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Universalização do saneamento depende do que fica debaixo da terra

Por · novembro 4, 2026
Universalização do saneamento depende do que fica debaixo da terra


O Brasil tem prazo para mudar a realidade do saneamento. Pela Lei 14.026/2020, o Marco Legal do Saneamento, 99% da população deve ter acesso a água potável e 90% a coleta e tratamento de esgoto até 2033. Cumprir essa meta exige instalar milhares de quilômetros de redes em poucos anos. Boa parte do resultado dependerá de algo que o cidadão não vê: os tubos e conexões enterrados sob ruas e calçadas.
A escolha desses materiais costuma ser tratada como detalhe de engenharia, mas afeta diretamente o investimento. Uma rede que falha antes do previsto exige obras de reparo e interrompe o abastecimento ou a coleta. Também consome recursos que poderiam ir para a expansão do serviço. Em um setor que precisa acelerar, cada substituição antecipada significa atraso.
Em São Paulo, o critério técnico dessas compras são as NTS (Normas Técnicas Sabesp). Elas definem requisitos de material, dimensões, desempenho e ensaios para tubos, conexões e componentes instalados nas redes da companhia. O produto que não comprova conformidade não participa das licitações, qualquer que seja o preço oferecido.
O alcance dessas normas vai além da área de atuação da Sabesp. Como a companhia é referência técnica no setor, outras concessionárias, construtoras e gestores públicos adotam seus parâmetros nos próprios processos de compra. Na prática, a certificação virou uma linguagem compartilhada pelo mercado, que indica quais fornecedores conseguem atender às exigências das redes.
O raciocínio que ganha força nas contratações é o do custo ao longo da vida útil do ativo. Em infraestrutura enterrada, o valor pago pelo tubo é só uma parte da conta. Vazamentos, infiltrações e trocas precoces geram despesas de reparo, perda de eficiência e interrupção do serviço. Em geral, esses custos superam a economia de uma compra pelo menor preço unitário.
Esse cálculo ajuda a explicar a expansão do PEAD (polietileno de alta densidade) nas redes de água e esgoto. O material reúne flexibilidade, resistência química e estanqueidade nas uniões, atributos ligados a menor risco de vazamento e de infiltração e a maior durabilidade. O desempenho, porém, só é assegurado quando o produto passa pelos ensaios previstos nas normas.
A pressão sobre a cadeia de fornecedores tende a crescer. Com a desestatização da Sabesp, concluída em 2024, a companhia se comprometeu a antecipar a universalização em sua área de atuação, o que amplia o volume de obras previsto para os próximos anos. Leilões de concessão em outros estados seguem na mesma direção. Para quem fabrica, o desafio é ganhar escala sem abrir mão da conformidade técnica.
Um dos fabricantes que se prepararam para esse ciclo é a Asperbras, com sede em Penápolis (SP) e mais de 40 anos de mercado. A empresa incorporou a certificação Sabesp ao processo produtivo e atende a três normas da companhia: a NTS 0048, para tubos de polietileno PE 80 e PE 100 usados em ramais prediais de água de 20 mm e 32 mm de diâmetro externo, a NTS 0194, para tubos de polietileno em redes de distribuição de água, e a NTS 0187, complementar às normas de tubos de PVC. Cumprir esse conjunto envolve ensaios e controles da matéria-prima ao item acabado, com rastreabilidade em cada etapa.
O portfólio da companhia para saneamento e esgoto inclui PE de esgoto e PVC coletor (tubos e conexões), além de conexões e ramais prediais em PEAD. O conjunto cobre da rede pública à ligação de cada imóvel. A Asperbras concluiu uma ampliação de R$ 50 milhões em sua capacidade produtiva, voltada às obras do Marco do Saneamento, e integra o ranking Valor 1000.
Para concessionárias, construtoras e prefeituras, critérios técnicos tendem a ganhar peso à medida que os investimentos avançam, e a comprovação de desempenho passa a disputar com o preço o papel de fator decisivo. Se a meta de 2033 depende de redes que durem, a dúvida que fica para os próximos anos é direta: as licitações vão escolher pelo preço da compra ou pelo custo da obra inteira?

Universalização do saneamento depende do que fica debaixo da terra