Quando George Romero morreu de câncer de pulmão em 2017, deixou para trás várias ideias e roteiros para filmes de zumbis. Um deles era um tratamento, “Crepúsculo dos Mortos”, que sua viúva Suzanne Desrocher-Romero descreveu como um “resumo” da franquia, um final para o que começou com “A Noite dos Mortos-Vivos”, em 1968, e continuou por cinco décadas e seis filmes de tirar o fôlego.
George Romero foi o raro artista que inventou um grande monstro moderno, cuja popularidade rivaliza com a de vampiros e fantasmas. A série de TV “The last of us” ou o aguardado novo capítulo do filme “Extermínio” mostram como os zumbis não vão acabar tão cedo. Afinal, o objetivo deles é continuar voltando. Mas e os zumbis de Romero? A linhagem original. O que acontecerá com essa criatura lendária agora que seu criador se foi?
Três mulheres da família Romero lutam com as memórias que têm dele ao mesmo tempo em que tentam responder a essa pergunta. A filha cineasta, a ex-esposa produtora e a viúva também produtora estão desenvolvendo filmes com visões distintas do futuro dos mortos-vivos. Elas não compartilham as mesmas ideias, mesmo enquanto os projetos avançam em paralelo. O zumbi Romero está bem vivo — e muito desorganizado.
Apesar de ser o Dr Frankenstein do gênero, George Romero dizia que nunca se propôs a fazer um filme de zumbi. Ele contava que não conseguiu investidores para um projeto inspirado em Ingmar Bergman e ambientado na Idade Média, então recorreu a algo mais comercial: os mortos-vivos.
Seu trabalho decolou no circuito de filmes da meia-noite, caracterizado por um realismo ao estilo documentário salpicado de sangue e um comentário social mordaz que se tornou mais evidente a cada filme. Mesmo que Romero tenha começado a fazer filmes de zumbi como uma concessão, trouxe um novo nível de ambição política ao terror, incluindo críticas ao consumismo e às relações raciais para o que era visto como mera exploração.
Uma maneira de ver o resto de sua carreira é como uma série de esforços para escapar dos zumbis, mas sempre sendo atraído de volta, muitas vezes com resultados inspiradores. Suzanne Desrocher-Romero, a viúva, se lembra dele dizendo aos produtores que queria que seu último filme se chamasse “Enough of the Dead” (ou “Chega de mortos”, e português). (Eles optaram por “Survival of the Dead”, ou “A sobrevivência dos mortos”, que no Brasil se tornou “A ilha dos mortos.) Os zumbis têm um jeito de te perseguir, mesmo depois da morte.
Desrocher-Romero, de 66 anos, está produzindo um filme que explora o fim do zumbi Romero. A ex-esposa de George, Christine Romero, de 76 anos, colaboradora do cineasta por três décadas, trabalha em um projeto sem título que retorna ao início, ocorrendo simultaneamente à ação de “A noite dos mortos-vivos.
Ambos os filmes estão em desenvolvimento e não se sabe quando serão lançados. Mas há um chegando agora às telas. “Queens of the dead” é uma comédia de terror extravagante e vertiginosa que estreia no Festival de Tribeca neste sábado.
Tina Romero, filha de 41 anos de George, pegou as origens em preto e branco dos zumbis que seu pai criou e as impregnou com cores e um toque drag. Ela imagina o apocalipse zumbi ambientado em uma cena de dança queer no Brooklyn. É uma mudança, mas ainda enraizada na lealdade ao legado de Romero.
Em seu apartamento no bairro de Fort Greene, no Brooklyn, Tina Romero, uma presença esguia e alegre, apoia todos os projetos zumbis da família, mas depois abaixa a voz para confessar: “Estou feliz por chegar primeiro”.
Zumbis não eram o pesadelo da infância de Tina. Eram apenas o negócio da família. Ela andava no set de “Dia dos Mortos” (1985) e, embora a convivência com os filmes do pai tenha despertado seu interesse pela produção cinematográfica, nunca quis seguir seus passos. Seu gosto pendia mais para musicais do que para o caos apocalíptico.
