Elas estão por toda a parte. Impulsionam vendas, arrastam multidões virtuais e cultivam uma audiência ávida por replicar cada look, cada maquiagem, cada nova dica de viagem. Os números nas redes sociais são superlativos; os contratos, milionários; e a visibilidade, global. Marcas, seguidores e estrategistas de marketing talvez já não imaginem mais um mundo sem as famigeradas influenciadoras digitais. Mas, afinal, como as rainhas da influência dos anos 2025 construíram um império e se tornaram as figuras que conhecemos hoje?
Para tentar contar essa história, é preciso voltar no tempo, há quase 100 anos. Mulheres como a paranaense Aimée de Heeren (1903-2006) e a paulista radicada no Rio Carmen Mayrink Veiga (1927-2017) foram as primeiras a exercer um poder até então restrito ao círculo das altas rodas. Pouco conhecida dos brasileiros, Aimée viveu nos Estados Unidos, foi amiga de Coco Chanel e já vestia peças de Christian Dior nos anos 1940. Carmen, por sua vez, era uma anfitriã irretocável, promovendo as festas mais concorridas em um Rio que ainda era a capital do país. “Ouso dizer que não existiu ninguém como a Carmen. Ela é o símbolo da alta sociedade, das festas à política, da moda à comunicação, e tinha uma presença não como figura adjacente, mas central. Carmen era o espelho da sofisticação”, discorre o historiador e colunista do Globo, Thiago Gomide.
Influenciadora e empresária com mais de 15 anos de carreira e contratos poderosos, Silvia Braz tem em Carmen uma de suas inspirações. Para ela, o conceito de influência já existia em uma era pré-internet. “Antes, as pessoas buscavam informações nas colunas sociais, nas revistas de moda, nos bailes de gala. Mulheres como Carmen, Audrey Hepburn, Coco Chanel e Jackie Kennedy influenciavam comportamentos, estéticas e estilos de vida”, destaca. Com 2 milhões de seguidores só no Instagram, Silvia credita tamanho sucesso à comunicação com responsabilidade e identificação. “Deixou de ser algo que a gente olha de longe para trazer e sentir mais perto. A influência tem uma voz com presença e consistência. É um trabalho diário que requer dedicação, e precisa ter pé no chão para não pirar.”
Não é exagero dizer, então, que as primeiras influenciadoras eram as socialites, termo usado a primeira vez pela revista Time em 1928, designando quem pertencia à elite, com alta exposição pública: mulheres ligadas a grandes empresários ou políticos. Mas esse prestígio vinha também da elegância, da inteligência e do carisma. “O poder simbólico dessas mulheres era tão marcante que muitas vezes ofuscava o dos maridos ou amantes poderosos. A influência não era apenas estética, mas também comportamental. Elas ditavam tendências, inauguravam estilos de vida e configuravam imaginários”, explica Paula Acioli, pesquisadora e especialista em moda e comportamento. “Antigamente, ter relevância significava ter prestígio e ser reconhecida como exemplo de conduta, estilo ou opinião por um círculo relativamente restrito e hierarquizado.”
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Com mudanças em curso, em especial após a Guerra do Vietnã, entre 1955 e 1975, a moda do século XX ganha um dos seus momentos mais importantes, com o movimento hippie dos anos 1960 e 1970. A influência ganha novos contornos, impulsionada pelo feminismo, o maior acesso da mulher ao mercado de trabalho e à participação política. “Há o surgimento da cultura de massa e, recentemente, das redes sociais”, continua Paula. No Brasil, essas transformações também são atravessadas pela indústria. Com a chegada das revistas femininas às bancas a partir dos anos 1960, essas publicações tornam-se o “guia” das mulheres. No comando, Gloria Kalil, Regina Guerreiro e Costanza Pascolato formavam o triunvirato da moda, com ousadia e o espírito do tempo entremeando títulos, textos e opiniões no papel.
