O futebol brasileiro é um ambiente tão instável que o reencontro entre os finalistas da última Copa do Brasil, quatro meses depois, juntou no mesmo campo dois times com escalações, técnicos e ambientes modificados. Ambos já viveram crises e cobranças, ainda lidam com desconfianças, e nenhum tem cara de time pronto. Dos 22 que iniciaram o jogo de 21 de dezembro passado, apenas 11 começaram a partida de ontem em Itaquera. Cinco jogadores que participaram daquela final sequer pertencem mais aos clubes. Nas áreas técnicas, Fernando Diniz mudou de lado, do Vasco para o Corinthians, e foi substituído por Renato Gaúcho no clube carioca.
Um espectador neutro que tenha assistido ao jogo pode ter terminado a jornada com a sensação de que não usou tão bem aquelas duas horas do seu domingo. Mas pode ter concluído, também, que em muitos casos as razões para o espetáculo ruim estão na própria instabilidade dos clubes e na atitude dos jogadores. Os números do jogo ajudam a escancarar a responsabilidade dos atletas.
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O primeiro tempo teve pouco mais de 26 minutos de bola rolando, e um Corinthians que confundia sua urgência de vencer em casa com excesso de agressividade: fez 12 das 20 faltas que aconteceram apenas na primeira etapa. Antes do intervalo, o gol de Bidu e a expulsão de André, levando os donos da casa a defender mais atrás e fazendo o Vasco ter pressa para tentar fazer o jogo andar, modificaram o panorama: a segunda etapa teve só nove faltas, e o tempo de jogo subiu para pouco mais de 29 minutos. O que não significa, aliás, que em algum momento este tempo tenha sido realmente aproveitado com um grande futebol. A bonita triangulação corintiana, com o ponto alto para o passe de Garro para Bidu marcar, pareceu uma miragem no deserto.
No caso específico do Vasco, a imagem que fica é de uma corrida contra o tempo de Renato Gaúcho, tentando tatear em busca de uma formação que o convença num elenco que não oferece tanta fartura. Nos 12 jogos no cargo em pouco mais de um mês de trabalho, já passou por um trio de volantes com um meia criador em uma das pontas, caso de Nuno Moreira; e ontem também teve um trio, mas com atacantes pelos lados: Brenner e Andrés Gomez. Neste meio tempo, tentou Tchê Tchê pela direita e Rojas como meia ofensivo, alterou as laterais, mas ainda parece sem encontrar uma solução convincente, especialmente para atacar.
Em Itaquera, Brenner tinha como função ajudar no combate a Bidu e auxiliar Paulo Henrique num setor em que Fernando Diniz faz o Corinthians acumular jogadores. Foi justamente por ali que os donos da casa construíram o gol da vitória, diante de uma marcação descoordenada que deixou o lateral corintiano livre. Com bola, Brenner tinha muito campo para percorrer e, como não é exatamente um ponta, raramente tinha condições de atacar a área como um segundo atacante e se juntar a David.
Este último, aliás, também não vem bem, mas ontem raramente foi colocado no jogo pelos companheiros. Tchê Tchê foi usado como uma espécie de terceiro homem de meio, numa função avançada que tampouco o favoreceu. E o Vasco, num eterno cobertor curto entre uma formação mais segura que lhe tira criação ou uma mais solta que periga expor o time, ainda sofre sem equilíbrio.
Até aqui, o Vasco de Renato tem ótimos jogos contra o Palmeiras e Cruzeiro, especialmente em termos de aplicação. No mais, teve passagens de bom futebol contra Fluminense, Botafogo e São Paulo, mas sempre com uma irregularidade que não chega a ser inesperada em um trabalho recém-iniciado e num elenco com carências. Desde a final da Copa do Brasil, perdeu gols e um toque de criação sem Rayan, Coutinho e Vegetti. O meio da tabela e um campeonato sem sustos parecem ambições razoáveis neste momento.
O 2 a 2 de Botafogo e Internacional teve momentos monótonos alternados com outros caóticos entre dois times que ainda têm muitos problemas. Mas o toque de qualidade foi Danilo, mais uma vez o melhor dentre os 22 em campo. Sua capacidade de fazer diversas funções como meia e atacar a área para ser decisivo com gols é marcante. A cada atuação, mesmo num Botafogo desordenado, vai ampliando suas chances de ir à Copa.
O Flamengo deu uma exibição de qualidade técnica e organização ofensiva no primeiro tempo em Belo Horizonte. O resultado, que virou goleada num golaço coletivo no fim do jogo, foi construído com grandes exibições do quarteto ofensivo e também de Evertton Araújo. O time não foi tão brilhante sem a bola, tanto nos contragolpes do rival quanto nas vezes em que estava posicionado atrás. É um ponto de atenção neste time fortíssimo.
Foi belíssima a finalização de John Kennedy, assegurando a vitória do Fluminense a cinco minutos do fim do jogo no Maracanã. A questão é que não era preciso ter sofrido tanto num jogo em que o tricolor foi tão superior à Chapecoense. Anderson, goleiro da equipe catarinense, fez dez defesas na partida. Tamanho desperdício de oportunidades, num jogo em que finalizou 30 vezes, poderia ter feito falta contra um rival mais forte.

