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Uma centelha de inquietação

O documentário israelense “Naza” foi aplaudido durante quase meia hora no Festival de Cinema de Veneza. Um recorde. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri. Os dois diretores, Yuval Abraham e Rachel Szor, já haviam ganhado um Oscar no ano passado com o documentário “Sem chão”. A ira das autoridades israelenses confirmou a importância […]

Documentário sobre Gaza que aborda assassinato de civis por Israel será lançado no Festival de Cinema de Veneza


O documentário israelense “Naza” foi aplaudido durante quase meia hora no Festival de Cinema de Veneza. Um recorde. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri. Os dois diretores, Yuval Abraham e Rachel Szor, já haviam ganhado um Oscar no ano passado com o documentário “Sem chão”.
A ira das autoridades israelenses confirmou a importância e a urgência do trabalho de Abraham e Szor. Primeiro, o ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, ameaçou revogar a cidadania da dupla de diretores, acusando-os de traição ao Estado. Pouco depois, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Eyal Zamir, anunciou a intenção de avançar com medidas legais contra o documentário. Finalmente, o próprio Netanyahu apareceu a condenar a dupla: “Estamos combatendo a incitação ao antissemitismo em todo o mundo, mas, quando ela vem de dentro de nós, é intolerável.”
Antes das ameaças, “Naza” era um documentário sobre as atrocidades cometidas pelo Exército israelense contra a população palestina; depois delas passará também a ser recordado como um filme que confirmou o pendor totalitário, violento, vingativo e persecutório do governo de Netanyahu.
A perseguição a qualquer obra de arte não valida necessariamente a qualidade desta. Valida, contudo, a sua urgência. Se alguém a quer apagar, é porque precisa ser conhecida.
Por que é que o governo israelense — com todo o seu poder — tem tanto medo de um documentário?
Benjamin Netanyahu sabe que pode arrasar Gaza. Pode atacar e ocupar países vizinhos. Não consegue, contudo, controlar as diferentes versões da História, e isso aterroriza-o.
“Naza” junta testemunhos de 24 soldados e agentes dos serviços de inteligência israelenses. Temos pois uma história contada a partir do interior. É o incêndio visto por quem o ateou.
O regime do apartheid, na África do Sul, não foi derrubado pelo uMkhonto weSizwe (Lança da Nação), o braço armado do Congresso Nacional Africano. O apartheid foi derrubado, em larga medida, por contadores de histórias, como Nadine Gordimer, a escritora judia, nascida em Joanesburgo, que ganhou o Prêmio Nobel da Literatura em 1991. Nadine e os seus companheiros (Breytenbach, Coetzee, Richard Rive, Athol Fugard e tantos outros) denunciaram ao mundo a crueldade do apartheid. Muito mais importante, conseguiram despertar consciências dentro das próprias famílias, e das instituições, em que o apartheid estava assente.
Uma história não destrói um tanque de guerra. Pode, contudo, induzir o homem que o conduz a se perguntar o que está fazendo ali.
O que os contadores de histórias fazem é introduzir a dúvida — uma centelha de inquietação na consciência adormecida dos perpetradores. Netanyahu sabe disso. O perigo de “Naza” não está apenas no que o filme mostra ao mundo. Está no que pode mostrar aos israelenses. Aos soldados israelenses.
Há obras que conquistam o direito de serem vistas não apenas pelo que expõem, mas pelo medo que provocam naqueles que não querem que as vejamos.
Eu quero muito ver “Naza”. E você?

Uma centelha de inquietação

Autor

BRCOM