Do verde ao vermelho, passando pelo azul e pelo marrom, algas e bactérias marinhas estão sendo utilizadas para produzir pigmentos destinados à maquiagem. A tecnologia, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio de seu Núcleo de Inovação Tecnológica (Inova UFRJ), investiga novas fontes naturais de coloração para cosméticos e abre possibilidades para a criação de produtos a partir de organismos aquáticos.
A pesquisa é coordenada pela professora Anita Valle, do Laboratório de Bioquímica e Biotecnologia de Algas (LBBAlgas), do Instituto de Química da UFRJ. O trabalho consiste na obtenção de pigmentos a partir da biomassa de diferentes organismos e na sua incorporação a bases de maquiagem. Na prática, as cores são produzidas a partir de quatro fontes: o verde da clorela, o azul da espirulina, o marrom do sargaço e o vermelho da prodigiosina, pigmento produzido por uma bactéria marinha.
“Nosso trabalho é identificar, obter e estudar pigmentos produzidos por esses organismos, avaliando sua aplicação em formulações cosméticas. A cor é extraída de uma matéria-prima de origem biológica e incorporada a uma base de maquiagem. O desafio científico é entender o comportamento desses pigmentos na formulação, incluindo aspectos como estabilidade, qualidade e segurança”, explica a professora Anita Valle.
O diferencial está na origem das cores. Enquanto a indústria cosmética utiliza pigmentos sintéticos, minerais e vegetais, a pesquisa amplia as possibilidades de utilização de matérias-primas aquáticas na fabricação de maquiagens. A proposta é investigar alternativas para dar cor a produtos de beleza, com potencial de aplicação futura no mercado.
Professora Anitta Valle coordena a pesquisa
Divulgação
Entre os organismos estudados estão a clorela e a espirulina, microalgas conhecidas também por sua utilização em suplementos alimentares. Já o sargaço, uma alga parda que pode chegar às praias trazida pelas correntes marítimas, representa uma possibilidade de aproveitamento dessa biomassa para a obtenção de pigmentos.
“O uso de pigmentos de origem natural abre novas possibilidades para a indústria cosmética e permite explorar a biodiversidade aquática de uma forma inovadora. As algas são fontes de compostos de interesse biotecnológico, e nossa pesquisa busca transformar essa matéria-prima em cores para a maquiagem, ampliando as alternativas aos pigmentos convencionais. Também investigamos o aproveitamento de diferentes organismos e matérias-primas, como o sargaço que chega à costa, associando inovação e sustentabilidade. É uma forma de aproximar a pesquisa científica do cotidiano das pessoas e mostrar o potencial dos recursos marinhos para o desenvolvimento de novos produtos”, diz Anita Valle.
A pesquisa também investiga a rastreabilidade das matérias-primas e a presença de possíveis substâncias alergênicas, já que a tecnologia ainda está em desenvolvimento e não passou por testes em grande escala.
Para Anita Valle, o estudo também demonstra como o conhecimento produzido nas universidades públicas pode contribuir para o desenvolvimento de novos produtos e soluções para o mercado, aproximando a ciência das demandas da sociedade.
“A universidade tem um papel importante na transformação do conhecimento científico em inovação. Quando desenvolvemos uma tecnologia com potencial de aplicação industrial, criamos oportunidades para parcerias, transferência de tecnologia e novos investimentos em pesquisa. É uma forma de aproximar a produção científica do setor produtivo e ampliar o retorno do investimento feito em ciência para a sociedade”, afirma.
A novidade poderá ser conhecida de perto nos dias 29 e 30 de outubro, durante o Green Rio, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, a Inova UFRJ apresentará as maquiagens ao público, com um camarim montado no estande da universidade. Uma maquiadora profissional fará demonstrações nos visitantes e mostrará como as diferentes cores podem ser aplicadas no rosto.
Universidade do Rio desenvolve maquiagem com pigmentos extraídos de algas e bactérias marinhas; Entenda
