A expectativa do setor de café, após o presidente Donald Trump revelar, em entrevista à Fox News na terça-feira, que deve baixar as tarifas sobre café importado pelos Estados Unidos, é que o produto brasileiro seja beneficiado, já que o Brasil é o principal exportador para o mercado americano, com 30% do total. Trump não citou nominalmente o Brasil, mas já se especula redução de alíquota de 50% para 10%, patamar mínimo imposto a outros produtos brasileiros. O objetivo, porém, é trazer a alíquota para zero, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
- Expectativa: Brasil vê chance de retomar espaço no mercado americano de café com possível alívio tarifário citado por Trump
- Míriam Leitão: Exportadores brasileiros de café esperam queda da tarifa de importação americana para ao menos 10%
Reforçando as declarações de Trump, ontem o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, indicou que o governo em breve anunciará reduções nas tarifas de importação sobre café, frutas e outros alimentos. Isso ocorre após a derrota no Partido Republicano nas eleições locais da semana passada. Bessent não deu detalhes.
Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, diz que a entidade mantém contato permanente com o vice-presidente Geraldo Alckmin, encarregado de conduzir as negociações, além de conversar com empresas de torrefação e órgãos do governo dos EUA.
- Reflexo do ‘shutdown’: Dados de outubro sobre emprego e inflação nos EUA provavelmente não serão divulgados, diz Casa Branca
Ele lembra que o café teve o maior aumento de preços no mercado americano, com reajuste de 21%, no acumulado dos últimos meses, índice nove vezes superior à média geral da inflação dos EUA. Segundo Matos, o café seria o principal produto alimentício com o maior peso na alta dos preços.
Segundo Matos, os dados da inflação estariam por trás da manifestação de Trump sobre a possibilidade de reduzir as tarifas.
O Cecafé enviou ao governo brasileiro dados sobre a queda de vendas do produto brasileiro ao mercado americano: 46% em agosto, quando o tarifaço entrou em vigor, 52,8% em setembro e 54,4% em outubro. É um prejuízo enorme, diz Matos, já que o Brasil vem perdendo espaço nos blends (mistura de grãos de diferentes origens) das principais marcas nos EUA:
— A ordem executiva do governo dos EUA, de 5 de setembro (que reduziu tarifas para diferentes países e produtos), já beneficiou diversas origens de café, que estão com apenas 10% de tarifas. O Brasil segue com 50%, perdendo totalmente sua competitividade.
- Você sabia que a 1ª parcela do 13º será adiantada este ano? Entenda e veja qual será a sua parcela
Matos diz que o consumidor tende se adaptar a esses novos parâmetros dos blends, e o Brasil não retomará esse espaço se o tarifaço se prolongar.
Celírio Inácio, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) lembra que o próprio governo americano reconheceu que os produtos não produzidos no país, como o café, deveriam ter isenção tarifária.
Mas deixou claro que essa isenção dependeria de acordos bilaterais. Por isso, diz Celírio, o Brasil precisa atuar “com firmeza e agilidade” para incluir o café nessas tratativas.
- Decreto: Maiores empresas de vale-refeição avaliam questionar novas regras do setor na Justiça, mas governo vê baixo risco de revés
— Os preços internacionais estão em alta, os estoques americanos estão baixos e há indisponibilidade de café em outras origens no volume necessário. O Brasil está pronto para responder rapidamente caso o alívio tarifário se confirme — afirma o diretor executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Vinicius Estrela.
Em busca de avanço nas negociações, o chanceler Mauro Vieira teve ontem um rápido encontro, de 5 minutos, com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, em Niágara, no Canadá, à margem da reunião ministerial do G7, para a qual o Brasil foi convidado.
Eles devem se reunir hoje em Washington. Segundo interlocutores do governo brasileiro, a conversa de ontem serviu para manter aberto o canal político entre os dois países e reafirmar a disposição de negociar uma solução.
- Lauro Jardim: nos bastidores da conversa de Vieira e Rúbio falta a política
Os EUA são o maior comprador do café brasileiro, mas em agosto foram ultrapassados pela Alemanha.
Em agosto, o Brasil exportou cerca de 3,14 milhões de sacas de café, uma queda de 17,5% na comparação anual. Em setembro foram 3,75 milhões de sacas de 60kg, recuo de 18,4% em um ano. Já no mês passado as exportações brasileiras de café somaram 4,141 milhões de sacas, uma queda de 20% frente aos 5,176 milhões um ano antes.
De janeiro ao fim de outubro deste ano, o Brasil exportou 33,279 milhões de sacas de café, queda de 20,3% ante os 41,769 milhões registrados nos primeiros 10 meses de 2024. Já a receita cambial teve um incremento de 27,6% na mesma comparação, saltando de US$ 9,968 bilhões para os atuais US$ 12,715 bilhões.
No acumulado entre agosto e o fim de outubro – período de vigência do tarifaço de 50% dos EUA sobre os cafés brasileiros – os americanos adquiriram 983.970 sacas, o que representa um declínio de 51,5% ante os 2,030 milhões aferidos nos mesmos três meses de 2024.
- Reaproximação: Reino Unido e Mercosul se preparam para iniciar negociações comerciais, diz agência
Mas nos dez meses de 2025, os Estados Unidos permanecem como o principal importador dos cafés do Brasil com a compra de 4,711 milhões de sacas, o que implica queda de 28,1% na comparação com o adquirido entre janeiro e outubro de 2024.
Fechando a lista dos cinco principais destinos dos cafés do Brasil entre janeiro e outubro, aparecem Alemanha, com a importação de 4,339 milhões de sacas e queda de 35,4% em relação ao mesmo período de 2024; Itália, com 2,684 milhões de sacas (-19,7%); Japão, com 2,182 milhões de sacas (+18,5%); e Bélgica, com 1,912 milhão de sacas (-47,5%). Todos os dados são relatório estatístico mensal do Cecafé.
No caso das frutas, as principais exportações para os EUA são manga e uva. A Abrafrutas, associação do setor, disse que só vai se manifestar quando houver uma decisão concreta.

