Pegar um vinil é viver a sensação de ter a música nas suas mãos. É um som que resiste ao tempo, gira no seu ritmo e faz o ouvinte viajar para um universo único. Há DJs que juram lealdade às agulhas, apreciadores apaixonados e jovens que estão descobrindo agora a magia do analógico. Juntos, todos colaboram para manter viva uma cultura que não sai de moda — e que, ao contrário, parece ganhar cada vez mais fôlego nas festas, feiras e coleções dos mais exigentes.
— Ouvir um vinil na vitrola é uma nostalgia. Tem também a qualidade do som e um ritual que envolve a escolha dos discos, olhar a capa, pegar na mão e, o mais importante, ouvir um disco inteiro. Hoje em dia temos uma experiência cortada, escolhemos uma playlist e ela tem músicas de vários discos. Com o vinil você mergulha na proposta de um artista, da época em que aquela obra foi criada. Eu sei a história de como alguns álbuns foram feitos, e são influências que fazem com que eu me relacione com a música de maneira diferente — diz Branca Lee, sócia da rede Empório Jardim e fã dos LPs.
Inaugurado recentemente em Botafogo, o speakeasy Blue Blazer tem a música como o papel central da criação de sua atmosfera. A casa tem uma coleção de vinis que não faz parte apenas da decoração, pois eles podem ser ouvidos pelos clientes.
— Às vezes, quando abrimos o bar, começamos a sessão musical pelo vinil. Tê-los aqui é fazer uma homenagem à experiência sensorial única que eles proporcionam. Cada disco da coleção conta uma história e ajuda a criar uma conexão especial entre os clientes e o local — afirma o sócio e mixologista Lelo Forti.
Washington Luiz, DJ e dono da DJ OnTop, um laboratório de vinil, observa que houve um aumento na procura pelas aulas para aprender a tocar com vinil e chama a atenção para o fato de que cada vez mais mulheres se destacam na cena da música com as chamadas bolachas.
— A maioria das pessoas que busca aprender a tocar com vinil é de profissionais que já atuam no mercado e quer entregar algo a mais para o seu público. Esse movimento vem crescendo nos últimos quatro anos, quando os equipamentos ficaram com preços mais acessíveis — diz.
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Quando tem evento no Sebo Baratos da Ribeiro (@sebo_baratos), em Botafogo, o único som é dos vinis. O gerente Maurício Gouveia se orgulha de contar que nasceu nessa geração. Para ele, não existe um boom atual porque o vinil nunca saiu de cena. No acervo da loja, há mais de 15 mil volumes à venda.
— Não existe uma briga entre um formato e outro, mas, se você observar, o que sobrou foi o vinil. Ninguém ouve mais CD, mas muita gente ainda ouve LP na vitrola. Vendo discos para quem quer escutar, não para quem quer um objeto decorativo; eu não faço decoração de interiores. Não é para colocar na parede de casa e tirar onda com os amigos. Também é preciso desmistificar. Existe diferença entre uma vitrola ruim e uma boa. A qualidade do som vem dos equipamentos, como caixas e amplificadores. Eu prefiro o som do vinil porque o acho mais quente, mas não é só isso. Ele é um produto artesanal, tem informações, você sabe quem foi o engenheiro de som, quem produziu, quem são os músicos. No streaming você não tem isso. Os discos têm também as capas. Eles contextualizam a música e trazem a sua audição para um outro grau de atenção. Você tem que levantar para virar o lado, não dá para deixar o disco tocando e sair para fazer outra coisa, ele chama você de volta a cada 12 ou 15 minutos — avalia Gouveia.
Morador de São Conrado, Rogério Varella, conhecido como DJ RV, tem 15 anos de carreira e sempre tocou com vinil, não só no Brasil, mas também na Europa, na Austrália e em Bali, na Indonésia:
— O vinil é um instrumento. Não é só tocar. Você tem que estudar, tem partituras, os movimentos com as mãos não são aleatórios. Acredito que está rolando um movimento de valorizar o antigo, o orgânico. Atribuo esse retorno ao fato de ele ser físico. No streaming você não “vê” a música, mas no disco você pode pegar, ler a capa, descobrir curiosidades sobre elas. Sem contar que tem o chiadinho. Quem gosta de vinil é viciado nesse chiadinho.
