Festa do Peão de Americana, interior de São Paulo. Dia 8 de junho. Já passava da meia-noite e uma garoa caía sobre os chapéus na plateia, mas o sertanejo Gustavo Mioto animava a galera com sucessos como “Causador de choro” (sobre um rapaz cansado de sofrer por amor que virou um “tranqueira”) e uma tirada ou outra (“Se alguém já te fez de lixo, fique tranquilo, porque o que mais tá na moda hoje é reciclagem”). Nas redes sociais, especulava-se se Ana Castela, outra estrela do sertanejo, subiria no palco para cantar “Princesa” ao lado dele. A canção figurou entre as 30 mais ouvidas pelos brasileiros no Spotify na data de lançamento, três dias antes.
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Até que Mioto anunciou: “Senhoras e senhores, cantem agora com Ana Castela”. Mas Ana só apareceu no telão. No vídeo, os dois apareciam cantando, olhos nos olhos (“Eu vou soprar, beijar/ Beijar, te amar até curar a dor”) enquanto Mioto se movia pelo palco, de regata e calça justa pretas (a jaqueta de couro fora abandonada no começo do show). Quando gravaram o clipe, em outubro passado, ainda eram namorados. O relacionamento acabou (pela terceira vez) em 8 de dezembro.
Na van a caminho de Americana, Mioto disse ao GLOBO que os dois sabiam que o lançamento de “Princesa” ia atiçar os fãs que torcem pela volta do casal. E que, uma hora outra, eles iam se encontrar no palco (o que aconteceu, três dias depois, num show do cantor Luan Pereira, em Maringá).
— A gente não é inimigo, a gente é só ex-namorado — insistiu o cantor de 28 anos, que está sem cabeça para o amor e só pensa em trabalho. — Eu tenho duas carreiras agora. Se uma já consumia 99% do meu tempo, imagina duas!
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Uma delas começou quando ele tinha 13 anos e tocava numa banda de baile em Votuporanga (SP). Aos 15, lançou seu primeiro disco, “Fora de moda”. Estourou em 2017 com “Impressionando os anjos”, uma canção melancólica sobre um homem que imagina conversar com sua companheira morta: “Terminei o livro que você pediu pra eu ler/ E só na página 70 eu entendi você/ Naquela parte onde diz/ Que o amor é fogo que arde sem se ver”.
Mioto até canta músicas cheias de “suor” ou construídas ao redor do verbo “sentar”: “Cê vai pegando eu, vou pegando você”, diz “Nada com nada”, sua faixa mais ouvida no Spotify, parceria com os pagodeiros do Menos é Mais. Mas na verdade ele é um romântico. Mesmo quando é festeiro. “Eu morro de medo de morrer de amor”, confessa o protagonista de “Eu fujo”, um cara que vive “atolado nos rolo”.
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No começo de junho, Mioto “apertou o play” de sua segunda carreira — a internacional. Ele foi a Nashville, o coração da música country, e se reuniu com Mike Harris, CEO da Universal Music nos Estados Unidos. Apresentou sua trajetória de sucesso no Brasil e seu desejo de se arriscar cantando em inglês. E assinou contrato com a William Morris Endeavor, agência de entretenimento que representa talentos como The Weeknd e Shakira.
Fanático por música country desde menino, Mioto pensa em adicionar latinidade ao ritmo americano, propondo diálogos com gêneros como o arrocha e o piseiro, coisa que o sertanejo já faz muito bem. Ele está trabalhando com uma equipe de compositores americanos para criar um repertório internacional.
— Eu já tinha tentado compor em inglês, mas os sentimentos não vêm naturalmente. Eu amo e odeio em português. E a linguagem coloquial, das ruas, é difícil aprender sozinho. A gurizada me ajuda — conta. — Numa música, eu queria falar algo como “a gente já tentou e sabe que vai bater cabeça”. Como traduzir isso? Aí eles lembraram do drinque fire and ice (que mistura a refrescância da hortelã e a quentura da canela). O começo da música ficou assim: “We’ve been here before/ Too many nights, too many fights/ too much whiskey, fire and ice”.
Mesmo em inglês, ele garante que a essência de suas músicas seguirá a mesma.
— Eu sou um cara romântico, vou continuar sendo romântico lá. Vou sempre falar de amor — diz o cantor, que toca guitarra e violão e se vira no piano.
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Mioto tem jeito de bom moço, de quem teve uma boa criação (ele põe o celular de lado toda vez que alguém o chama). Anda sempre com um escapulário no peito, é econômico com as palavras e tempera as frases com pitadas de ironia.
