O venezuelano Mervin Yamarte, de 29 anos, acreditava que nos Estados Unidos realizaria o sonho de oferecer à família um futuro melhor. Em vez disso, acabou em uma infame prisão de El Salvador, vítima de espancamentos e abusos constantes. Ele e outros 251 migrantes da Venezuela foram acusados sem provas de pertencer à quadrilha Trem de Arágua e deportados sem julgamentos do território americano para o salvadorenho em 15 de março.
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Cinco migrantes ouvidos pela AFP após o retorno à Venezuela, em 18 de julho, relataram espancamentos constantes, comida estragada e celas de castigo minúsculas, quase sem ventilação, onde alguns chegavam a desmaiar. Eles nunca viram a luz do sol, disse Marvin, relembrando que os carcereiros diziam que os detidos morreriam no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), o megacárcere construído pelo presidente Nayib Bukele para abrigar membros de gangues.
— Era totalmente uma tortura o que estávamos recebendo. Tenho muitas marcas no corpo— afirmou ele, explicando que saiu da Venezuela em setembro de 2023 com o irmão mais novo, Jonferson, porque ambos queriam juntar dinheiro nos EUA para enviar à família.
A longa travessia incluiu a perigosa selva do Darién, entre Colômbia e Panamá, conhecida por animais selvagens e quadrilhas armadas, e que já custou a vida de inúmeros migrantes. No Texas, Mervin conseguiu emprego em uma loja de tortilhas e como operário da construção civil. Mas foi preso em Dallas em 13 de março e, dois dias depois, enviado a El Salvador com base em uma lei de 1798 que permite deportar “inimigos estrangeiros” — até então usada apenas em tempos de guerra.
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O calvário dos 252 venezuelanos no Cecot tornou-se o caso mais emblemático do “maior programa de deportação da história dos EUA”, anunciado pelo presidente Donald Trump ao reassumir o cargo em janeiro. Desde então, milhares de migrantes foram presos. Alguns deportados, como Mervin. Outros, com medo, decidiram voltar voluntariamente, como Jonferson. E outros seguem escondidos.
“Bem-vindos ao inferno”. Foi assim que o diretor da prisão os recebeu, lembrou Mervin. Bukele, o presidente salvadorenho aliado próximo de Trump, disse que os EUA pagaram US$ 6 milhões (R$ 33 milhões) para encarcerar os homens no Cecot. Ao chegarem, acorrentados, foram raspados e receberam roupas brancas. Mervin contou que deixaram apenas um pequeno tufo de cabelo na nuca “para poderem puxar”.
— E aí começaram os golpes, 24 horas por dia — disse Maikel Olivera, outro venezuelano que voltou a Barquisimeto, afirmando que, durante quatro meses, os detentos não tiveram acesso à televisão, jornal, internet, telefonemas, advogados ou visitas. — Eles diziam: ‘Vocês vão apodrecer aqui, vão passar 300 anos presos’.
Dois motins estouraram após espancamentos violentos. Andy Perozo, de 30 anos, mostrou as marcas das balas de borracha que ainda estão espalhadas pelo seu corpo ao definir o cenário como “um inferno”. Ele disse apanhar a cada vez que ia ao médico, enquanto Edwuar Hernández, outro deportado, afirmou que os carcerários jogavam balas de borracha e gás lacrimogêneo nas celas. Segundo Mervin, eles dormiam em camas de metal e só podiam tomar banho às 4h da manhã.
— A comida cheirava podre. Era feijão, arroz, pasta e tortilhas todos os dias. Não dava para ficar descalço, os fungos cobriam os pés.
A prisão de Mervin foi arbitrária. Agentes de imigração buscavam outro venezuelano no apartamento em Dallas quando viram suas tatuagens — escritos de “Forte como mamá”, o nome do avô e a imagem de uas mãos entrelaçadas — e o levaram algemado. Juan Pappier, da ONG Human Rights Watch (HRW), falou em “desaparecimentos forçados” e disse que “todos caíram em um ‘buraco negro’ jurídico, sem proteção legal”.
O governo Trump, por sua vez, alegou que as tatuagens ligavam os deportados ao Trem de Arágua, gangue criada em 2014 na prisão de Tocorón. Mas especialistas dizem que o grupo não usa tatuagens como marca. Segundo autoridades venezuelanas, a maioria dos deportados não tinha antecedentes criminais.
Após meses de negociação, Caracas conseguiu um acordo: a troca dos 252 venezuelanos por 10 americanos detidos na Venezuela. O procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, afirmou que os ex-detidos denunciaram abusos como espancamentos, violência sexual, negação de atendimento médico, aplicação de tratamentos sem anestesia e fornecimento de alimentos e água contaminados. Ele anunciou uma investigação contra Bukele por tortura e maus-tratos.
Como resposta, Bukele criticou o governo de Nicolás Maduro, afirmando no X que o regime chavista aceitou o acordo porque ficou satisfeito com ele: “Agora gritam indignação, não porque discordem do pacto, mas porque perceberam que ficaram sem reféns do país mais poderoso do mundo”, escreveu o salvadorenho na segunda-feira.
Ao desembarcar na Venezuela, nos arredores de Caracas, alguns dos ex-detidos se reuniram com familiares. Ainda assim, não retornaram para suas casas. Segundo o governo, eles passarão por avaliações médicas e entrevistas antes de serem liberados. Caracas afirma que as detenções foram ilegais e que apenas sete dos deportados têm antecedentes criminais relevantes, publicou a agência Reuters.
No reencontro com a família, Mervin queimou as roupas da prisão. Minutos após chegar em casa, em Maracaibo, a quase dez horas de carro a oeste de Caracas, ele abraçou a esposa e a filha de 6 anos. Em seguida, ateou fogo no largo short branco que usou durante seus quatro meses de “inferno”. O irmão Jonferson cortou seu cabelo enquanto ouviam música cristã. A mãe, Mercedes, preparou bisteca, purê e tostones.
— Já passou o sofrimento. Já saímos do inferno — disse Mervin.