Aos 36 anos, Dakota Johnson se viu diante de uma sensação que vai além do desejo de ser mãe: a impressão de que a própria vida deveria estar em outro ponto. A atriz falou sobre imaginar que já teria filhos nesta fase e sobre como pode ser difícil acompanhar amigas e pessoas próximas construindo suas famílias enquanto esse plano ainda não se concretizou para ela.
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A experiência toca em uma expectativa conhecida por muitas mulheres. Ao longo da vida, casamento, carreira, independência financeira e maternidade costumam ser apresentados como etapas que deveriam acontecer em determinada ordem e faixa etária. Quando a trajetória não segue esse roteiro, conquistas alheias podem funcionar como um lembrete do que ainda não aconteceu, mesmo quando existe felicidade genuína pela pessoa que está vivendo aquela experiência.
“É possível ficar genuinamente feliz por uma amiga que engravidou e, ao mesmo tempo, sentir tristeza porque aquilo também representa um desejo seu. São sentimentos que podem coexistir”, explica a psicóloga Letícia de Oliveira. Segundo ela, a comparação passa a ser prejudicial quando diferenças entre trajetórias são interpretadas como sinais de fracasso pessoal.
“O problema surge quando a mulher olha para a vida da outra e conclui que está atrasada, que fez escolhas erradas ou que deveria estar vivendo exatamente a mesma fase. Não existe um cronograma universal que determine em qual idade cada conquista precisa acontecer”, acrescenta.
Quando a maternidade também envolve o fator idade
No caso de quem deseja ter filhos, a questão ganha uma dimensão que não se aplica da mesma maneira a outros projetos de vida. A fertilidade feminina sofre mudanças ao longo dos anos, principalmente em razão da quantidade e da qualidade dos óvulos. Isso, porém, não significa que exista uma idade específica a partir da qual uma mulher deixe de conseguir engravidar.
Segundo a ginecologista e especialista em Reprodução Humana Rosaly Bustelo Saab, conhecer os efeitos da idade sobre a fertilidade pode fazer parte do planejamento, sem transformar a informação em motivo de ansiedade.
“A fertilidade feminina apresenta uma redução progressiva ao longo dos anos, principalmente em razão das mudanças na quantidade e na qualidade dos óvulos. Mas não existe uma chave que vira aos 35 anos e torna uma mulher infértil. Cada paciente possui uma história reprodutiva diferente. Quando existe o desejo de ser mãe, conhecer essa realidade individual permite tomar decisões com mais informação e menos medo”, afirma.
A idade é apenas um dos aspectos considerados em uma avaliação. Histórico ginecológico, condições de saúde, reserva ovariana e outros fatores também podem ser levados em conta para entender as características reprodutivas de cada mulher.
Planejar também é uma possibilidade
É nesse ponto que o planejamento reprodutivo pode entrar na conversa. Quem deseja ser mãe, mas pretende adiar a gravidez, pode procurar orientação médica antes de começar as tentativas. A avaliação não significa que exista necessariamente um problema, mas pode ajudar a conhecer as possibilidades e os limites individuais.
Para a ginecologista e obstetra Larissa Abib Daun, que atua com Reprodução Assistida e tem pós-graduação em Reprodução Humana Assistida, buscar informação antecipadamente pode ser uma forma de tomar decisões com mais clareza.
“Não é necessário esperar tentar engravidar e encontrar uma dificuldade para começar a conversar sobre fertilidade. Se a maternidade faz parte dos planos, mas não é um projeto para agora, uma avaliação permite entender melhor a situação reprodutiva e conhecer as possibilidades disponíveis. Isso não significa antecipar um problema, mas oferecer à mulher informações para que ela possa tomar decisões de acordo com seus planos de vida”, observa.
Entre as alternativas de planejamento está o congelamento de óvulos. O procedimento pode ser considerado por mulheres que desejam postergar a maternidade em determinadas circunstâncias, mas não oferece garantia de uma gravidez no futuro.
“O congelamento de óvulos é uma ferramenta de planejamento reprodutivo, não uma promessa. A idade em que esses óvulos são congelados é um dos fatores importantes para as chances futuras. Por isso, quando existe o desejo de adiar a maternidade, vale conversar com um especialista para compreender benefícios, limitações e o momento mais adequado para cada caso”, pondera Larissa.
A vida não precisa seguir o mesmo roteiro
A informação médica, no entanto, é apenas uma parte da questão. A sensação de estar atrasada também pode nascer de expectativas construídas ao longo dos anos e da comparação com pessoas que parecem estar vivendo exatamente a fase que se imaginava alcançar.
Para Letícia, reconhecer esse desconforto não significa transformar o desejo de maternidade em algo menor. A questão é separar um plano pessoal da ideia de que existe uma idade correta para realizá-lo.
“Talvez seja importante trocar a pergunta ‘por que ainda não aconteceu comigo?’ por ‘o que eu desejo construir a partir de agora?’. Podemos reconhecer que determinada experiência não aconteceu no momento imaginado sem transformar isso em fracasso. A vida de outra pessoa não é um relógio dizendo quanto tempo nos resta. É possível rever planos, fazer escolhas e construir novos caminhos sem diminuir tudo aquilo que já foi vivido”, finaliza a psicóloga.
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