A influenciadora Marcella Tranchesi, de 33 anos, afirma que “ouvir e aprender com Costanza, Glorinha e Regina é um privilégio”. E enfatiza: “Sempre foram à frente do seu tempo, cheias de conteúdo e com muito a ensinar”. Filha da empresária Eliana Tranchesi (1955-2012), dona da Daslu, Marcella cresceu entre os espaços da famosa loja de luxo de São Paulo, fundada em 1958. Durante décadas, o empreendimento foi reduto de endinheirados e reunia grandes grifes nacionais e internacionais. Tornar-se blogueira, com uma boa bagagem e histórico familiar, foi um caminho natural. “Comecei aos 20 e, desde então, muita coisa mudou, mas o coração da influência se mantém. Mais do que nunca, quem nos acompanha busca verdade, identificação, pessoas e histórias reais”, diz.
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Marcella, que vem trilhando os primeiros passos como empresária, à frente da confeitaria Doce Aquarella, na capital paulista. Mais um passo à frente, chegamos à era das blogueiras, nos anos 2000, com o advento da internet. Os blogs eram uma espécie de diário virtual, mas transformaram-se em negócio no final da década, atraindo o interesse de marcas em comprar espaços de publicidade nas plataformas. Pioneira no negócio, a pernambucana Camila Coutinho viu em seu site, Garotas Estúpidas, criado em 2006, uma oportunidade de transformá-lo em algo mais. “O blog é um superproduto e, quando comecei, com 18 anos, não havia em quem me espelhar. É preciso ter humildade para reconhecer os fenômenos que surgem na internet e cuidar da nossa comunidade.” Ela mesma tornou-se espelho para as que vieram depois.
Rostos da Geração Z, (os nascidos entre 1990 e 2010), como Malu Borges e Lelê Burnier, compartilham seu lifestyle e momentos de intimidade, criando, assim, comunidades fiéis, prontas para elogiá-las e defendê-las dos haters. “Conquistar influência hoje é rápido. Mas se manter interessante, presente e conectado com o público exige mais: constância, reinvenção, escuta e verdade”, reflete Malu, conhecida pelas caras, bocas e sons em vídeos.
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Já a carioca Lelê acredita que ser uma influenciadora é sobre conexão, e não projeção. “Antigamente era tudo mais distante e aspiracional. Hoje, há mais critério, responsabilidade, e uma comunicação descentralizada.” Antes restrito a um pequeno círculo, o prestígio parece estar ao alcance de todos. Atravessam aí, entretanto, as questões de classe, raça e gênero, afirma o pesquisador em Teoria da Moda pela USP, Brunno Almeida. “Há uma busca por vozes que consigam expressar, por meio de visão de mundo, pensamento, conduta e modo de vida, as transformações que a sociedade exige de si mesma. E é nesse ponto que as rupturas aparecem”, analisa.
O especialista também comenta que, no Brasil, as narrativas hegemônicas da influência feminina foram, durante muito tempo, centradas em corpos brancos e pertencentes à elite. “Esse grupo, historicamente, determinou o que era digno de representação no campo da feminilidade, e ocupou majoritariamente os espaços de visibilidade nas capas de revistas, nas telas de cinema e nas passarelas.”
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O novo sempre vem. E com ele, a diversidade. Influenciadores como Gabb, Blogueirinha, Gabi Oliveira, a Gabi de Pretas, e Luiza Brasil trazem o frescor inexistente nos tempos de outrora. Criadora de conteúdo, Luiza está à frente, desde 2013, da plataforma Mequetrefismos, voltada a discussões sobre moda, raça, beleza e inclusão. “Vejo uma invisibilidade grande da mulher negra, que é quem sustenta a estrutura de toda a sociedade. Mas, a sociedade é cíclica. Há momentos de retrocesso e transgressão, e por isso é importante ter repertório e conhecimento”, ela afirma. Saem de cena os sobrenomes poderosos e entram a comunicação assertiva e uma fórmula certeira. Com isso, ganha quem souber aplicá-la, acrescenta Luiza: “A influência agora se baseia mais em poder de comunicação, visibilidade, alcance e engajamento com o público do que no status social e capital cultural, rompendo com os modelos tradicionais de poder feminino anteriores”.
Que o passado reflita, então, o que de melhor possa trazer ao futuro