A Unidos da Tijuca vai contar na Sapucaí , no carnaval de 2026, “uma história preta do Brasil” , com o enredo que homenageia a escritora negra Carolina Maria de Jesus. O anúncio foi feito na noite desta segunda-feira, durante evento na sua quadra, na Francisco Bicalho, no Santo Cristo, que contou com a presença da filha da homenageada, Vera Eunice de Jesus Lima.
A escola é a décima das 12 do Grupo Especial a definir os enredos do próximo desfile. Faltam apenas Portela e a estreante Acadêmicos de Niterói. A Grande Rio ainda não anunciou oficialmente o tema de seu desfile, mas já sinalizou que o enredo terá ligação com o manguebeat, movimento musical e cultural criado pelo pernambucano, Chico Science.
—Nós fizemos questão que o título do enredo fosse de fato o nome da Carolina Maria de Jesus, para que essa história jamais volte a ser apagada, como foi numa época que a gente viveu. Momentos muito ruins na nossa história. E a Carolina representa cada um de nós. Cada um de nós conhece uma Carolina, ou é uma Carolina Maria de Jesus. Então eu queria que esse enredo fizesse parte não só da Unidos da Tijuca, mas que ficasse para a história como a escola de samba pode mostrar o quanto as pessoas menos privilegiadas têm de valor e merecem ser aplaudidas no maior espetáculo da terra —disse Edson Pereira, o carnavalesco da Unidos da Tijuca, ao anunciar o enredo.
Vera Eunice de Jesus Lima, filha de Carolina , agradeceu a homenagem:
—Entre as várias homenagens que minha mãe tem recebido essa foi o máximo, ainda mais que o enredo é Carolina Maria de Jesus, nome dela. Então só agradecer e vamos ganhar, né pessoal?
Carolina Maria de Jesus é considerada uma das mais importantes escritoras negras do País. Ela viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona central da cidade de São Paulo (SP), sustentando a si mesma e a seus três filhos como catadora de papéis.
Seu primeiro livro, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, de 1960, vendeu cerca de 10 mil exemplares em apenas uma semana e foi traduzido para 13 idiomas, sendo distribuído em mais de 40 países.
Carolina publicou outras obras, como “Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-Favelada”, onde refletia sobre sua vida fora da favela, e escreveu diversos poemas, peças de teatro e músicas, parte dos quais só foi publicado postumamente.
Carolina passou seus últimos anos em Parelheiros, um bairro periférico de São Paulo, longe dos holofotes que marcaram brevemente sua vida. Morreu em 1977, aos 62 anos, em relativo esquecimento, mas seu legado ressurgiu com força nas décadas seguintes, à medida que movimentos sociais e acadêmicos redescobriram sua obra.
Hoje, Carolina Maria de Jesus é reconhecida como uma das mais importantes escritoras do Brasil, um símbolo de resistência e uma das primeiras vozes a dar protagonismo literário à vivência das mulheres negras e das populações marginalizadas. Sua obra inspira debates sobre desigualdade, racismo e o papel das periferias na construção da identidade nacional.