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DJ desde 1997, Marcelinho da Lua, morador de Ipanema, acredita que os vinis são produtos apaixonantes e imortais e que todas as gerações, um dia, vão querer e procurar as bolachas. Ele conta que quando entra em uma loja se esquece da vida e chega a perder compromissos.
— Hoje, os artistas fazem um single; antes, faziam um disco. Antigamente os álbuns eram mais pensados, existia uma ordem para ouvir. Hoje em dia se escuta qualquer coisa. Existe uma capa, um design. Acho que esse movimento segue uma tendência que é desacelerar. Gosto de dizer que curto os vinis que me fazem morar neles. Escolho um disco e fico nele um tempo, escuto do início ao fim, curto a história daquele álbum. Eu os coleciono há anos, e não é por vaidade —conta.
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Marcelinho da Lua tem até a vontade de criar grupos para ensinar as pessoas, principalmente jovens, a comprarem discos. Seu acervo pessoal tem cerca de cinco mil LPs, e ele diz que tem só a nata. Um de seus projetos é estudar o catálogo de gravadoras para remixar e editar esse material, muitos de artistas esquecidos e de obras que ninguém sabe que existem.
— Tem que saber se está empenado, arranhado, aprender a procurar o arranjador… Quantos discos eu já não comprei sem nem saber quem era o cantor, mas conhecia o arranjador, ou comprei pelo ano, pela faixa, a capa ou até pela gravadora. O vinil carrega uma identidade e é um mundo muito rico de aprendizado. Não tem isso com o streaming — diz.
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Quem quiser ver o DJ nas carrapetas pode ir à festa Ya’Ya (@yaya_high_fi), que é realizada todas às quartas-feiras, no Elena, no Jardim Botânico, das 19h às 22h.
André Costenplatte ganhou seu primeiro vinil aos 2 anos e hoje tem uma coleção com 12 mil itens em seu apartamento em Copacabana. Ele promove a feira Gira Música (@girabrazil), que será em setembro, na Zona Sul, em local ainda a ser definido. E também diz que os discos nunca saíram de cena, mas que agora vivem uma fase de revival.
— Os jovens redescobriram o prazer de ouvir discos porque, mesmo que sejam antigos, eles nos oferecem sempre uma nova descoberta. Muita gente voltou a colecionar porque a música ficou muito abstrata com o MP3 e o streaming. A experiência do disco é diferente. Ainda descubro músicas diariamente — afirma.
Costenplatte é o CEO da Dom Discos, uma loja que vai abrir no Centro do Rio, com três andares e mais de cem mil discos, e promove também a feira Carioquíssima (@carioquissimo), que sempre tem DJs que tocam vinis. O evento tem edição hoje e amanhã, das 14h às 22h, na Praia Vermelha, na Urca.
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No dia 18 de maio, das 11h às 19h, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), no Flamengo, receberá a Feira de Discos de Vinil do RJ (@feiradevinilrj), de Marcello MBgroove e Marcello Maldonad. O artista homenageado será Jards Macalé. O evento acontece há 15 anos e já chegou a receber 4.500 pessoas em uma edição.
— Começamos para manter essa cena ativa. Hoje, o vinil vive um hype. Vemos muitos jovens na feira e muitos filhos acompanhando seus pais. Não acho que é uma nostalgia, é o presente — diz MBgroove, morador de Laranjeiras com mais de dez mil discos em seu acervo pessoal.
Morador de Santa Teresa, o DJ Zé Carlos Méle está acostumado a prender a mesa de som no teto para que a vibração do chão, enquanto as pessoas dançam em suas festas, não faça a agulha pular no disco.
— A galera enlouquece quando vê a gente tocando com vinil. Tem gente que fica curiosa, principalmente a molecada nova que muitas vezes nem consegue entender o que está vendo — diz.
Foi também em Santa Teresa que o DJ Mustafá abriu a loja Vinil do Mustafá (@vinildomustafa), com muitas opções de discos à venda e DJ Sessions na mesa de som que foi do Canecão. Fica na Avenida Almirante Alexandrino 111.