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Ela se concentrou na dança em Wellesley, onde coreografou uma produção com 35 artistas inspirada no videoclipe de Michael Jackson para “Thriller”, que por sua vez prestava homenagem ao zumbi Romero. Era difícil escapar do legado do pai, embora ela tentasse.
Na faculdade de cinema da Universidade de Nova York, ela procurou manter sua conexão familiar em segredo, não querendo se tornar uma nepobaby. Após a formatura, fez carreira como DJ de festas em Nova York. Adotou um alter ego, DJ TRx, e uma máscara de coelho, um tema que aparece em seu filme. Quando uma dessas festas se envolveu em polêmica, um produtor publicou um manifesto online intitulado: “Quando a comunidade queer vai parar de devorar a si mesma?”
Foi aí que os zumbis realmente pegaram Tina Romero. Ela descreveu o momento como um “relâmpago”, gerando a ideia de um filme de zumbis sobre festas rivais, um conceito que ela desenvolveu com seu pai, que a encorajou a seguir em frente pouco antes de morrer.
“Queens of the Dead”, escrito por Tina Romero e Erin Judge, evita uma história de origem, mantendo a intenção original de George Romero. “Era muito importante para mim não explicar de onde eles vieram”, disse Tina sobre os zumbis. “Não se trata de ciência ou de um colapso nuclear. Nós, como humanos, queremos explicar, mas eu não queria responder a essa pergunta. É aqui que o zumbi de Romero é diferente. Não é o ‘Exterminador do Futuro’.”
A virtude de uma origem não resolvida é um tema que surgiu quando conversei com George Romero há mais de 15 anos. Ele me disse que achava a falta de explicação não apenas mais assustadora, mas também mais real. Ele acreditava que nem sempre temos as respostas. Por que os filmes deveriam ter?
George e Christine Romero, mãe de Tina, foram casados por 29 anos, construindo uma vida juntos em Pittsburgh, onde se passa “A noite dos mortos-vivos”. Ela ajudou com o elenco e os roteiros, e até atuou em filmes como “Martin” (1977), “O despertar dos mortos” (1978) e “Instinto fatal” (1988). Mas quando George Romero viajou para filmar “Terra dos mortos” em 2005, ele nunca mais voltou, estabelecendo-se em Toronto, um evento sísmico na família.
“Meus pais eram uma instituição que eu não imaginava que pudesse desmoronar”, disse Tina Romero, que estava na faculdade na época. “Foi difícil. Meu pai fez isso de uma forma que não foi legal. Sapatos no armário. Canetas na mesa.”
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Ela se esforçou para se manter próxima, fazendo amizade com sua nova esposa e visitando-o em Toronto. Mas o efeito da separação abrupta na família persistiu.
A mãe dela, Christine, disse: “Nunca vou perdoar a maneira como ele foi embora”, acrescentando que só o viu uma vez depois disso e que não foi nada bom. Enquanto falava em um apartamento no Upper West Side, seu novo parceiro, o artista George Nama, sentou-se à sua frente. Ele estudou no ensino médio com George Romero e até colaborou com ele em uma exposição relacionada a um conto que o diretor escreveu. Em determinado momento da entrevista, ele se levantou para esclarecer que permaneceu amigo do cineasta até o fim e, em seguida, saiu da sala.
Christine disse que levou seis meses após a partida do marido para perceber que ele não voltaria. “Nunca tive um desfecho”, disse ela. “Até hoje, não sei por que isso aconteceu.” A falta de explicação, ela insinuou, tornou a separação ainda mais difícil.
Quando George Romero morreu, Christine herdou vários de seus roteiros, que não teve sorte em vender, e os direitos do remake de 1990 de “A noite dos mortos-vivos”. Quando o produtor Roy Lee (“Um Filme Minecraft”), da Vertigo Entertainment, a contatou para expandir “o universo zumbi de Romero”, ela viu o potencial e vendeu seus direitos para a MGM Amazon, que planejou um filme de US$ 35 milhões e contratou LaToya Morgan (“The Walking Dead”) para escrever o roteiro. Houve rumores de zumbis mais rápidos no início do processo, mas Lee disse que seriam zumbis lentos, como sempre foram os de Romero.
