ocupantes mortos.
A presença de uma frente fria intensa e o alerta vermelho emitido pelo Inmet são elementos que deverão ser considerados na análise das circunstâncias do acidente. Eles, porém, não permitem, isoladamente, estabelecer a causa da queda.
A investigação do Cenipa deverá analisar uma série de fatores, incluindo as condições meteorológicas, a trajetória da aeronave, os dados disponíveis sobre o voo, as condições do helicóptero e eventuais decisões operacionais tomadas antes e durante o deslocamento.
Como destaca Pellizzaro, acidentes aeronáuticos normalmente não são explicados por um único fator, mas por uma sequência de eventos e condições que precisa ser reconstruída pelos investigadores.
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