Poucas horas antes do show na Festa do Peão de Americana, Mioto recebeu o GLOBO em seu apartamento em Alphaville, bairro de condomínios de luxo em Barueri, na Grande São Paulo. O cantor saiu da casa dos pais (que moram ali perto) há dois anos — a pandemia atrasou a mudança. Ele mora sozinho, numa casa cheia de badulaques de cultura pop, como uma réplica de Hogwarts (a escola de bruxaria de “Harry Potter”) e um batmóvel assinado pela joalheria Swarovski. Mioto confessa ser “nerdola”. Entre suas tatuagens, destacam-se um console de videogame, a mão do Homem de Ferro (é fã dos super-heróis da Marvel) e os irmãos Bart e Lisa Simpson.
A psicóloga de Mioto diz que ele é “uma alma velha” — o cantor começou a fazer terapia na pandemia “para não surtar”. Faz cerca de 15 shows por mês e, para relaxar, recorre aos charutos e a um hobby adquirido de tanto passear por lojas de aeroporto: o perfumismo. Desde moleque, roubava os perfumes do pai, hoje tem “umas 400 fragrâncias em casa” e está desenvolvendo uma linha própria. Para o show em Americana, escolheu o perfume italiano Xerjoff. Chegando lá, jantou frango com batata-doce, entornou um energético e tirou fotos com fãs no camarim. A dupla Zezé Di Camargo & Luciano apareceu para conversar com “Gustavinho” e o pai dele, o empresário Marcos Mioto, um dos maiores contratantes de shows do Brasil.
— Gustavo Mioto está arrebentando! Não tinha como ser diferente, ele traz a música no sangue por causa do pai — elogiou Luciano.
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Marcos Mioto não esconde o orgulho do filho, mas tentou de tudo para dissuadi-lo da carreira musical: sugeriu que ele entrasse na banda de baile para que a dureza da vida na estrada o levasse a outra profissão.
— Chegou um momento em que só eu era contra! Minha preocupação era ele se machucar, mas ele se saiu muito bem — emociona-se o empresário, que revela um traço que o filho puxou dele: o gosto pela competição. — Não gostamos de perder nem na brincadeira de quem pisca primeiro!
Mioto reconhece que ser filho de um “gênio do mercado” lhe abriu portas no sertanejo, mas acusa a “hipocrisia” de quem atribui seu sucesso apenas ao poder do pai.
— Se você tem o zap na mão não vai pedir truco? Bobo seria quem tivesse a oportunidade que eu tive e não aproveitasse — provoca o cantor — No sertanejo, sempre tem alguém que ajuda no começo. Gusttavo Lima teve Jorge & Mateus, Henrique & Juliano tiveram João Neto & Frederico.
Embora se descreva como “muito ruim de venda” (ao contrário do pai), Mioto é ambicioso e gostaria que o sertanejo não se restringisse sempre à mesma fórmula: refrãos construídos para viralizar nas redes.
— A gente vive num quadradão, sabe? O pessoal vai meio no desespero, atrás de dinheiro ou de sucesso imediato. É como abrir padaria onde já tem muita padaria — analisa Mioto. — Se você tenta explorar mais a criatividade, ou te podam ou te ignoram. Sinto falta de letras com mais história, começo, meio e fim. Não quero ser o caga-regra do mercado, mas acho isso triste, porque o sertanejo tem muita cultura, e os nossos compositores são os mais talentosos do mundo.
Fábio Jr., a alma gêmea
Mioto lamenta que às vezes o público, atiçado pelo sertanejo festeiro, rejeite shows mais românticos, tidos como “desanimados”. Ele tenta reservar pelo menos 30 % do repertório para o amor e se orgulha das letras em que conseguiu abusar das metáforas, como “Geladeira”: “Tô em sentindo o último pedaço/ Que ninguém mais vai querer”. Não à toa, está planejando a turnê “Injustiçadas”, só com seu “o lado B”, para agradar seus fãs mais “emocionados” (e a si próprio).
Fiel à sua vocação romântica, ele gravou dois duetos com Fábio Jr. em seu último disco, “Atemporal”: o clássico “20 e poucos anos” e “Amor é pra poucos”, de sua autoria, sobre um rapaz que pede conselhos a um cara mais velho, “especialista na história”. “Chegou quem sabe do assunto/ Amar às vezes dá medo mesmo”, responde o cantor de “Alma gêmea”.
— O Fábio sempre foi uma referência de como ser romântico sem soar muito bonzinho. Essa coisa do romântico irônico que tem nas minhas músicas vem dele. Às vezes eu estou no estúdio e penso: “o que Fábio Jr. faria?” — conta Mioto, cuja vida amorosa (que o público acompanha com interesse) parece mais tranquila que a do ídolo, casado sete vezes. — É que eu escondo melhor.