Este filme adota uma abordagem hollywoodiana da propriedade intelectual, seguindo a partir do material original mais conhecido. A trama se passa no mesmo período de “A noite dos mortos-vivos”, mas se desenrola a partir da perspectiva da esposa do protagonista negro interpretado por Duane Jones, que foi morto pela polícia no final.
Questionada sobre o legado de George Romero, Christine riu e respondeu com desdém: “Para mim, não há nenhum”. Ela mudou de assunto para a filha, que, segundo ela, tinha a mente de uma diretora desde pequena.
Christine leu um roteiro inicial de “Queens” e sentiu um déjà vu ao visitar o set de filmagem em Nova Jersey, que, segundo ela, Tina administrava como seu pai: ambos eram discretos, afetuosos e tomavam decisões rapidamente. “Foi emocionante e um tanto nostalgicamente triste para mim”, disse ela, “porque aquela parte da minha vida acabou”.
Seu filme está atualmente no limbo, com a MGM alegando, nas palavras dela, que “não gostam dos direitos”, uma vez que “A noite dos mortos-vivos” agora está em domínio público. “Tem sido uma batalha”, acrescentou.
Advogados se envolveram. “O que eles querem que eu diga: ‘Ninguém mais pode ter nada a ver com ‘A Noite dos Mortos-Vivos'”, disse Christine. “Não posso dizer isso, porque Suzanne, a nova esposa, está fazendo ‘Crepúsculo dos Mortos’.” Ela suspira. Quando Romero morreu, deixou Desrocher-Romero no controle da maior parte de seu patrimônio. “Ela não entende nada de cinema”, disse Christine Romero, cansada. “Horrível. Mas é isso que é.”
Desrocher-Romero trabalhava como bartender quando George Romero entrou em seu estabelecimento durante a pós-produção de “Terra dos mortos”. Ela disse que nunca tinha ouvido falar dele. Mas eles se deram bem imediatamente. Assim como Christine, ela disse que ele estava ressentido com a indústria cinematográfica, sentindo-se esquecido e subestimado. Desrocher-Romero disse que sentia uma grande responsabilidade tanto pelo projeto final de George quanto por seu legado como artista fora do gênero. É por isso que ela criou uma fundação dedicada à obra dele. (Tina Romero é vice-presidente.)
Ela espera começar a filmar “Crepúsculo dos mortos” no Havaí no outono. Brad Anderson (“O Operário”) está dirigindo um elenco que inclui Milla Jovovich. Questionada se haveria personagens de filmes anteriores de zumbis de George Romero, ela disse que não, e então se esquivou: “Há algumas coisas que voltarão” de filmes mais antigos.
Se o filme for fiel à filosofia de George Romero, não será “apenas sangue e tripas”, disse ela. “O zumbi era, na verdade, uma metáfora para os humanos. Nós somos o problema.”
Desrocher-Romero acrescentou que George Romero jamais teria se interessado em retornar a “A noite dos mortos-vivos”. Ele sempre se concentrou no futuro. Ela se lembrou de ter perguntado a ele durante uma partida de Scrabble qual seria seu legado. Ele respondeu: “Ninguém se importa”. Ela refletiu sobre isso: “Essas palavras me assombram”.
À medida que sua estreia se aproximava, Tina Romero admitiu estar um pouco ansiosa com as expectativas dos fãs de seu pai. “Espero que as pessoas não achem que é muito leve”, disse ela. “Mas se você quiser ver algo sombrio, assista ‘A substância’ e depois veja esse. Você vai dormir melhor.
Promovendo seu último filme, George Romero deu uma entrevista online na qual falou sobre o fim de seu casamento. “Não sei se a Chris se cansou de mim ou se eu me cansei dela. Seja lá o que tenha acontecido, não quero entrar em detalhes”, disse ele, acrescentando que seu maior orgulho era ter sua filha, Tina, trabalhando em um filme de zumbi.
Tina Romero não tinha visto esta entrevista. Depois que a enviei, ela respondeu dizendo que foi uma das poucas vezes em que ele falou sobre o divórcio. “Embora eu não goste da visão dele sobre o assunto (um pouco blasé), estou tocada pelo que ele diz sobre mim”, escreveu ela. “Parece uma pequena carta de amor dele em um momento crucial da minha vida.”
