Apesar dos apelos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) seguiu o plano traçado em setembro e manteve ontem a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano, pela terceira vez consecutiva. O nível, atingido em junho, é o maior desde julho de 2006. A decisão já era esperada de forma unânime no mercado financeiro.
No comunicado, o BC manteve a sinalização de que os juros devem permanecer neste patamar por “período bastante prolongado” para alcançar a meta de inflação de 3%. Mas, pela primeira vez, afirmou categoricamente considerar que o nível atual é suficiente para atingir esse objetivo.
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Com isso, ganha força a expectativa do mercado financeiro de que o BC manterá a Selic em 15% em dezembro, a última reunião do ano, só iniciando os cortes em 2026, entre janeiro e março.
— O BC não quis passar nenhuma mensagem de quando começa a cortar, ou se está próximo, ainda fica muito em aberto — avaliou o superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, Fernando Gonçalves.
Ele ressalta que é crucial saber se o BC já incorporou às suas projeções de inflação a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, aprovada ontem:
— Se não tiver sido incorporado ainda, a chance é de ter que revisar para cima as projeções de inflação, o que aumenta a chance de postergação (do corte de juros) para março ou até mesmo abril.
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Antes da decisão do Copom ontem, o Ibovespa renovou, pela oitava vez consecutiva, suas máximas, com alta de 1,72%, aos 153.294 pontos. Analistas tinham a expectativa de uma sinalização sobre o início da queda da Selic, o que não ocorreu. Já o dólar comercial recuou 0,7%, a R$ 5,36.
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, afirmou que a decisão do Copom ficou alinhada ao cenário-base de sua equipe na corretora, que prevê que a Selic só vai começar a cair em março de 2026, chegando a ao fim do ano que vem ainda em dois dígitos: 12% ao ano.
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— A política fiscal expansionista e as incertezas globais podem exercer pressões sobre a demanda doméstica, o déficit em conta corrente e a inflação ao longo de 2026, o que tende a limitar o espaço para o ciclo de corte de juros no próximo ano — afirmou o economista-chefe da XP
Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs, avaliou que “o Copom não está baixando a guarda no combate à inflação” e não sucumbiu a um otimismo exagerado mesmo diante da queda das projeções do próprio BC para o IPCA.
Ele observa que o mercado de trabalho segue “dinâmico”, indicando que, na sua visão, o contexto ainda não garante trajetória de queda da inflação.
Dúvida sobre impacto da isenção do IR em 2026
Para Denis Ferrari, gestor na Kinea Investimentos, o Copom adotou uma postura bastante conservadora em relação às perspectivas inflacionárias, mas levantou uma dúvida sobre se as projeções do BC já incluíam o efeito da aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, aprovada ontem pelo Congresso. A medida começa a valer em 2026 e tem potencial de injetar bilhões no consumo.
—Descobriremos na ata — observou, referindo-se ao documento oficial da reunião, que só é divulgado na semana seguinte à reunião do Copom.
Mas o comunicado divulgado ontem já foi suficiente para Ferrari avaliar que o “BC fechou totalmente a porta para corte (dos juros) em janeiro”.
Frederico Catalan, gestor de juros do Opportunity, concorda, mas avalia o comunicado como “neutro”:
— Faz algum reconhecimento sobre melhora na inflação, mas ao mesmo tempo mantém o “bastante prolongado”. A manutenção dessa linguagem me parece pouco compatível com início do ciclo (de queda) em janeiro.
‘Pouca mudança’ no tom duro
A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, também viu “pouca mudança” no tom das palavras do BC em relação à reunião de setembro, que também decidiu pela manutenção da Selic em 15% ao ano, mas observou “maior confiança na atual estratégia, mas mantendo o tom duro”. Para ela, os diretores do BC seguem preocupados com os gastos públicos e seu efeito na inflação:
— O risco permanece sendo o impacto da expansão fiscal para o próximo ano, principalmente o reaquecimento da demanda doméstica com o aumento da isenção de IR a partir de janeiro, além de novas iniciativas de gastos fiscais devido ao ano eleitoral.
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Brendan McKenna, estrategista de câmbio do Wells Fargo, concluiu que o comunicado do Copom “é bastante consistente com um Banco Central extremamente cauteloso e não disposto a afrouxar a política monetária enquanto persistirem os riscos externos”.
Diferentemente dos observadores brasileiros, o banco americano ainda projeta corte de 0,25 ponto percentual da Selic em janeiro, mas o analista pontuou ontem que “os riscos estão cada vez mais inclinados para um início mais tardio do ciclo de flexibilização”.
Corte em dezembro fora da mesa
Arnaldo Lima, da Polo Capital, avalia que a maior confiança demonstrada pelo Copom na estratégia atual de juros aumenta as chances de um início de cortes em janeiro. A expectativa é de uma redução inicial de 0,25 ponto percentual, chegando ao final de 2026 em 12%.
— Parece que estão mais confiantes de que a taxa de juros afetou a economia, conforme o esperado — afirmou, destacando que a posição conservadora da diretoria do BC em meio à mudança dos integrantes e do regime de metas mostra fortalecimento da institucionalidade da autoridade monetária, que tem autonomia em relação ao Executivo. — Parece que o CNPJ fala mais alto do que o CPF dos diretores. Estamos colhendo os frutos da diretoria com pouco tempo (de autonomia, iniciada em 2021).
Marco Caruso, chefe de Política Monetária e Mercados do Santander, avalia que um início dos cortes em dezembro praticamente saiu da mesa. Para quem já projetava cortes a partir de janeiro ou março, o comunicado não deve alterar o cenário.
— Porém, para quem trabalhava com cortes apenas após abril, o reconhecimento de avanços na desinflação e o recuo da projeção do IPCA no cenário de referência podem antecipar essa discussão.— afirmou.
Cobranças do governo crescem
Os analistas concordam que o BC mostrou agora maior convicção em relação à condução da política monetária mais contracionista. Até a reunião anterior, em setembro, o Copom afirmava avaliar se o patamar de 15% seria suficiente para levar a inflação de volta à meta se mantido por “período bastante prolongado”. Desta vez, houve indicação de maior confiança nos resultados da estratégia atual de política monetária — mas não foi aberta uma brecha para discussão sobre queda de juros.
A postura rígida do BC, mesmo com alguns sinais de moderação da inflação, tem aumentado as cobranças de integrantes do governo por uma redução de juros. Lula, que nomeou Gabriel Galípolo para a presidência do BC, disse recentemente que o Copom “vai precisar começar a baixar os juros”. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi na mesma linha em evento na terça-feira, ao afirmar que, se fosse diretor do BC, “votava pela queda”.
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As estimativas de inflação, no entanto, justificam a manutenção da Selic, pois continuam acima da meta. No prazo em que o Copom trabalha, agora o segundo trimestre de 2027, a projeção é de 3,3%. Para o fim deste ano, a estimativa caiu de 4,8% para 4,6%, ainda acima do teto da meta, de 4,5%.
Além disso, o Copom ressaltou que o cenário traz expectativas desancoradas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho, que “ainda mostra dinamismo”.
Ainda assim, o comunicado reconheceu “algum arrefecimento” da inflação cheia e das medidas subjacentes nas últimas leituras inflacionárias. Segundo o documento, a “trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica” ocorre conforme esperado pelo Copom.
Quanto ao cenário externo, o BC afirmou que o ambiente “ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos”, o que “exige particular cautela por parte de países emergentes”.

