A atriz Mariska Hargitay estava em casa, subindo as escadas às pressas, saltando de um canto a outro da sua vida agitada. Eu tive que correr para acompanhá-la. Jardineiros se movimentavam pelos terraços de sua cobertura em Manhattan, e ela pediu desculpas pelo barulho. Sua mais nova obsessão, um piano de cauda herdado da família, dominava a sala de estar, com um banco personalizado com a letra “M”, cortesia do marido, o ator Peter Hermann (da série “Younger”).
— Esse é meu próximo projeto: vou aprender a tocar em breve — prometeu Hargitay.
Mais uma corrida e já estávamos no andar de baixo, um labirinto de escritórios acolhedores. Em uma das estantes, discretamente, estavam alguns dos prêmios de Hargitay. Ela ganhou Emmys por interpretar Olivia Benson, a policial durona e adorada de “Law & Order: SVU”, e por produzir o documentário “I am evidence”, de 2017, sobre a negligência na investigação de casos de estupro.
Foi ali que Hargitay concebeu, editou e até filmou parte de seu projeto mais recente e talvez mais transformador: o documentário “My mom Jayne”. É, ao mesmo tempo, um retrato direto e sem filtros de sua mãe, a estrela e símbolo sexual dos anos 1950 Jayne Mansfield, que morreu quando Mariska tinha apenas 3 anos; uma homenagem ao pai, o fisiculturista e ator Mickey Hargitay; e uma investigação sobre suas próprias origens, marcadas por segredos e lacunas.
Dirigir o documentário, que será exibido em 27 de junho na HBO americana, e contar sua história desbloqueou algo profundo em Hargitay, de 61 anos.
— Agora eu enxergo a verdade com muita clareza — disse ela. — Uma grande névoa, um véu de medo, se dissipou. E simplesmente me sinto em paz. É como um milagre. Há muita dor no que fica não dito. E eu só queria falar. Não estou com medo. Agora posso ser ainda mais Olivia Benson.
O documentário vira a câmera para o que Hargitay chama de “jornada turbulenta”, enquanto ela revisita sua própria história. Quase em tempo real, ela desenterra mistérios familiares e constrói uma relação com uma mãe de quem não guarda nenhuma lembrança. Mesmo assim, o fim traumático de Mansfield, em um acidente de carro do qual Hargitay e dois irmãos saíram com vida, e os sonhos frustrados da mãe em Hollywood moldaram o caminho da filha.
Aprender a ser mulher sob os holofotes; lidar com a fama, a indústria e a maternidade; lutar contra expectativas; encarar a vergonha e a libertação — tudo isso acabou indo para a tela. Ela costurou essas camadas em uma narrativa digna de “Law & Order”, que termina com a revelação pública de que Mickey Hargitay, que morreu em 2006, não é seu pai biológico. “Às vezes, guardar um segredo não honra ninguém”, diz ela no documentário.
Hargitay conhece, há cerca de 30 anos, Nelson Sardelli, um cantor brasileiro cuja breve relação com sua mãe levou ao seu nascimento. Mas ela nunca havia lhe feito o tipo de perguntas diretas que fez logo na primeira entrevista para o filme. Na tela, surge mais do que um toque do olhar firme e desafiador da Capitã Benson, quando ela pergunta: “Por que você não me reconheceu quando eu era criança?”
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Benson é a personagem mais duradoura da série de drama de horário nobre mais longeva da TV. Desde que apareceu pela primeira vez, em 1999, como uma detetive determinada a buscar justiça para vítimas de violência sexual, mulheres passaram a procurar Hargitay para compartilhar suas próprias experiências de abuso e agressão. Para muitas, a personagem se tornou uma fonte de força.
O fato de que a atuação de Hargitay se baseava em suas próprias sombras também é uma revelação impactante. No ano passado, ela revelou que foi estuprada por um homem quando estava na casa dos 30 — algo que levou anos para conseguir reconhecer.
Hargitay só descobriu a verdade sobre sua origem biológica quando já era adulta. Mas, ao crescer, disse: “Eu sempre soube que havia algo estranho.”
Mansfield, que tinha apenas 34 anos quando morreu, em 1967, teve cinco filhos de três casamentos. O marido mais notável foi Hargitay, um atleta húngaro. No auge da fama, os dois formavam um casal badalado.
Mansfield era uma musicista com formação clássica, falava quatro idiomas e estudou atuação antes de estourar na Broadway com a peça “Em busca de um homem”. Ela reprisou o papel no filme de 1957 e estrelou outros trabalhos de grande visibilidade. Mas seu talento como atriz foi ofuscado pelo interesse da indústria em suas curvas. Foi promovida como uma substituta de Marilyn Monroe e acabou sustentando-se com espetáculos em boates que, por vezes, beiravam o vulgar.
Após a morte de Mansfield, sua família raramente contava histórias cotidianas sobre ela, disse Hargitay. O que seu pai lhe dizia, principalmente, era que Mansfield “ouviu as pessoas erradas”. Ela absorveu totalmente essa lição.
—A razão de eu ser como sou é porque aprendi com ela — disse Hargitay sobre a mãe. — Aprendi o que não fazer. Aprendi a não deixar ninguém me dizer quem eu sou. Quem decide sou eu.
Sua força de vontade também veio de Mickey Hargitay. “Foi ele quem me ensinou sobre perseverança”.
Seus pais haviam se separado antes de ela ser concebida, depois se reconciliaram quando Mansfield estava grávida e acabaram se separando novamente. Quando sua mãe morreu, Mickey Hargitay e a esposa, Ellen Siano, a criaram, junto com os irmãos mais velhos, Mickey Jr. e Zoltan, filhos biológicos de Mickey com Mansfield. A relação de Mansfield com Sardelli era pública nos anos 1960, e alguns de seus irmãos sabiam de sua origem biológica dividida, disse Hargitay. Mas isso nunca foi discutido.
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Hoje, ela e Sardelli são próximos; passaram juntos o Dia dos Pais, e ele chorou quando Hargitay lhe disse que, no fim das contas, era grata pelas escolhas que ele havia feito décadas atrás.
E ela ainda se refere a Mickey como seu pai. Inicialmente, contou, temeu que fazer o documentário fosse uma traição a ele. Mas depois percebeu:
—Esse é o maior agradecimento. É como dizer: “Eu sou sua filha.” Estou gritando que ele é o melhor pai e que eu sou amada, e que tudo o que há de forte, bom e íntegro em mim é por causa dele.
Dos irmãos, Hargitay é a única que seguiu carreira diante das câmeras. Mas os roteiros intensos e o peso das histórias alheias cobraram um preço. “Já tive minha cota de trauma colateral”. Também sentia, disse ela, uma responsabilidade de ajudar. Formou-se como conselheira de crise para vítimas de estupro e, em 2004, fundou a Joyful Heart Foundation, que apoia sobreviventes.
—Sempre a cito como exemplo de uma mulher que inspira pelo papel público e pela presença — disse a amiga Gloria Steinem, ícone do feminismo e espectadora assídua de SVU.
Outra amiga, a jornalista Diane Sawyer, se impressionou com a coragem de Hargitay.
— Ela torna tudo possível, porque é forte e generosa — disse Diane.
Talvez mais do que em qualquer outro momento da vida, Hargitay hoje se sente empoderada e livre. Sua atitude, contou, é: “Mal posso esperar pra ver o que vou fazer a seguir.”
Essa foi mais uma coisa que a uniu à mãe; percebeu em ambas o apetite por uma vida intensa e sem concessões:
— Ela era incrível. Esse foi o presente: pude ter tantos momentos com ela. E nós fizemos um filme juntas.